“Minha resposta é não parar”
Aos 102 anos, o empresário e nadador Anton Karl Biedermann mantém sua rotina de treinos e competições
Todos os dias, acordo cedo, faço uma hora de musculação e nado por mais de uma hora na piscina do prédio onde moro. Continuo participando de competições master e, em 2024, bati o recorde mundial dos 50 metros costas na categoria acima dos 100 anos. Em breve, serei personagem de um livro sobre longevidade em produção na Alemanha. Se há algo que aprendi em mais de um século de vida é que nunca devemos parar de nos movimentar. Meu gosto pelo esporte começou cedo, numa época em que muita gente dizia que a atividade física fazia mal ao coração. Minha mãe pensava o contrário. Embora não fosse médica, ela tinha uma biblioteca de livros sobre medicina em nossa casa, em Rio Grande, no Rio Grande do Sul. De manhã, fazia minha irmã e eu praticarmos a ginástica de um programa de rádio. Aos 10, eu já havia lido todos os livros da biblioteca.
Entre eles estava a história de Tarzan. Pouco depois, vi o filme de Hollywood em que o personagem era interpretado por Johnny Weissmuller, campeão olímpico de natação. Adorava as cenas em que ele nadava para fugir dos crocodilos. Foi assim que comecei a imaginar que também poderia nadar. Quando nos mudamos para Guaratinguetá, no interior paulista, nossa casa ficava diante do rio Paraíba do Sul, que naquela época ainda não era poluído. Foi ali que aprendi a nadar. Aos 12 anos, entrei num clube para jogar basquete, mas acabei na piscina. O treinador propôs um teste de 50 metros. Eu nem sabia direito o que aquilo significava, mas, ao terminar, ouvi que havia batido o recorde do clube. Depois, nadei pelo Clube Pinheiros, então chamado Germânia, e pelo Corinthians. Aos 15 anos, fui morar em Porto Alegre e entrei no Grêmio Náutico União, onde fui atleta, diretor e presidente. Hoje, sou patrono do clube.
Estudei contabilidade, economia e administração de empresas, fundei uma empresa de auditoria independente e presidi instituições relevantes como a Federasul e o Sebrae. O esporte sempre me ajudou na vida profissional. Por maior que seja uma preocupação, bastam cinco minutos dentro d’água para a cabeça se aliviar. Saímos da piscina renovados: o cansaço mental dá lugar ao físico, que é natural e até gostoso. Aprendi também que o esporte ensina a persistir. Ainda jovem, disputei uma prova de 1 500 metros contra um adversário forte. Nadamos lado a lado até os 800 metros, mas, exausto, diminuí o ritmo e perdi. No fim, ele me disse que, se eu tivesse nadado “50 metros a mais”, teria desistido.
Aos 25 anos, achei que estava velho para nadar: naquela época, muitos atletas abandonavam a modalidade nessa idade. Resolvi experimentar o remo e passei os trinta anos seguintes no esporte, viajando pelo mundo. Em 1986, participei de uma competição em Berlim, quando ainda existia o Muro que dividia a Alemanha. O lago em que remávamos ficava junto à fronteira, e os colegas locais nos alertaram para não ultrapassá-la: os guardas atiravam sem perguntar. Vendi minha empresa e me aposentei nos anos 1990, mas nunca abandonei o esporte. Aos 75, voltei à natação porque o remo exigia cada vez mais do físico. Até hoje, mantenho a rotina de musculação e piscina todos os dias.
Também sigo competindo. Neste ano, participei do Masters Games Brasil, no Rio, onde encontro atletas de todo o país. Mais que ganhar medalhas, fico feliz quando alguém me diz que começou a praticar esporte por minha causa. Minha resposta é não parar. Também creio que uma das melhores coisas que podem acontecer a uma criança é uma derrota esportiva. Ela ensina a lidar com a frustração e a superar dificuldades. Não tenho fórmula mágica para chegar aos 102 anos com disposição, mas sei que continuar em movimento faz muito bem ao corpo, à cabeça e à vida.
Anton Karl Biedermann em depoimento dado a Natalia Tiemi Hanada
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017







