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Desclassificação precoce na Copa é desfecho de décadas de improvisação e desmandos da CBF

Resta uma seleção sem cara e de futuro incerto

Por Fábio Altman, de Nova York 10 jul 2026, 06h00
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As vitórias e derrotas no futebol são marcadas, nas paredes de memórias, com fotografias que ajudam a emoldurar a glória e o fracasso. O choro de Pelé nos ombros de Gylmar e Didi, em 1958, um adolescente entre adultos, é o símbolo do tempo em que começávamos a ser reis. Na Copa de 2026, o derradeiro e humilhante retrato foi o de Neymar provocando o goleiro norueguês, Orjan Nyland, antes e depois da batida do pênalti que de nada serviria — ou serviria para revelar a desfaçatez do camisa 10 da seleção, que, depois de pôr a bola na rede, disparou: “Comigo não, otário”. Há que perguntar quem, naquele momento, era o trouxa do diálogo — o europeu que caminhava para as quartas de final da competição ou o brasileiro que, durante o torneio, celebrou a compra de um relógio de quase 1 milhão de dólares numa das folgas e voltaria para casa de mãos abanando.

ILUSÃO - Carlo Ancelotti, perdido no banco: “É o princípio de um novo ciclo”
ILUSÃO - Carlo Ancelotti, perdido no banco: “É o princípio de um novo ciclo” (Marcel Bonte/Soccrates/Getty Images)

Na altercação, Neymar, como se estivesse numa pelada, parecia esquecer que uma rápida reposição de bola poderia culminar, embora no desespero, em uma derradeira chance de ataque. Mas não, aquela cena foi o resumo da terrível tarde de Nova Jersey, na derrota de 2 a 1 para a Noruega do incrível goleador Haaland. Carlo Ancelotti deixou que os noruegueses ficassem durante 60% do tempo trocando passes, ante escassos e ridículos 32% dos brasileiros. A seleção assistiu ao adversário trocar a bola 683 vezes — entre a turma de amarelo, foram apenas 347. A arrogância de Neymar, a passividade de Ancelotti e a estatística — embora nem sempre seja obrigatório ter a bola — iluminam os noventa minutos, mas o pacote de incompetência foi o ápice de uma longa travessia.

Com a precoce eliminação nas oitavas para a Noruega, o Brasil completará 28 anos sem título. É o maior jejum desde que a canarinho foi campeã pela primeira vez, em 1958. É a mesma diferença entre a primeira Copa, em 1930, e a taça inédita — contudo, no período foram disputadas apenas cinco edições, por causa da II Guerra Mundial, e agora já foram seis. Das seis últimas eliminações, quatro foram nas quartas, uma nas semi — o inenarrável 7 a 1 contra a Alemanha — e agora nas oitavas, tal como em 1990. Na Itália, há 36 anos, a seleção de Sebastião Lazaroni perdeu para a Argentina de Diego Maradona por 1 a 0. Ao final do jogo, o canhoto vestiu uma camisa do Brasil, em justificada provocação.

MAESTRO - Haaland conduz o tambor dos remadores: fez o que quis em campo
MAESTRO – Haaland conduz o tambor dos remadores: fez o que quis em campo (Dan Mullan/Getty Images)
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Houve, depois, o tetra de 1994 e o penta de 2002. Na tarde de domingo, 5 de julho — por coincidência um 5 de julho como o da chamada “Tragédia do Sarriá”, em 1982, quando o escrete de Zico, Sócrates e companhia tombou diante da Itália na Copa da Espanha —, foi como se o relógio tivesse andado para trás, enferrujado, parado, destruído. Em 2006, o Brasil foi eliminado pela França. Em 2010, pela Holanda. Em 2014, pela Alemanha. Em 2018, pela Bélgica. Em 2022, pela Croácia. Perder para a simpática galera viking remadora de Haaland representa um andar abaixo, e sabe-se lá até onde vai o fundo do poço, em calvário sem fim.

O drama — agora multiplicado pela incompetência de Ancelotti contra a Noruega e o fato de ele ter morrido abraçado com Neymar, que veio a passeio ou apenas para cutucar os vencedores do outro lado do gramado — vem já de algum tempo, regado pela incompetência da CBF, igualmente infindável. Em 2015, o presidente afastado da entidade, Ricardo Teixeira, teve mandados de prisão expedidos nos Estados Unidos e na Espanha, acusado de lavagem de dinheiro. José Maria Marin foi preso naquele ano, alvo do escândalo de corrupção conhecido como “Fifagate”. É cansativo, mas a fila se estende, e é preciso conhecê-la. Marco Polo Del Nero foi banido do futebol pela Comissão de Ética da Fifa, envolvido também em rolos financeiros. Rogério Caboclo foi afastado depois de uma sucessão de denúncias de assédio moral e sexual. Ednaldo Rodrigues perdeu o cargo por falsificar uma assinatura. O atual presidente, Samir Xaud, um cartola pouco conhecido até assumir a entidade, prometeu pôr ordem na casa e até agora nada. Durante a Copa, sumiu de cena ao ser acusado de manter uma amante nos Estados Unidos às custas do cofre da cartolagem. Xaud negou, mas o estrago estava feito, em fogo amigo.

VERGONHA - O pranto da vergonha do 7 a 1 em 2014: nada mudou de lá para cá
VERGONHA - O pranto da vergonha do 7 a 1 em 2014: nada mudou de lá para cá (Robert Cianflone/Getty Images)
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Com o voo curto, interrompido pelo cometa Haaland, Xaud agora terá tempo para se dedicar ao que realmente interessa à confederação: barrar a criação das ligas, que representariam queda de faturamento da CBF, em briga que apenas começou. “Essa derrota não é um fim”, disse Ancelotti. “É o princípio de um novo ciclo.” Seria melhor supor que, sim, a derrota representa um desfecho e, a partir dele, tentar renascer das cinzas sopradas pelos mandachuvas. Entre 2023 e 2026, a seleção foi treinada por Fernando Diniz, por Dorival Jr. e, finalmente, por Ancelotti. Ficou em vergonhosa quinta colocação nas eliminatórias, sem identidade, sem rosto. Se a atual geração não foi capaz de dar conta da Noruega, os que estão vindo por aí não trazem um currículo muito animador: virou praxe o Brasil dar vexame nos campeonatos das chamadas categorias inferiores, incluindo o escrete olímpico.

A mudança de gestão é fundamental, mas é sempre bom lembrar de um problema estrutural, que soa aborrecido, mas é fundamental. O Brasil, celeiro mítico de craques do meio de campo, os organizadores do jogo, pulmão do futebol, deixou de produzi-los. Só atacantes não salvam a pátria de chuteiras. Com um agravante: os que se destacam, cedo vão embora. O país foi a nação que mais exportou jogadores em 2026, com 1 455 transações, à frente da França, com 1 275. Os brasileiros partiram prioritariamente para Portugal, com 182 contratos assinados, vindo depois Indonésia (74) e Emirados Árabes Unidos (71).

PORTUNHOL - Diego Maradona em 1990: queda também nas oitavas
PORTUNHOL - Diego Maradona em 1990: queda também nas oitavas (Pedro Martinelli/.)
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Há, contudo, uma irônica esperança. A derrota para a Noruega pode ter representado o fim da “era Neymar”, olha ele aí de novo, e isso é muito bom. O santista talvez seja o maior desperdício de um craque que poderia ter sido o melhor do mundo e não chegou lá, com quatro copas e nenhuma taça. Nem é o caso de descrevê-lo fora de campo, porque mesmo no gramado teve má influência: o cai-cai, o cavador de faltas inexistentes, as batidas de pênalti com aquela irritante paradinha. Evidentemente ele não é o único culpado do ponto a que chegamos — e seria mais um fruto do apodrecimento do que a árvore que produz ervas daninhas —, mas Ancelotti, ou qualquer outro treinador, não ser obrigado a chamá-lo, por pressões econômicas, representa um tremendo avanço. É duro admitir, mas somos apenas um país de futebol mediano, apesar de algumas estrelas que brilham na Europa. O Brasil foi eliminado da Copa na mesma fase de Canadá e Paraguai. Vai longe a definição do cineasta Pier Paolo Pasolini, italiano como Ancelotti, que ao ver a seleção de 1970 definiu o grupo de Pelé como “poesia”, em oposição a outras seleções, que praticavam a “prosa”. Já não somos poetas e perdemos o tom da prosa.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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