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As raízes judaicas do esquema da seleção

Técnico húngaro que trouxe o 4-2-4 para o Brasil é tema de exposição no Museu do Holocausto em Los Angeles

Por Felipe Carneiro, de Los Angeles 17 jun 2026, 16h47
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Existe uma linha direta entre os campos de concentração nazistas, o surgimento do “joga bonito” que encantou o mundo na Copa do Mundo de 1958, e a seleção brasileira de Carlo Ancelotti. Pelo menos é o que defende uma exposição em cartaz no Museu do Holocausto de Los Angeles, com o sugestivo nome de “O Jogo Bonito… Uma História Não Contada”.

A exposição tem como personagem central o técnico Béla Guttman, húngaro de origem judaica que sobreviveu ao Holocausto, chegou ao Brasil como refugiado e revolucionou o futebol brasileiro ao treinar o time do São Paulo entre 1957 e 1958.

Nascido em Budapeste em 1899, Guttmann foi um dos primeiros astros judeus do futebol europeu, representou a Hungria nas Olimpíadas de 1924 e, depois de encerrar a carreira como jogador, construiu uma trajetória nômade como treinador em mais de duas dezenas de clubes em 14 países. Tudo foi interrompido quando o governo húngaro começou a implementar leis antissemitas em 1938. Primeiro, Guttman perdeu o emprego e foi mandando para um dos campos de trabalho forçado para judeus.

Em dezembro de 1944, já com a Hungria sob o domínio da Alemanha nazista, todos os prisioneiros do campo onde Guttman se encontrava foram colocados num trem com destino a Auschwitz, na vizinha Polônia. Guttmann e mais quatro homens, entre eles o também treinador Ernő Erbstein, pularam pela janela sem alertar os guardas. Sobreviveu os últimos meses da guerra escondido numa fábrica em Budapeste. Ele nunca falou em detalhes sobre o episódio, mas reconhecia a ajuda que recebeu de pessoas que arriscaram a própria liberdade por ele.

Boa parte de sua família não teve a mesma sorte, e seu pai e sua irmã foram mortes antes de a guerra terminar. “Ele nunca entendeu exatamente como havia sobrevivido em Budapeste durante a guerra, e carregava um grande sentimento de culpa”, afirma o jornalista e historiador esportivo Ronen Dorfan, um dos pesquisadores da exposição. “Passou o resto da vida fugindo de seus demônios”.

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Time de futebol São Paulo FC, campeão de 1957, posando para foto em campo. Onze jogadores vestem uniforme branco com listras vermelhas e pretas, e faixas Campeão 1957. Dois homens, um de camisa amarela e outro de terno, também usam faixas. A arquibancada lotada aparece ao fundo
Guttman, de terno, perfilado com o time do São Paulo campeão paulista de 1957 (Arquivo SPFC/Divulgação)

Levou mesmo uma vida nômade no pós guerra. Trabalhou como treinador em clubes na Hungria, Itália e Portugal. Em 1956, estava no comando do Honvéd, o time mais poderoso da Hungria, que reunia os craques da seleção dos “Magníficos Magiares” da Copa de 1954 — entre eles Ferenc Puskás — quando a Revolução Húngara eclodiu e os soviéticos invadiram o país. Os jogadores recusaram-se a voltar para casa. Guttmann organizou uma turnê pela Europa e depois pelo Brasil, onde o Honvéd enfrentou Flamengo e Botafogo. No fim da viagem, o restante do elenco voltou para a Europa, mas Guttmann ficou. Tinha gostado do que viu.

Em 1957, ele assumiu o comando do São Paulo e implementou o esquema tático 4-2-4, sistema desenvolvido na Hungria que substituía a rígida formação 2-3-5 por um modelo mais fluido, com pontas abertos na linha lateral, espaço para improviso e criatividade no ataque. No clube, revolucionou também os treinos, pendurava objetos nas traves para aprimorar a pontaria dos jogadores, e montou um ataque devastador com Gino Orlando, Zizinho e Canhoteiro. Levou o título do campeonato paulista de 1957 com 13 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota, com 53 gols marcados. O São Paulo não conseguiu manter o salário de Guttman, que exigia receber em dólares, e o dispensou depois de um ano.

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O que Guttmann plantou no São Paulo, Vicente Feola colheu para o Brasil. Feola era uma figura singular no clube: tinha sido técnico do São Paulo por décadas, mas problemas cardíacos o obrigaram a deixar o banco e assumir o cargo de supervisor. Foi nessa condição que acompanhou de perto cada inovação de Guttmann. Quando foi chamado para comandar a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, levou o 4-2-4 consigo, dando ao mundo seu primeiro vislumbre do “joga bonito” protagonizado por Pelé, Didi e Garrincha. Sem Guttmann e seu percurso dramático pelo século XX europeu, argumentam os curadores da exposição, o desenvolvimento tático do Brasil poderia ter demorado décadas a mais. “Se não tivéssemos tido o Holocausto, esses treinadores não teriam sido expulsos da Europa”, disse o jornalista Allon Sander, um dos curadores. “O desenvolvimento do Brasil ou o sucesso do Brasil teria chegado muito mais tarde”.

Feola, técnico da seleção, Gylmar e Bellini segurando a Taça Jules Rimet, após a conquista da Copa do Mundo em 1958, na Suécia
Feola, técnico da seleção campeã mundial de 1958, usou o esquema tático que aprendeu com Guttman (Arquivo/Correio da Manhã/VEJA)

Quase 70 anos depois, o esquema de Guttmann volta a ser a identidade da seleção brasileira. Carlo Ancelotti, o técnico italiano que comanda o Brasil na Copa do Mundo de 2026, adotou o 4-2-4 como formação base desde os primeiros treinos da preparação, mas a estreia contra o Marrocos foi marcada por muitas mudanças táticas ao longo da partida. Mesmo em 1958, Zagallo sempre disse que voltava para marcar quando o time perdia a bola, transformando o esquema em um 4-3-3.

Isso não importa muito agora. A história de Béla Guttman é inspiradora por si só e, a julgar pelo desempenho da seleção na estreia contra o Marrocos, talvez seja melhor nem associar seu nome a esse time.

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