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Um conselho de Ancelotti: calma

O desempenho contra a Escócia autoriza imaginar bons frutos ainda em 2026

Por Fábio Altman, de Miami 26 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 26 jun 2026, 10h45
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Em português para lá de correto, a sobrancelha esquerda sempre erguida, o treinador Carlo Ancelotti deixou o gramado do estádio de Miami, depois da ótima vitória do Brasil contra a Escócia por 3 a 0, e foi direto ao ponto: “Se eu tivesse de fazer uma preleção para a população brasileira, eu diria ‘calma, muita calma’”. Calma, porque houve evidente evolução em relação aos jogos anteriores; e calma, porque há muito ainda a melhorar a partir do desafio eliminatório da fase de 16 avos, na segunda-feira 29, em Houston. A Copa começa mesmo a partir do mata-mata — para a canarinho, com um time ainda em construção, mas também para equipes mais fortes, como a França de Mbappé e a Argentina de Messi. Vinicius Jr., autor de dois gols — ele agora tem quatro —, o grande nome do escrete até aqui, foi ainda mais seco que Ancelotti, na mosca: “Foi o jogo mais correto da competição”. De fato, o empate com o Marrocos, em 1 a 1, foi insosso. O 3 a 0 contra o Haiti, apenas protocolar.

Há, dentro do hotel brasileiro em Basking Ridge, no estado de Nova Jersey, evidente alívio, dada a curva otimista — mas há também a cautela de um grupo que sabe não ser favorito ao título, um tantinho à sombra, o que pode vir a ser muito bom. Um outro modo de compreender o momento, entre o fim da fase de grupos e o torneio para valer, foi traduzido pelo veterano lateral-direito Danilo, do Flamengo, chamado a falar sempre que o bicho pega. Ele tangenciou a psicanálise, levado a comentar a estreia ruim : “A ruptura emocional, vivida ainda na primeira infância, deixa uma marca muito profunda no ser humano. E é justamente daí que vem essa sensação de que sempre está faltando alguma coisa na nossa vida”. Parecia raciocínio deslocado, mas faz todo sentido. Danilo, em seguida, bebeu da mitologia oriental: “Já ouviram a parábola do bambu chinês? Você bota lá a semente e precisa ficar regando, cuidando, e somente depois de quatro, cinco anos, depois de formar uma raiz e uma estrutura complexa, é que ele vai crescer em curto espaço de tempo, muitos metros”.

Quatro, cinco anos? O desempenho contra a Escócia autoriza imaginar bons frutos ainda em 2026. Continua a valer, contudo, por inteligente, a metáfora oferecida por Danilo. Não há, ainda, um conjunto que funcione totalmente encaixado, apesar dos animadores momentos contra os escoceses. Deve-se pôr a culpa da lentidão em acertar a dinâmica no gramado, ao ciclo muito bagunçado, desde 2022. Nas eliminatórias, a seleção foi treinada por Fernando Diniz, Dorival Jr. e, finalmente, Ancelotti, que assumiu o cargo há um ano. É pouco tempo. O time de 1994 cresceu na competição até erguer a taça — mas tinha uma dupla de ataque formada por um excelente jogador, Bebeto, e um gênio, Romário. O onze de 2002 também foi ganhando corpo no torneio, mas havia Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. Agora, a aposta é que Vinicius Jr. cresça ainda mais, secundado pelo excelente Matheus Cunha, goleador discreto.

Ancelotti tem tempo ainda para fazer andar a engrenagem, como fez nos clubes que treinou, campeoníssimo pela Champions League, desde que passe pela etapa que vem aí. Por ora, e com cuidado, lembrando que a partida decisiva será na cidade do laboratório de controle da Nasa, no Texas, é possível asseverar: “Houston, temos um problema”, como na conhecida frase dita pelo astronauta Jack Swigert, um dos heróis da missão lunar da Apollo 13. Mas, tal qual na história depois levada ao cinema, o problema foi resolvido e salvaram-se todos, em triunfo de sobrevivência.

E então, caso dê tudo certo, depois de um fim de semana de ansiedade, o país seguirá girando ao redor de um planeta chamado Neymar. Ele entrou nos quinze minutos finais contra os escoceses — “Ê ô Neymar! Ê ô Neymar!”, gritavam os torcedores de amarelo. O camisa 10 do Santos pode ajudar, sim, mas por um motivo que caminha à margem do campo, ao viver uma curiosa e inédita situação em sua ruidosa carreira: entre os colegas, ele é coadjuvante, ainda que se gaste tinta na imprensa e horas nas redes sociais com o personagem. A discrição, caso seja possível mantê-­la, pode fazer muito bem para a seleção. Por ora, Vinicius Jr., Matheus Cunha e companhia vão bem. O que fazer, então, à espera do quarto desafio, fundamental? Um bom caminho é seguir Ancelotti, a quem os atletas chamam de mister: calma.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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