Tota Magalhães: “É uma batalha constante”
A ciclista carioca de 25 anos fala dos desafios e alegrias de ser a primeira mulher brasileira a competir no prestigiado Tour de France
Como foi disputar pela segunda vez o Tour de France, uma das competições mais importantes do calendário do ciclismo do mundo, sendo a primeira e única brasileira no pelotão? O Tour estoura a bolha do ciclismo, é outro nível de pressão. No resto do ano corremos a uns 45 quilômetros por hora em média; lá, o pelotão anda a 50 quilômetros por hora o tempo todo. Ser a única brasileira mexe com várias coisas: tenho muito orgulho, brinco até com as europeias que hoje em dia está na moda ser do Brasil, e o carinho que recebo é enorme. Mas dói um pouco também: nosso país é gigante e, quando vejo países como a Holanda com tantos atletas na elite, penso em quanto talento a gente perde por falta de estrutura e de segurança para pedalar.
Sua carreira se iniciou no futebol. Por que mudou? Joguei futebol a sério até 16 anos, passei por surfe, tênis, balé. Minha família sempre pedalou por lazer, temos até uma pedalada tradicional no Natal até o Cristo Redentor. Quando decidi que futebol não era para mim, fui atrás do ciclismo. O empurrão veio do técnico de vôlei Bernardinho: fomos de carro para uma prova e ele perguntou meus planos. Falei do meu medo de mergulhar de cabeça e não dar certo. Ele me olhou e disse que nenhuma faculdade ensina o que só o esporte ensina.
A ida para a equipe Movistar é como jogar num gigante europeu do futebol? É exatamente essa sensação. Estar na Movistar é como jogar no Real Madrid. Numa corrida como o Tour, a equipe leva de vinte a 25 pessoas de apoio: ônibus, caminhão de equipamento, cozinha móvel com chef próprio. A comida é controlada para não haver risco de passarmos mal e, assim, comprometer meses de preparação.
O que achou de virar figurinha no álbum do Tour de France? Descobri porque uma seguidora me mandou uma foto da figurinha. É especial porque foi a primeira vez que o álbum trouxe as mulheres do Tour. A (editora) Panini escolhe só três atletas por equipe, e fui uma delas, a única brasileira da coleção. Pena que só sai na Europa. Levo isso como responsabilidade: quero inspirar outras meninas a acreditar nos próprios sonhos.
Qual o balanço dessa segunda edição do Tour feminino, encerrada no último dia 9? Nossa meta era ajudar a suíça Marlen Reusser, principal ciclista da Movistar, a brigar pela vitória. Ciclismo é esporte de equipe: nosso trabalho é proteger a líder e segurar o ritmo para ela. Tivemos um momento lindo, quando ela venceu uma etapa logo e permanecemos no topo por três dias. Só que depois ela se machucou e perdeu a chance de brigar lá na frente. Mesmo assim, saio feliz.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







