Decifra-me ou te devoro: o enigma de Lionel Messi
Os superlativos, de tão usados, viram recurso banal - mas a atuação do argentino contra o Egito foi mitológica, das maiores da história
A esfinge de Tebas, na mitologia grega, tem corpo de leão, asas de águia e cauda de serpente. O rosto é de uma mulher. A figura propunha um enigma aos viajantes, com o risco de serem devorados caso não fossem capazes de responder ao desafio. A pergunta: “o que é que tem quatro patas pela manhã, duas à tarde e três à noite?” O herói Édipo resolveu o mistério ao responder que o animal era o ser humano: engatinha na infância, anda ereto na idade adulta e usa bengala na velhice. A lenda, espinha dorsal da civilização ocidental, teve origem no Antigo Egito, depois adotada pela turma da Grécia, que importou e transformou a criatura e suas provocações. A esfinge, como em um lunfardo portenho, nunca quis saber: “Decifra-me ou te devoro”.
É o caso de transportar o passado mitológico ao presente de Lionel Messi. Trata-se de decifrá-lo ou então ser devorado, como ocorreu com a seleção do Egito, na virada por 3 a 2, já a caminho do final do jogo em Atlanta. O camisa 10 de Rosário foi sempre um enigma, e durante muito tempo a própria torcida argentina preferia vê-lo de lado, como nos hieróglifos. Na Copa de 2006, ainda muito menino, era reserva. Em 2010, foi discreto. Em 2014, quase chegou lá, mas havia uma Alemanha no meio do caminho. Em 2018, foi barrado por um certo napoleão francês, de nome Mbappé. Até que, em 2022, no Catar, Messi virou adulto – subtraiu a Copa para si e levou os albicelestes ao tricampeonato mundial. Jogou muito, dizia-se ser o último tango do gênio, mas o que deixou seus compatriotas orgulhosos foi uma frase que viralizou na internet, virou pôster, meme etc. “Que mirás, bobo?”, o que você está olhando, bobão, disse o camisa 10 ao jogador holandês Wout Weghorst durante uma entrevista pós-jogo nas quartas de final da Copa do Catar, depois de uma partida violenta. Weghorst ficou desacorçoado, como se Messi tivesse mandado um “decifra-me ou te devoro”. E então, para a hinchada argentina, Messi virou Maradona, sempre mercurial, sempre malcriado, sempre genial.
O “que mirás, bobo”, dístico eterno, marco do título de 2022, virou quase nada diante da reação de Messi ao marcar o gol de empate, 2 a 2 contra o Egito de Salah e Zico, e depois ao apito final, com o placar em 3 a 2. Ao marcar, ele deu um soco no ar como Pelé fazia. Ao fim, chorou. E Messi chora? Ele, perfeito como bonequinho de videogame, autor de 8 gols nesta Copa do Mundo, de 21 ao longo de seis mundiais, virou gente. Gente brava, com sangue nos olhos – perdeu um pênalti, e precisava retomar a moral –, pronto para engolir quem não o entende. E há como entendê-lo, para além do prazer de vê-lo em campo, de toque perfeitos de canhota, de lançamentos precisos, com visão de jogo inigualável, um maestro a reger um grupo esforçado? Talvez não. Messi é uma esfinge. Aos 39 anos, está melhor do que nunca. Quebra, de algum modo, a argumentação edipiana: engatinha na infância, ereto na idade adulta, mas, mas não, não usa bengala na velhice. Até quando ele nos surpreenderá, em claro enigma?







