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Dom Pedro II – o que a escola não ensina

Detalhes inéditos da vida do 'último imperador do Novo Mundo' e os bastidores da queda do império estão em novo livro do historiador Paulo Rezzutti, biógrafo da família imperial

Culto, viajado, discreto e apaixonado pelo país. Quem se debruça sobre as biografias de Dom Pedro II, o último imperador do Brasil, deposto pela revolução republicana de 1889, invariavelmente se esbarra nessas características. A história amplamente conhecida do primeiro príncipe nascido em terras brasileiras é marcada por uma coroação precoce, aos 14 anos de idade, muitas viagens pelo mundo e eventos históricos como a Guerra do Paraguai e a abolição da escravatura – tudo isso devidamente registrado em seus fartos escritos.

D. Pedro II pouco depois de completar 10 anos de idade. Félix Émile Taunay, 1837. o.s.t.

D. Pedro II pouco depois de completar 10 anos de idade. Félix Émile Taunay, 1837. o.s.t. (Acervo Museu Imperial/Ibram/Ministério da Cultura)

O que pouca gente conhece, entretanto, é o Pedro por trás de seus diários – do menino apaixonado por sorvete ao imperador que confessava às amantes que estava exausto do fardo da coroa –, bem como os bastidores do golpe que baniu a família imperial do Brasil. Em sua nova obra Dom Pedro II: a história não contada (Editora Leya, 576 p., 69,90 reais), o historiador Paulo Rezzutti, autor de biografias de Dom Pedro I e da princesa Leopoldina, traça um perfil inédito do herdeiro do proclamador da Independência, com quem o último monarca, garante o autor, se parece mais do que se costuma achar. “A relação entre eles era muito forte, tanto que pai e filho trocaram muitas cartas. Em todas, Dom Pedro I dá recomendações ao filho, mas também ao futuro imperador. Não faltam conselhos políticos, como a exortação constante ao respeito à Constituição”, explica Rezzutti, que considera que, nos tempos modernos, o último imperador estaria insatisfeito com os rumos do país. “Áreas como a ciência e a cultura eram especialmente caras para ele, bem como a preservação do passado. Ele ficava bravo quando ia ao Egito, país que adorava, e via que os monumentos históricos recebiam menos verba que as novas construções”, diz o autor.

D. Pedro, d. Teresa Cristina e sua comitiva no Egito

D. Pedro, d. Teresa Cristina e sua comitiva no Egito (Acervo da Fundação/Biblioteca Nacional)

O livro, que será lançado nesta sexta-feira, 30, na Bienal do Rio de Janeiro, também traz à tona detalhes pitorescos da infância do monarca, cartas inéditas às amantes (neste aspecto, Pedro II era muito mais comedido do que o pai) e relatos de diversas testemunhas oculares da Proclamação da República e dos últimos dias da família imperial no Brasil. Veja, abaixo, algumas das curiosidades e teste seus conhecimentos sobre a vida de Dom Pedro II.


Gelado demais

Aos 8 anos, Dom Pedro II experimentou no Palácio uma iguaria internacional que acabara de desembarcar no Brasil, em setembro de 1834: “Já tomei sorvete de limão e de baunilha”, escreveria à irmã, Dona Maria II, rainha de Portugal. A sobremesa, segundo o ministro da França no Brasil, não foi bem recebida pelo público logo de cara: “Nos primeiros dias, ninguém o queria; os brasileiros diziam que o gelo queimava”, relataria. Pedro, entretanto, adorou. Segundo relatos orais, sem comprovação documental, o gosto pela sobremesa foi tamanho que teria levado o menino a contrair laringite. O tratamento de raspagem de pus nas amígdalas teria afetado permanentemente as cordas vocais do imperador que, apesar dos quase 2 metros de altura, tinha voz fina.


Cara de um, jeito do outro

Parecido fisicamente com a mãe, Dona Leopoldina, e nutrindo o mesmo interesse que ela pelas artes e ciências, Dom Pedro II, na verdade, recebeu maior influência do pai. Mesmo depois de partir para o exílio, ele trocava cartas com D. Pedro II em que ora falava como pai ora dava conselhos políticos e o ensinava a seguir a Constituição. Depois de assumir o trono, D. Pedro II chega a passar pelos mesmos lugares que o pai no aniversário da presença de D. Pedro I no local e procura conversar com pessoas que o conheceram. Em Portugal, visitou o túmulo do pai diversas vezes. “Após a visita a d. Amélia, d. Pedro dirigiu-se à Igreja de São Vicente de Fora, onde rezou, no Panteão dos Braganças, junto ao túmulo do pai e das duas irmãs, d. Maria II e d. Maria Amélia”.


Grafiteiro internacional

Imagem inédita da rocha grafitada por Dom Pedro em Imatra, na Finlândia, em 1876

Imagem inédita da rocha grafitada por Dom Pedro em Imatra, na Finlândia, em 1876 (Tuomas Vitikainen/.)

Assim como muitos viajantes, Dom Pedro II tinha a mania de grafitar o próprio nome pelos locais onde passava. No Egito, escreveu o nome nas pedras externas da Pirâmide de Quéops, no sarcófago da mesma pirâmide e em uma ruína próxima de onde ele acampou. Sobre a experiência disse: “Só se faz ideia da altura da grande pirâmide quando se observam os que por ela trepam e vá-se tornando cada vez mais pigmeus”. Além dessa, deixou uma inscrição numa rocha em Imatra, na Finlândia, em 1876.


O monarca democrático

Dom Pedro II não era contra o movimento republicano, a ponto de afirmar em seu diário: “Abdicaria como meu Pai se não me achasse ainda capaz de trabalhar para a evolução natural da república”. Segundo ele, esse era um estágio superior ao império, mas os brasileiros ainda precisavam receber uma educação de base para serem capazes de votar. A simpatia era tamanha que Dom Pedro II chamava republicanos para ocuparem cargos no governo desde que fossem os mais preparados.


Amante profissional

D. Pedro II na abertura da Assembleia Geral, em 3 de maio de 1872, após o retorno de sua primeira viagem ao exterior. Pedro Américo de Figueiredo e Mello, o.s.t., 1872.

D. Pedro II na abertura da Assembleia Geral, em 3 de maio de 1872, após o retorno de sua primeira viagem ao exterior. Pedro Américo de Figueiredo e Mello, o.s.t., 1872. (Acervo Museu Imperial/Ibram/Ministério da Cultura)

Apesar da fama de bom moço, em contraposição ao conhecido perfil fanfarrão do pai, Dom Pedro II teve seu séquito de amantes. Além de seu conhecido caso com a condessa de Barral, o imperador viveu tórridos romances com a condessa de Villeneuve, de origem espanhola, e com a condessa de La Tour, nascida na França. Cartas inéditas não apenas revelam pedidos por fotos, fios de cabelo e cálidas declarações de amor, como mostram a face “malandra” do imperador, que se dizia exclusivamente apaixonado por cada uma das amantes – ao mesmo tempo. Em 31 de março de 1884, escreveu à condessa de La Tour: “(…) acredite que eu a amo com paixão, (…) que deve estar certa de que nunca senti, por quem quer que seja, o que sinto por você”. Um mês depois das juras de amor, escreveu à Ana Maria, a condessa de Villeneuve: “Quantas loucuras fizemos sobre a cama grande com os dois travesseiros. Amo-te cada vez mais, e não posso expressar suficientemente o que sinto por ti”.


O genro cronista

Um dos principais “cronistas” dos momentos que se seguiram à queda do império foi o genro de Dom Pedro II, o conde D’Eu, marido da princesa Isabel. Foi ele quem relatou hora a hora da manhã de 16 de novembro. “Por volta das 7h trouxeram-me os jornais que comunicavam a Proclamação da República (…) os empregados do palácio tinham lágrimas nos olhos”, narra o conde, que registrou também a reação do imperador após receber o telegrama que comunicava a revolução. Segundo ele, Dom Pedro afirmou que “(…) estava pronto para partir até mesmo nesta noite”. Neste momento, prossegue o genro, “a imperatriz jogou-se sobre uma poltrona enquanto escutava gritos nervosos de uma de suas camareiras, Isabel e quase todas as senhoras começaram a chorar”.


O neto apavorado

A Família Imperial na varanda da residência da princesa Isabel e do conde d’Eu, em Petrópolis, hoje Casa da Princesa. Da esquerda para a direita: d. Teresa Cristina, sentada, a princesa Isabel, de braços dados com d. Pedro II, d. Pedro Augusto e o conde d’Eu, todos em pé. Na frente, d. Luís e d. Pedro, príncipe do Grão-Pará. No degrau da escada, d. Antônio, sentado, aos pés de sua avó. Circa 1889

A Família Imperial na varanda da residência da princesa Isabel e do conde d’Eu, em Petrópolis, hoje Casa da Princesa. Da esquerda para a direita: d. Teresa Cristina, sentada, a princesa Isabel, de braços dados com d. Pedro II, d. Pedro Augusto e o conde d’Eu, todos em pé. Na frente, d. Luís e d. Pedro, príncipe do Grão-Pará. No degrau da escada, d. Antônio, sentado, aos pés de sua avó. Circa 1889 (Museu Imperial/Ibram/Ministério da Cultura)

Embora Dom Pedro II tenha encarado a notícia da Proclamação da República com serenidade, apesar da tristeza, a queda do império brasileiro foi bastante dura para o restante dos membros da família. A viagem para Portugal a bordo do navio Alagoas, foi particularmente dura para o neto do monarca, o príncipe Pedro Augusto. Seu tio, o conde D’Eu, relatou que o garoto se encontrava em estado de terror, a ponto de não conseguir dormir ou comer. O barão de Muritiba, amigo da família, relataria que Pedro Augusto estava dominado por uma mania de perseguição, a ponto de ter “lançado as mãos ao pescoço do comandante”. Anos depois, o príncipe alegaria que os relatos eram mentirosos. Em 1934, ele morreu internado em um hospital psiquiátrico.


Oposição a bordo

No trajeto entre o Petrópolis, onde a família real se encontrava no momento da Proclamação da República, e o Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 1889, Dom Pedro II, sua esposa e filhos seriam transportados por um ferroviário simpático à causa republicana, que seria uma das principais testemunhas oculares da partida: “Eu me encontrava na plataforma e presenciei toda a cena (…) verdadeiramente consternado, apesar das minhas convicções republicanas”, escreveu João Duarte da Silveira, que relataria também o nervosismo da imperatriz Teresa Cristina e o semblante tristonho do monarca: “Apesar da firmeza com que o imperador se exprimia, lia-se na sua fisionomia um grande abatimento. Não era o mesmo homem que, dias passados, tinha se dirigido à minha pessoa”.


A vida do último imperador do Brasil é cheia de detalhes curiosos e eventos marcantes. Você está por dentro de alguns deles?