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“O brasileiro tem um senso global”

Chefão criativo da Netflix, Ted Sarandos fala a VEJA sobre o interesse da empresa pelo país, a disputa com a Globo e o gosto peculiar do brasileiro

Por que investir em produções nacionais? Esse é um processo natural. Desde que chegamos aqui, em 2011, só crescemos. O investimento é consistente com a importância do país, não apenas pelo número cada vez maior de assinantes, mas por coisas que não se medem, como a paixão do brasileiro por consumir conteúdo nosso.

O que o espectador pode esperar da nova leva de títulos? São produções com o DNA do Brasil. Teremos diversidade de cenários, de culturas e de povos. É o país que gosta de jogos de futebol, mas também ama rodeios. É rural e também muito urbano. Tentamos mostrar esses extremos. Uma das belezas do nosso trabalho é que podemos fazer do mundo um lugar um pouco menor, mais familiar e aconchegante. Para mim, uma história brasileira é também uma história do mundo.

Fora dos Estados Unidos, o Brasil foi um dos primeiros países em que a Netflix desembarcou. O que atraiu a empresa? Antes de virmos para cá, fiz a lição de casa. Descobri um público jovem com apetite pela internet e que não estava sendo bem representado pela TV e pelo cinema, além de um mercado com dificuldade de criar e distribuir entretenimento. Era uma audiência desnutrida, que tinha basicamente um grande canal: a Globo.

Vê a Globo como uma concorrente? Não, pois não transmitimos esporte, não fazemos novelas. Somos complementares. A grande diferença é que priorizamos um comportamento mais atual no consumo de conteúdo, caso das maratonas de séries.

Há lugar para todos? Sim, isso é uma realidade nos Estados Unidos. Temos 60 milhões de assinantes por lá. Desde que começamos, a HBO, por exemplo, só cresceu. A previsão de que um mataria o outro não aconteceu.

As assinaturas da Netflix americana se estabilizaram, enquanto crescem no mundo. Isso explica a busca por outros mercados? É comum que empresas americanas de tecnologia e de entretenimento invistam mais da metade de seus esforços no exterior. Se boa parte da receita vem do mercado internacional, nada mais justo que devolver nossos investimentos a esses países.

O que a Netflix sabe sobre o gosto dos brasileiros? É interessante a abertura do Brasil para programas de qualquer lugar do mundo. Geralmente, um título de um país vai bem naquele país e tem um pouco de entrada em outros. Coreia, Japão e Índia são muito fechados. Eles gostam da língua local. O Brasil, porém, gosta do que é nacional, mas é receptivo aos programas americanos, europeus, coreanos, japoneses. É um comportamento peculiar. O brasileiro tem um senso global. E também gosta de experimentar coisas novas.

O excesso de produções e a dificuldade do espectador em escolher aquilo a que vai assistir é um problema para a Netflix? A televisão é uma arte. Existem mais músicas no mundo do que você conseguirá ouvir, mais livros do que poderá ler. Mas ninguém vai se queixar de que existem livros demais em uma livraria. Nosso plano não é desacelerar a produção, mas fazer com que o usuário consiga acessar aquilo de que gosta. Temos um prédio cheio de engenheiros no Vale do Silício empenhados só em tornar nossa ferramenta de sugestão mais personalizada e relevante.

Como responde às críticas de que o menu da Netflix tem muita quantidade e pouca qualidade? Digo que temos quantidade e qualidade. Se não tivéssemos qualidade, não seríamos o produtor com o maior número de indicações ao Emmy nem estaríamos no Oscar. Mas ter prêmios não é o único termômetro. Como medir qualidade? Como dizer a uma pessoa que a série favorita dela não tem qualidade? Nem tudo é feito para um tipo de gosto. Nossas séries mais indicadas às premiações, como The Crown e Stranger Things, são populares e premiadas. Qualidade é algo definido pelo público, que transforma um programa em sua série predileta.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2019, edição nº 2633

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