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Mundo

Quando é real, você pensa: “Vou morrer. Acabou.”

por Eduardo F. Filho Atualizado em 17 fev 2018, 14h02 - Publicado em
17 fev 2018
07h49

Giovanna Mancini relata momentos de terror durante tiroteio em escola na Flórida, quando ficou de frente com o atirador e passou mais de 2h presa em um armário com outras 40 crianças

Eram 14h28 em Parkland, na Flórida (17h28 no horário de Brasília) quando o telefone de Cinthya Mancini começou a tocar. Era sua filha, Giovanna Mancini, 14, no visor. Surpresa com a ligação da menina, que ela deveria buscar no colégio 15 minutos mais tarde, atendeu e ouviu as seguintes palavras da filha: “Mãe, tem alguma coisa muito errada acontecendo aqui. Não vem pra cá”.

Cinthya não ouviria mais a voz de Giovanna pelo resto do dia. Chegaram a trocar algumas mensagens angustiantes pelo celular quando conseguiam sinal (leia as mensagens abaixo). Apressada, Cinthya pegou as chaves do carro e foi para o colégio da menina –a Marjory Stoneman Douglas High School– a uma quadra de distância.

Cinthya chegou antes de policiais e de bombeiros, e conseguiu entrar na área, que minutos depois seria isolada. Até aquele momento ela não sabia que havia um atirador dentro do colégio e que sua filha estava escondida dentro de um armário, numa sala de aula, correndo grave perigo. O pai da garota, Anderson Alexander da Silva, estava em viagem a San Francisco, e também tentava contato com a filha. Enquanto isso, ao saber das notícias, a tia da menina trocava mensagens em pânico com a garota a partir do litoral de São Paulo, onde mora.

Giovanna estava na aula de marketing quando começou a ouvir barulhos fortes e altos vindo do lado de fora. “ Um barulho e um baque”, explica.

Logo em seguida o alarme de incêndio começou a tocar. Ela chegou a comentar com uma de suas amigas que havia algo estranho ocorrendo, já que o treinamento contra incêndio havia acontecido apenas algumas horas antes, durante o segundo horário de aula.

Mesmo assim, pegou o celular e saiu apressada da sala em direção ao estacionamento. Foi quando o pior momento de sua vida começou. Em entrevista a VEJA, a garota relatou os momentos angustiantes que passou no colégio, como ficou de frente com o atirador e como passou mais de duas horas presa dentro de um armário com outras 40 crianças, se escondendo do assassino.

A seguir, seu depoimento:

***

“Eu acordei umas seis horas da manhã, tomei café e fui para a escola. Era um dia normal para mim, nem senti ou sonhei com algo diferente, muito pelo contrário. Como era dia de São Valentim, minhas amigas compraram presentinhos para mim. Estava cheia de ursinhos de pelúcia, chocolate entre outros presentes. Trocamos os presentes e fui para a sala de aula de matemática, e foi ali que eu vi o meu melhor amigo pela última vez.

No meio da quarta aula nós ouvimos barulhos altos e curtos, como se fossem tiro, mas ninguém pensou que fosse de fato tiro. Era um barulho e um baque. E logo em seguida o alarme de incêndio começou a soar. Foi ai que eu percebi que tinha algo de estranho. Cheguei a comentar com a minha amiga que algo não estava certo, mas como nós tivemos um treinamento de incêndio na segunda aula, nós pensamos que esse era verdadeiro. Eu deixei todas as minhas coisas na sala, peguei apenas meu celular e sai correndo como todo mundo. Durante os treinamentos a gente aprende que precisamos ir para o estacionamento ou para lugares abertos. Foi o que fizemos, fomos em direção ao estacionamento. Quando entramos no estacionamento fomos barrados pelo meu treinador gritando ‘Corre, corre! Sai daqui agora! Ele está aqui’. Foi quando eu liguei para a minha mãe: ‘Mãe, tem alguma coisa errada. Não vem para a escola’.

Eu desliguei porque todo mundo começou a correr. Nisso eu dei a volta no prédio onde ele estava atirando e entrei por uma porta lateral. Foi quando eu o vi. Ele estava de costas para mim, há poucos metros, todo de preto, segurando a arma, só vi a parte traseira dela. Eu fiquei paralisada. Pensei que ia morrer, só dizia para mim mesma: ‘pronto, acabou’. Ele ia se virar, mas a minha amiga me puxou pela minha camiseta e entramos em uma sala de aula que estava aberta. Era o primeiro lugar que a gente viu. Dentro das salas tem um closet, um tipo de armário grande, e entramos lá.

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Estava eu e mais umas 40 crianças. Todas agachadas e quietas. O ar condicionado assim como o sinal do celular havia sido desligado, então o closet estava quente e difícil de respirar com todas aquelas pessoas amontoadas, com medo e sem saber o que fazer. Começamos a escutar muitos tiros, um seguido do outro e de repente parou. O silêncio reinou. Assim que ficou tudo calmo, uma menina que estava dentro do closet derrubou umas caixas que estavam empilhadas no fundo e fez um barulho muito grande. Escutamos passos na sala e mais tiros contra a porta da sala. Uns cinco minutos depois uma pessoa do lado de fora, que eu acredito ser o atirador, começou a bater em nossa porta muito forte, diversas vezes. Eu pensei que eu ia morrer diversas vezes, é uma sensação indescritível, não tem o que falar, foi simplesmente horrível. É um terror.

“Escutamos as crianças e os professores gritando, pedindo socorro, suplicando ‘pelo amor de Deus, não faça isso’, ‘me ajuda, pelo amor de Deus’ e logo em seguida uma sequência de tiros, sem parar, e depois, o silêncio.”

Ele saiu da nossa sala e foi para o andar de cima, acho que ali foi o local do maior número de mortos. Quando ele entrou na sala do andar de cima nós escutamos as crianças e os professores gritando, pedindo socorro, suplicando ‘pelo amor de Deus, não faça isso’, ‘me ajuda, pelo amor de Deus’ e logo em seguida uma sequência de tiros, sem parar, e depois, o silêncio. Os passos dele e mais tiros, gritos de socorro — foi assim por bastante tempo.

O sinal do celular começou a voltar aos poucos e meus pais e minhas amigas começaram a mandar mensagens me perguntando onde eu estava, que já estava todo mundo lá fora, se eu estava bem. Quando elas falaram isso eu entrei em desespero, porque ele sabia que havia pessoas lá dentro, se tinha poucas pessoas dentro do colégio, ele voltaria para a minha sala e mataria todo mundo.

Depois silenciou novamente e não escutamos mais nada por um bom tempo. Nem gritos e nem tiros. Todo mundo quieto dentro do armário, alguns soluçavam baixinho. Foi quando escutamos passos dentro da sala novamente e uma pessoa bateu na nossa porta: ‘Departamento de polícia está entrando. Alguém está ai?’. O policial arrombou a porta e começou a tirar um por um de lá de dentro, mas todos eles estavam apreensivos. Diziam para andarmos rápido com as mãos na cabeça ou para cima e sair correndo. Se perdêssemos algum objeto no meio do caminho para continuarmos andando sem olhar para trás.

O cenário da escola era horrível. Sangue por todos os lados, corpos no chão, às vezes as pessoas reconheciam os colegas estirados no chão ensanguentados. Fomos levados para fora do prédio, os policiais vasculharam nossas mochilas e fizeram perguntas sobre o ocorrido. Tinha muitos carros de polícia, bombeiros tirando as pessoas de dentro do colégio, alguns machucados, chorando e outros mortos. Eu liguei para a minha mãe perguntando onde ela estava e disse a ela que iam me deixar na biblioteca da cidade. Foi quando eu encontrei a minha mãe. Eu fiquei muito feliz em vê-la estava preocupada com ela. Eu pedi muitas vezes para ela não ir para a escola porque eu não sabia o que estava acontecendo.

“Eu fecho os olhos e vêm as imagens daquele dia, o sangue no chão, os corpos e os barulhos incessantes dos tiros.”

Eu não falei com ninguém e nem contei nada para ninguém. Essa é a primeira vez que eu estou falando, estou muito abalada, não estava preparada. Soube ontem que meu melhor amigo não sobreviveu aos disparos e faleceu. É difícil, não tem outra palavra para descrever, eu o conhecia desde o sexto ano. Eu fecho os olhos e vêm as imagens daquele dia, o sangue no chão, os corpos e os barulhos incessantes dos tiros.

Nós temos sempre treinamento de fogo, e às vezes treinamento contra atentados. O último foi feito em janeiro, a gente sabia o que tinha que fazer, para onde ir. Seguimos o que era ensinado, apagamos as luzes, ficamos quietos, nos escondemos, mas não se compara a um treinamento. No treinamento você sabe que é de mentira e faz numa boa. Mas na quarta era real, ou você fazia, ou morria. Você pensa: ‘Eu vou morrer. Acabou. Não tem mais o que fazer, não há voltas’.

Agora eu não sei o que vou fazer. Isso aconteceu na minha escola, mas pode acontecer em outros lugares. Não sei se vou conseguir voltar para a escola e entrar no prédio onde eu sei que muitas pessoas sofreram, morreram e onde eu quase morri.

Tinha dois atiradores. Não posso dar certeza absoluta, mas acredito que sim. Quando a gente soube que o atirador já tinha sido pego e que a gente poderia sair da sala, a gente ainda estava escutando tiro e pessoas gritando. Eu disse isso ao FBI quando me ligaram depois do massacre. Eles me perguntaram se eu estava bem, se eu conhecia o atirador, para onde ele foi depois que ele atirou em todo mundo e se eu achava que tinha outra pessoa. 

Eu não estava estudando na escola quando o Nikolas Cruz foi expulso, não sei o motivo, mas um amigo meu tem um irmão que estudava na escola na época e disse que o menino que atirou tinha uma namorada, e ele não deixava ela em paz e ficava perseguindo ela. Eles terminaram e ela arrumou outro namorado e foi aí que o Cruz ficou louco, eles até chegaram a brigar no colégio.”

***

Giovanna se mudou com os pais para os Estados Unidos em 2012 com o objetivo de ter mais segurança, uma vida melhor e uma ótima oportunidade de estudo.

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