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A história em quadrinhos se reinventa em tempos de Facebook e Instagram

Quatro quadrinistas famosos na internet contam sua história enquanto se preparam para participar da Comic Con Experience (CCXP)

Estabelecida no Brasil como centro de divulgação do que há de mais quente na cultura pop e geek, a Comic Con Experience (CCXP) deste ano vai contar com 530 quadrinistas no chamado Artists Alley (ou Beco dos Artistas). O espaço, um dos maiores do tipo no mundo, receberá uma nova e interessante geração de ilustradores e roteiristas que encontraram na popularização das redes sociais uma maneira de reinventar a arte de fazer tirinhas.

No Facebook, estes quadrinistas arrebanham números pomposos de curtidas, chegando na casa do milhão. Já no Instagram o alcance é menor, mas a maneira de contar as histórias se tornou muito específica e interessante ao encaixar uma pequena narrativa em uma imagem quadrada. Em seguida, quando a rede disponibilizou a possibilidade de publicação de diversas fotos em um só post, a interação com o público aumentou, levando-os a deslizar o dedo na tela, para ver quadro a quadro a história se desenrolar.

Dominar o formato, contudo, não é garantia de conquistar curtidas e compartilhamentos. A fórmula para a popularidade aqui vai além da qualidade do desenho ou da história. Ela reside também na capacidade de criar conexões e identificação com o leitor, de um modo que as HQs impressas nunca entenderão. Para isso, temas que abordam questões sociais, sentimentais e cômicas saem na frente. Quanto mais atuais e conectadas com as notícias do dia, melhor. O resultado é imediato e fácil de contabilizar, o que aponta para um futuro promissor para a arte que encontrou lugar fora do papel.

Conheça a seguir a história de quatro quadrinistas que encontraram nas redes sociais um espaço para divulgar seu trabalho. Todos eles estarão na CCXP, em São Paulo, entre os dias 6 e 9 de dezembro, em mesas de fácil acesso para quem quiser bater um papo.

O humor agridoce do ‘Ângulo de Vista’

Rafael Fritzen, 21 anos, conheceu os gibis ainda criança e foi amor à primeira vista. Mais do que um passatempo, os quadrinhos se tornaram seu refúgio artístico – e, logo depois, seu trabalho. “Em 2015, eu publiquei minha primeira tirinha no Facebook. A recepção foi muito positiva e me motivou a fazer outras. Já faz três anos que eu publico o meu trabalho na internet e nunca parei de atualizar as redes sociais”, conta o criador da página Ângulo de Vista, que acumula mais de um milhão de curtidas no Facebook.

Com uma pitada de ironia, um senso de humor agridoce e um gostinho de autoajuda, o perfil mostra a vida sob uma nova perspectiva – o tal outro ângulo de vista do título. Situações tristes, desesperadoras e trágicas se tornam cômicas, ganhando um tom leve, e frequentemente debochado, pelas mãos do cartunista.

Apesar de descrever como “difícil” a arte de publicar quadrinhos na internet, Fritzen relembra o lançamento de seu primeiro livro com orgulho. “O momento mais marcante da minha trajetória foi, sem dúvidas, quando o meu livro de tirinhas foi lançado”, conta, referindo-se a Ângulo de Vista: A Vida por Outro Ângulo, publicado em junho deste ano. O futuro para além das redes sociais parece promissor. “Existem boas chances de começar a criar animações, já venho explorando esse outro formato há algum tempo”, adianta. Quem quiser saber mais sobre as próximas aventuras do Ângulo de Vista, basta visitar a mesa E25 no Artists’ Alley da CCXP.


A sororidade de ‘Aliens of Camila’

A relação de Camila Padilha, 22 anos, com a criação de quadrinhos começou logo após a formatura no Ensino Médio, quando ela rabiscava suas primeiras histórias e mostrava a amigos próximos. Durante a faculdade de Design, no entanto, a relação com a arte mudou. “Um dia, eu fiz uma tirinha simples, com uma espécie de desabafo. Postei nas redes sociais e percebi que muita gente compartilhava do mesmo sentimento.”

A identificação do público a motivou a mergulhar no ramo no final de 2016. “Eu conhecia algumas páginas de tirinhas na internet, a maioria de humor, e poucos trabalhos femininos. Então, senti uma necessidade de fazer um trabalho sincero que se comunicasse com mulheres da minha geração”, conta. Foi assim que nasceu a página Aliens of Camila.

Dona de um traço muito particular, a ilustradora investiu em quadrinhos que refletem seu dia a dia e incluem desde críticas políticas e sociais até temas como empoderamento feminino e sororidade. Logo a página se tornou, além de um exercício artístico, um espaço para compreender e ser compreendida. “Quando eu vejo as pessoas compartilhando tirinhas sentimentais difíceis de serem traduzidas eu fico emocionada”, revela. “A maioria dos meus leitores são mulheres entre 18 a 24 anos, minha faixa etária, e me sinto muito bem em saber que estou criando um espaço de sororidade entre mulheres da minha geração, deixa meu coração quentinho.”

E aparentemente muitos outros corações ficarão quentinhos no futuro. “Não quero dar spoilers, mas pretendo ir além das redes sociais. Meu objetivo é que a Aliens seja um produto transmídia, e já estou caminhando para que isso se concretize”, conta. Camila ocupa a mesa C28 na Comic Con Experience.


A diversidade ácida do ‘Mentirinhas’

O veterano Fábio Coala também vai se juntar ao time de quadrinistas da internet na CCXP. Dono da mesa D08, Coala começou com as tirinhas em um meio bem diferente: o jornal de sua cidade natal Guarujá, no litoral paulista, quando ainda tinha 15 anos. O mercado era difícil nos anos 1990, e o artista foi se aventurar em outros mares: trabalhou como publicitário, depois salvou vidas como bombeiro. Em 2010 decidiu voltar ao mundo dos quadrinhos e lançou o site Mentirinhas, onde publica artes cômicas e com um frequente toque filosófico.

Criador de diversos e coloridos personagens – entre eles o seu xará Coala – o desenhista revela que planejamento não é seu forte. “Não planejo muito, não. Gosto de produzir as minhas tirinhas diárias e ao menos um livro por ano, daí as coisas vão acontecendo”, conta. Entre as “coisas”, pode-se citar a criação da HQ O Monstro, em 2011, que conta a história de uma criatura roxa que salva pessoas indefesas. O projeto foi um sucesso e alcançou sua meta via financiamento coletivo em apenas um dia. O livro chegou a ser premiado como melhor publicação independente de edição única no 26º Troféu HQ Mix – e era só o começo.

Entre monstros, patos, coalas, anjinhos e demônios, Fábio Coala revela, surpreendentemente, que atribui pouco à inspiração. “Inspiração é complicado. Acho que 5% das tiras são de inspiração, a grande maioria é ‘ralação’, sentar, pesquisar e pensar. Achar uma ideia e desenvolver. Os internautas acabam ajudando no feedback, dizendo do que gostaram e não gostaram”, conta. Para o desenhista, a interação com o público é facilitada graças às redes sociais. “O Instagram foi uma ótima surpresa”, diz sobre a rede onde soma quase 100.000 seguidores.

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O sentimentalismo amarelo de ‘Aquele Eita’

A relação de longa-data da publicitária Raquel Segal, 23 anos, com o mundo das HQs resultou na criação da página Aquele Eita, com tirinhas que conquistaram mais de um milhão de pessoas. “Um dia resolvi criar o Aquele Eita simplesmente para desenhar quadrinhos de humor, mas acabou tomando um rumo completamente diferente quando veio a ideia de criar tirinhas sentimentais.”

A quadrinista retrata o cotidiano sob um olhar perspicaz, verdadeiro e, muitas vezes, conselheiro. Mais do que o visual, os textos que acompanham os quadrinhos poderiam facilmente se tornar poesias. “Nas redes sociais, conteúdo bom é aquele que motiva identificação e, consequentemente, mais compartilhamentos e comentários, então tem toda uma ideia em cima disso quando crio para a história”, comenta.

Raquel atribui “um pouco de sorte” ao sucesso da página e relembra quando o músico Tico Santa Cruz compartilhou um de seus trabalhos. “Foi graças a isso que a editora Planeta me achou e fechamos o livro, Sempre Faço Tudo Errado Quando Estou Feliz“. O primeiro título fez sucesso e um segundo está a caminho. Para saber mais sobre as inspirações de Raquel Segal, a mesa B39-40 da CCXP é o lugar certo.