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‘Repercussão é positiva’, diz Tabet, sobre especial do Porta dos Fundos

Desde que chegou à Netflix, o filme de Natal do grupo de humoristas mobiliza polegares frenéticos nas redes sociais

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 20 dez 2019, 10h18 - Publicado em 20 dez 2019, 06h00

Depois de quarenta dias em retiro no deserto, Jesus volta para casa e encontra uma festa-surpresa pelo aniversário de 30 anos. Esperam por ele sua mãe, Maria, os três reis magos, o pai, José, parentes variados e o “tio Vitório”, que é Deus disfarçado para não confundir a cabeça do menino (explicação materna). Mas Jesus (Gregório Duvivier) não chega sozinho: acompanha-o o loiro Orlando (Fábio Porchat), cheio de trejeitos, óbvio parceiro em seu primeiro embate (e derrota) diante das tentações. Esse é o mote da trama escrachada — típica do Porta dos Fundos — que chegou ao serviço de streaming Netflix há três semanas e, desde então, mobiliza polegares frenéticos nas redes sociais. Tem deputado federal evangélico exigindo que o ministro Sergio Moro encabece uma representação criminal contra o grupo de humoristas, outro acionando a Procuradoria-Geral da República para impedir que a Netflix, uma empresa privada, veicule o que bem entender na sua programação, sem falar nos padres que aconselham os fiéis a cancelar a assinatura da plataforma.

“A repercussão no Brasil e no exterior vem sendo tão positiva que estamos animados. Mostramos, mesmo pela carapuça do acaso, que a homofobia ainda é uma triste — mas decrescente, graças a Deus! — realidade no país”, provoca o humorista Antonio Tabet, um dos criadores do canal (por sinal, o intérprete do tio Vitório). Em um ano de fartura de tentativas de cerceamento de conteúdo desagradável ao público conservador, o tema da liberdade de expressão volta à luz da maneira mais estapafúrdia: um esquete humorístico que ninguém é obrigado a ver. “O humor é um ácido que a tudo corrói”, lembra o filósofo Joel Pinheiro da Fonseca.

Fazer piada com a fé cristã não é prerrogativa da Netflix, nem do Porta dos Fundos, nem da comédia brasileira, nem mesmo do século XXI. “A brincadeira com a religião faz parte da história do cristianismo. Esse tipo de reação exacerbada mostra que o cristão moderno perdeu de vista a busca pelo eterno e se acomodou à lógica do mundo liberal”, ressalta o filósofo e escritor Francisco Razzo. A Netflix, que pela primeira vez em sua trajetória abriu os números de assinantes no mundo — 158 milhões, quase 30 milhões deles na América Latina —, deitou e rolou (epa) com a polêmica, que contribuiu para fazer disparar a audiência. E, depois do Jesus gay, de Deus querendo convencer Maria a “fazer uma menina” e outras piadas do gênero, já antecipou: o Porta dos Fundos fará o especial de Natal de 2020. Quem não gostar sempre terá uma opção melhor do que a censura: não assistir, e pronto. É mais honesto, e mais fácil.

Publicado em VEJA de 25 de dezembro de 2019, edição nº 2666

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