Clique e assine a partir de 9,90/mês

A história em quadrinhos se reinventa em tempos de Facebook e Instagram

Quatro quadrinistas famosos na internet contam sua história enquanto se preparam para participar da Comic Con Experience (CCXP)

Por Ana Carolina Avólio - Atualizado em 6 Dec 2018, 14h59 - Publicado em 6 Dec 2018, 08h27

Estabelecida no Brasil como centro de divulgação do que há de mais quente na cultura pop e geek, a Comic Con Experience (CCXP) deste ano vai contar com 530 quadrinistas no chamado Artists Alley (ou Beco dos Artistas). O espaço, um dos maiores do tipo no mundo, receberá uma nova e interessante geração de ilustradores e roteiristas que encontraram na popularização das redes sociais uma maneira de reinventar a arte de fazer tirinhas.

No Facebook, estes quadrinistas arrebanham números pomposos de curtidas, chegando na casa do milhão. Já no Instagram o alcance é menor, mas a maneira de contar as histórias se tornou muito específica e interessante ao encaixar uma pequena narrativa em uma imagem quadrada. Em seguida, quando a rede disponibilizou a possibilidade de publicação de diversas fotos em um só post, a interação com o público aumentou, levando-os a deslizar o dedo na tela, para ver quadro a quadro a história se desenrolar.

Dominar o formato, contudo, não é garantia de conquistar curtidas e compartilhamentos. A fórmula para a popularidade aqui vai além da qualidade do desenho ou da história. Ela reside também na capacidade de criar conexões e identificação com o leitor, de um modo que as HQs impressas nunca entenderão. Para isso, temas que abordam questões sociais, sentimentais e cômicas saem na frente. Quanto mais atuais e conectadas com as notícias do dia, melhor. O resultado é imediato e fácil de contabilizar, o que aponta para um futuro promissor para a arte que encontrou lugar fora do papel.

Conheça a seguir a história de quatro quadrinistas que encontraram nas redes sociais um espaço para divulgar seu trabalho. Todos eles estarão na CCXP, em São Paulo, entre os dias 6 e 9 de dezembro, em mesas de fácil acesso para quem quiser bater um papo.

O humor agridoce do ‘Ângulo de Vista’

Rafael Fritzen, 21 anos, conheceu os gibis ainda criança e foi amor à primeira vista. Mais do que um passatempo, os quadrinhos se tornaram seu refúgio artístico – e, logo depois, seu trabalho. “Em 2015, eu publiquei minha primeira tirinha no Facebook. A recepção foi muito positiva e me motivou a fazer outras. Já faz três anos que eu publico o meu trabalho na internet e nunca parei de atualizar as redes sociais”, conta o criador da página Ângulo de Vista, que acumula mais de um milhão de curtidas no Facebook.

Com uma pitada de ironia, um senso de humor agridoce e um gostinho de autoajuda, o perfil mostra a vida sob uma nova perspectiva – o tal outro ângulo de vista do título. Situações tristes, desesperadoras e trágicas se tornam cômicas, ganhando um tom leve, e frequentemente debochado, pelas mãos do cartunista.

Continua após a publicidade

Apesar de descrever como “difícil” a arte de publicar quadrinhos na internet, Fritzen relembra o lançamento de seu primeiro livro com orgulho. “O momento mais marcante da minha trajetória foi, sem dúvidas, quando o meu livro de tirinhas foi lançado”, conta, referindo-se a Ângulo de Vista: A Vida por Outro Ângulo, publicado em junho deste ano. O futuro para além das redes sociais parece promissor. “Existem boas chances de começar a criar animações, já venho explorando esse outro formato há algum tempo”, adianta. Quem quiser saber mais sobre as próximas aventuras do Ângulo de Vista, basta visitar a mesa E25 no Artists’ Alley da CCXP.

View this post on Instagram

A post shared by Rafael Fritzen (@angulodevista) on


A sororidade de ‘Aliens of Camila’

A relação de Camila Padilha, 22 anos, com a criação de quadrinhos começou logo após a formatura no Ensino Médio, quando ela rabiscava suas primeiras histórias e mostrava a amigos próximos. Durante a faculdade de Design, no entanto, a relação com a arte mudou. “Um dia, eu fiz uma tirinha simples, com uma espécie de desabafo. Postei nas redes sociais e percebi que muita gente compartilhava do mesmo sentimento.”

A identificação do público a motivou a mergulhar no ramo no final de 2016. “Eu conhecia algumas páginas de tirinhas na internet, a maioria de humor, e poucos trabalhos femininos. Então, senti uma necessidade de fazer um trabalho sincero que se comunicasse com mulheres da minha geração”, conta. Foi assim que nasceu a página Aliens of Camila.

Continua após a publicidade

Dona de um traço muito particular, a ilustradora investiu em quadrinhos que refletem seu dia a dia e incluem desde críticas políticas e sociais até temas como empoderamento feminino e sororidade. Logo a página se tornou, além de um exercício artístico, um espaço para compreender e ser compreendida. “Quando eu vejo as pessoas compartilhando tirinhas sentimentais difíceis de serem traduzidas eu fico emocionada”, revela. “A maioria dos meus leitores são mulheres entre 18 a 24 anos, minha faixa etária, e me sinto muito bem em saber que estou criando um espaço de sororidade entre mulheres da minha geração, deixa meu coração quentinho.”

E aparentemente muitos outros corações ficarão quentinhos no futuro. “Não quero dar spoilers, mas pretendo ir além das redes sociais. Meu objetivo é que a Aliens seja um produto transmídia, e já estou caminhando para que isso se concretize”, conta. Camila ocupa a mesa C28 na Comic Con Experience.

https://www.instagram.com/p/Bl3q9VtAioT/


A diversidade ácida do ‘Mentirinhas’

O veterano Fábio Coala também vai se juntar ao time de quadrinistas da internet na CCXP. Dono da mesa D08, Coala começou com as tirinhas em um meio bem diferente: o jornal de sua cidade natal Guarujá, no litoral paulista, quando ainda tinha 15 anos. O mercado era difícil nos anos 1990, e o artista foi se aventurar em outros mares: trabalhou como publicitário, depois salvou vidas como bombeiro. Em 2010 decidiu voltar ao mundo dos quadrinhos e lançou o site Mentirinhas, onde publica artes cômicas e com um frequente toque filosófico.

Criador de diversos e coloridos personagens – entre eles o seu xará Coala – o desenhista revela que planejamento não é seu forte. “Não planejo muito, não. Gosto de produzir as minhas tirinhas diárias e ao menos um livro por ano, daí as coisas vão acontecendo”, conta. Entre as “coisas”, pode-se citar a criação da HQ O Monstro, em 2011, que conta a história de uma criatura roxa que salva pessoas indefesas. O projeto foi um sucesso e alcançou sua meta via financiamento coletivo em apenas um dia. O livro chegou a ser premiado como melhor publicação independente de edição única no 26º Troféu HQ Mix – e era só o começo.

Entre monstros, patos, coalas, anjinhos e demônios, Fábio Coala revela, surpreendentemente, que atribui pouco à inspiração. “Inspiração é complicado. Acho que 5% das tiras são de inspiração, a grande maioria é ‘ralação’, sentar, pesquisar e pensar. Achar uma ideia e desenvolver. Os internautas acabam ajudando no feedback, dizendo do que gostaram e não gostaram”, conta. Para o desenhista, a interação com o público é facilitada graças às redes sociais. “O Instagram foi uma ótima surpresa”, diz sobre a rede onde soma quase 100.000 seguidores.

Continua após a publicidade

View this post on Instagram

AntiPATicO! #tirinhas #comics #quadrinhos

A post shared by Fabio Coala (@mentirinhasdocoala) on


O sentimentalismo amarelo de ‘Aquele Eita’

A relação de longa-data da publicitária Raquel Segal, 23 anos, com o mundo das HQs resultou na criação da página Aquele Eita, com tirinhas que conquistaram mais de um milhão de pessoas. “Um dia resolvi criar o Aquele Eita simplesmente para desenhar quadrinhos de humor, mas acabou tomando um rumo completamente diferente quando veio a ideia de criar tirinhas sentimentais.”

A quadrinista retrata o cotidiano sob um olhar perspicaz, verdadeiro e, muitas vezes, conselheiro. Mais do que o visual, os textos que acompanham os quadrinhos poderiam facilmente se tornar poesias. “Nas redes sociais, conteúdo bom é aquele que motiva identificação e, consequentemente, mais compartilhamentos e comentários, então tem toda uma ideia em cima disso quando crio para a história”, comenta.

Continua após a publicidade

Raquel atribui “um pouco de sorte” ao sucesso da página e relembra quando o músico Tico Santa Cruz compartilhou um de seus trabalhos. “Foi graças a isso que a editora Planeta me achou e fechamos o livro, Sempre Faço Tudo Errado Quando Estou Feliz“. O primeiro título fez sucesso e um segundo está a caminho. Para saber mais sobre as inspirações de Raquel Segal, a mesa B39-40 da CCXP é o lugar certo.

View this post on Instagram

Pessimismo e otimismo lutam entre si diariamente dentro da minha cabeça. ——- 🔽 Compre já meu livro! ♥ 🔽 Amazon – Livraria Cultura – Saraiva

A post shared by Raquel Segal (@aqueleeitaoficial) on

Publicidade