Carta ao Leitor: O jogo do poder
No auge da globalização do futebol, a Copa do Mundo ocorre sob influência de um governo que vem exacerbando o nacionalismo
A Copa de 2026 já entrou para a história, antes mesmo de seu início. Um dos aspectos que chamam atenção é o tamanho do torneio, dividido pela primeira vez entre três países — Estados Unidos, México e Canadá — e envolvendo um número recorde de seleções: 48. Antes, o Mundial com o maior número de times havia sido o do Catar, com 32 equipes. Do ponto de vista financeiro, o evento representará uma goleada. Segundo estimativas, ele vai movimentar 41 bilhões de dólares na economia global. Nas arquibancadas, os valores nas alturas dos ingressos provocaram um efeito colateral de todo esse gigantismo para o bolso dos torcedores. O preço dos bilhetes mais caros pode chegar a 35 000 reais. Fora dos gramados, a encrenca será enorme, pois a organização demandará um tremendo desafio logístico. Algumas equipes vão se deslocar por mais de 5 000 quilômetros na primeira fase da competição. Nas disputas, os atletas serão levados aos limites da exaustão, diante de uma previsão de temperaturas acima de 30 graus.
Apesar da divisão entre três sedes, os Estados Unidos receberão o número maior de partidas: 78 dos 104 jogos previstos. Para ter uma ideia, a Copa de 1994, a primeira em solo americano, teve um total de 52 partidas. O protagonismo agora não se dá apenas por ser o maior anfitrião do trio. Desde as primeiras tratativas sobre a organização, Donald Trump tomou conta do negócio. Começou a ganhar espaço em campo estreitando laços com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que chegou a condecorá-lo com um prêmio de paz. O republicano vem trazendo ao evento, nos últimos meses, o mesmo estilo imprevisível e autoritário de sua gestão na Casa Branca. Com isso, nunca um Mundial produziu tanto ruído antes do pontapé inicial.
Provocado recentemente a comentar o valor de 1 000 dólares, por baixo, de um ingresso para a estreia dos Estados Unidos contra o Paraguai, em Los Angeles, Trump chutou de canela: “Para ser honesto, eu mesmo não pagaria”. Em plena guerra contra o Irã, ele impôs inicialmente aos persas a obrigação de entrar e sair do território americano no mesmo dia de cada partida do torneio, medida que acabou sendo revista. A agressiva política anti-imigração também já deu as caras, na forma da negação de um visto a um árbitro somali, na terça-feira 8, e nas queixas de várias delegações submetidas a revistas rigorosas na chegada. A liderança de Trump no torneio trouxe ainda o seguinte paradoxo, conforme mostra reportagem desta edição, do redator-chefe Fábio Altman, responsável pelo time VEJA na cobertura da Copa: no auge da globalização do esporte, a festa ocorre sob influência de um governo que vem exacerbando o nacionalismo. O Mundial no qual Trump virou o dono da bola será diferente de todos os outros. Não faltarão diversão, emoção e polêmicas até o dia 19 de julho.
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999
TUDO SOBRE A COPA,
EM UM SÓ LUGAR







