Everaldo Marques, a nova voz do Brasil
O locutor titular da Globo é a melhor escolha na mescla das transmissões tradicionais com o novo estilo de narração da era digital
De 1941 a 1968, o coração do brasileiro batia mais forte ao ouvir no rádio a vinheta musical do Repórter Esso, seguida do lema ainda hoje reverenciado: “Testemunha ocular da história”. Há 35 anos, há um grito parado no ar quando roda a marca sonora do plantão de jornalismo da TV Globo, com aquela chuva de microfones nervosos. De quatro em quatro anos, a senha para dar início a algo relevante — e dali aos próximos noventa minutos, pelo menos, além de eventuais prorrogação ou pênaltis — é a chamada do locutor titular da emissora carioca para as partidas do Brasil na Copa do Mundo. Em 2026, a voz do Brasil será a do paulista Everaldo Marques, de 47 anos. O posto caberia a Luis Roberto, forçado a se afastar em decorrência de um câncer na região cervical. Preparemo-nos, portanto, para um singelo “Agora é pra valer” ou o discretíssimo “Muito boa noite, um grande abraço pra você que acompanha a Globo em todo o Brasil”.
Não seria exagero dizer que, depois de Carlo Ancelotti, Marques talvez será o nome mais conhecido durante o mês de competição — ou até quando a canarinho nela permanecer, e sabe-se lá. A televisão aberta, é verdade, perdeu o poder colossal de tempos passados, na concorrência com o YouTube e similares. Em Copas, contudo, é como se o tempo tivesse sido congelado, como se não existisse a internet — e o timbre da Globo é o do Brasil, adorado e odiado. Não há mais o total domínio de corações e mentes, mas será quase isso a partir da estreia contra o Marrocos, em 13 de junho, às 19 horas de Brasília. Ficou na memória coletiva a absurda cena de 2002, nos jogos da madrugada no Japão e Coreia do Sul. Galvão Bueno pedia que as casas e apartamentos piscassem luzes na noite escura, e cidades inteiras pareciam acender e apagar ao ritmo do mestre-sala. É difícil voltar a esse ponto de onipresença, mas é também inquestionável: sempre que a amarelinha entrar em campo, haverá a expectativa de ouvir um “Você é ridículo”, o mais conhecido bordão de Marques, o vozeirão e o sorriso aberto por trás da carcaça de timidez, sujeito que passa horas a fio vendo e revendo vídeos das equipes em cujos jogos trabalhará, obcecado pela busca da perfeição.
Na disputa com os novos estilos de narração nascidos na era digital — de muita gritaria e zoeira, de expressões criadas à exaustão —, Marques talvez seja o locutor mais adequado à transição. Tem o tom adulto, a que nos habituamos a ouvir na televisão, e a iconoclastia das gerações agora plugadas nas redes sociais. Um de seus bordões, “Miga, sua louca, onde é que você vai?”, ele emprestou de memes. Durante a Copa, é natural, terá de adaptar um pouco a pegada — talvez menos brincalhona, mas sem perder o tom moldado na narração de outras modalidades, como a Fórmula 1, o basquete da NBA e o futebol americano da NFL. Marques, ao narrar, parece estar conversando com o telespectador, um olho no gramado, outro nos lares. Há algum estranhamento, claro, dado ser novidade e porque durante muito tempo Galvão Bueno dominava a cena, mas nada como o passar dos anos para reconstruir a história. “É uma honra saber que apenas outros quatro locutores narraram o Brasil em Copas pela Globo (veja no quadro)”, diz. “É imensa responsabilidade, mas creio estar preparado.”
É bom ir se preparando porque a estatística revela, de fato, o alcance do que lhe foi entregue, apesar de vivermos novíssimos tempos, a ponto de até a Globo ter criado um canal, a Ge TV, para navegação nas redes. Tome-se, a título de comparação, a audiência da Globo no Mundial de Clubes do ano passado frente ao mais badalado serviço de streaming, a CazéTV. Na ponta do lápis: a Globo atraiu 131,4 milhões de pessoas com os quarenta jogos que transmitiu, além dos 63 levados ao ar pelo SporTV. Foram 101,3 milhões a mais do que a Cazé TV, com destaque para mulheres (+435%) e jovens de 18 a 34 anos (+216%). No alcance médio diário da cobertura nos dias com transmissão de jogos, a Globo alcançou dez vezes mais pessoas do que o concorrente. O SBT terá Galvão Bueno, mas é difícil que chegue perto dos números globais, porque está entregue ao acostamento da popularidade.
Marques sabe, enfim, que terá de lidar com uma bomba, e convém ter as barbas de molho. Bem-humorado, daqueles que perdem amigos, mas não a piada, ele ri da própria desgraça. Em 2022, no Catar, pelo SporTV, narrou partidas de resultados improváveis — a derrota da Argentina para a Arábia Saudita, na estreia do time de Messi; a virada do Japão contra a Alemanha, por 2 a 1; as vitórias do Marrocos contra Espanha e Portugal. Não demorou para que fosse apelidado de “Ezebraldo Marques” entre os colegas de profissão. Agora, assegura, será diferente. “Fiquem tranquilos, sei que vou narrar os jogos do Brasil, e não vai dar zebra”, diz. “Mas um outro jeito é ver a seleção como azarão, então vai dar certo.” Não depende dele, é claro, mas de Carlo Ancelotti e cia., da sombra permanente de Neymar. Marques intui que será vigiado com atenção, não pode errar (lembra da vez em que narrou um gol anulado, na era pré-VAR, e nem se deu conta), mas supõe que deslizes podem acontecer — contudo, enquanto tem bambu, tem flecha, para ficar com uma de suas frases de efeito, o otimismo no fundo da rede.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997







