Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Dona de todos os palcos

Bibi Ferreira, morta aos 96 anos, manteve-se em cena por quase um século como estrela inescapável de peças teatrais, musicais e atrações clássicas da TV

Ao morrer de parada cardíaca na quarta-feira 13, aos 96 anos, em sua residência no Rio, Abigail Izquierdo Ferreira apagou o último holofote de uma carreira iniciada em 1922, quando tinha apenas 24 dias de vida e foi escalada às pressas para substituir uma boneca cenográfica. A peça, Manhãs de Sol, de Oduvaldo Vianna, era apresentada pela companhia teatral de seus pais, o já famoso ator Procópio Ferreira e a bailarina espanhola Aída Izquierdo. Foi a primeira vez que Bibi Ferreira subiu num palco, lugar de onde poucas vezes saiu ao longo de quase um século de vida.

Nascida em Salvador, Bibi experimentou desde os primeiros choros a inconstância da vida na estrada. Sem a indústria do patrocínio, restava às companhias teatrais colocar cenários sobre um caminhão e rodar pelos rincões do país. Foi assim que nomes como João Caetano, Dulcina de Moraes, Paulo Autran e o próprio Procópio Ferreira foram se firmando na cultura nacional. Não havia o suporte da TV. Era uma vida de circo itinerante.

Entre a performance como boneca e a estreia profissional, em 1941, Bibi não teve descanso. Após a separação dos pais, foi viajar com a companhia de bailados espanhóis da família materna. Aos 3 anos, dançou em Santiago do Chile. Cantava, tocava violino, bailava — falando espanhol, a primeira língua que aprendeu. Por volta dos 9 anos, o português retornou à sua vida, ao lado do preconceito. Inscrita no Colégio Sion, no bairro carioca de Laranjeiras, teve a matrícula negada pelas religiosas. Motivo: era filha de artistas. Acabou concluindo os estudos em outro colégio. Aos 7 anos, integrou o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Adolescente, foi fazer balé no Teatro Colón, em Buenos Aires. Por fim, entrou para a companhia teatral do pai.

“É muito bom ser eu, não é?”
– Bibi Ferreira (1922-2019)

Quando o dramaturgo Nelson Rodrigues e o diretor polonês Ziembinski lançaram o moderno teatro brasileiro, em 1943 — com a hoje clássica montagem de Vestido de Noiva —, Bibi era atriz profissional havia dois anos. Ganhou o primeiro salário como protagonista vivendo Mirandolina, na comédia La Locandiera, de Carlo Goldoni (1707-1793). Veio daí seu impressionante timing — o tempo que o ator usa para extrair risos do público, com ritmo certeiro, olhares fulminantes e pausas precisas.

Embora tivesse estudado direção e cinema na Royal Academy of Dramatic Arts, em Londres, foi pouco vista nas telonas. Na TV, então, era presença bissexta. Novelas inteiras, nunca fez — exceto uma participação como Carlota Joaquina, em Marquesa de Santos, na extinta Manchete. Esteve em algumas peças de teatro adaptadas para a nascente televisão, ainda nos anos 50, e em episódios isolados de séries na Globo. Foi como apresentadora de Brasil 60, na extinta TV Excelsior, que marcou época. Muito antes de Hebe Camargo arrumar um cantinho para seu sofá, Bibi reunia atrações musicais e celebridades de passagem pelo país. Poliglota, dona de raciocínio rápido e bem informada, ela era a entrevistadora mais chique que a TV brasileira poderia ter. Para variar, foi um sucesso.

Bibi se atirava ao trabalho com apetite. Sua última peça, a comédia dramática Às Favas com os Escrúpulos, de Juca de Oliveira, pegou a atriz no auge dos 85 anos, em 2007. Longe de servir um arroz com feijão, Bibi brindava o público com uma inesquecível cena de bebedeira, em que sua personagem descobre que o marido senador a traía com a secretária.

Os musicais puseram Bibi num trono especial do teatro brasileiro. Dos importados, como Piaf, aos nacionais, caso de Gota d’Água, ela se sentia em casa. Seu monólogo das fúrias, na tragédia de Chico Buarque e Paulo Pontes (o último marido da atriz), é assustador. Dá para vê-lo no YouTube, assim como trechos de seus últimos shows: Bibi Vive Amália e Bibi Canta Frank Sinatra. Tema de samba-enredo da Viradouro em 2003, Bibi era de firme discrição no dia a dia. Saía pouco, para preservar a voz. Foi casada cinco vezes — com o segundo marido, Armando Carlos Magno, teve a única filha, Teresa Cristina, em 1954. Ao público, informações sobre a vida privada eram dadas a conta-gotas. O que ela queria mostrar era o trabalho. Só não escondeu o prazer de ser homenageada em Bibi, uma Vida em Musical. No fim de uma apresentação, abraçou a atriz que a interpretava, Amanda Acosta, e falou em seu ouvido: “É muito bom ser eu, não é?”.

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622

Envie sua mensagem para a seção de cartas de VEJA
Qual a sua opinião sobre o tema desta reportagem? Se deseja ter seu comentário publicado na edição semanal de VEJA, escreva para veja@abril.com.br