Do gueto ao poder
Pela sinceridade, pelo bom humor e pela trajetória excepcional que relata, a autobiografia de Michelle Obama conquista as brasileiras e bate recordes
Em um país em que se lê pouco e onde qualquer venda perto de 20 000 exemplares é um best-seller, a autobiografia Minha História se prepara para fazer história. Lançado em novembro pela Objetiva, o livro assinado por Michelle Obama, ex-primeira-dama dos Estados Unidos, já contabiliza mais de 36 000 unidades, e subindo — como se percebe em uma ida a livrarias, principalmente entre clientes mulheres. Michelle vem repetindo aqui a marca fenomenal celebrada por seu relato mundo afora: traduzido em 24 idiomas, Minha História vendeu mais de 10 milhões de exemplares, um recorde em apenas seis meses, e caminha para se tornar a biografia mais bem-sucedida de todos os tempos. “O livro de uma mulher negra e nem tão conhecida no Brasil vendeu mais do que a biografia de Gisele Bündchen e três vezes mais do que a média anual de um lançamento no país. Michelle é sucesso absoluto”, diz Eduardo Cunha, consultor do mercado editorial.
O principal motivo para tamanho sucesso é a impressão de que Michelle está sendo completamente sincera ao rememorar sua trajetória, da infância de classe média em bairro de negros em Chicago aos oito anos de Casa Branca (2009-2017). Em texto de boa qualidade, com estilo leve e bem-humorado, ela escreve como se estivesse conversando com o leitor no sofá da sala. A professora de inglês Michelle Perego, 44 anos, de São Paulo, que leu o livro de uma tacada só, destaca justamente esse aspecto. “Michelle consegue mostrar que, apesar de ter uma vida extraordinária, é uma mulher como outra qualquer: quis fazer terapia de casal quando achou que o marido estava trabalhando demais, preocupou-se com a escola em que as filhas iriam estudar, lutou para equilibrar carreira, família e amigos”, elogia. Outro traço da biografia que marca pontos entre leitoras é a capacidade da ex-primeira-dama de trazer à luz os menos favorecidos (“Uma coisa que aprendi na vida é o poder de usar a própria voz”, escreve) desde cedo — mais cedo até que Barack Obama, que entrou como iniciante no escritório onde ela já era advogada poderosa. “É uma mulher forte e segura que sabe da importância do seu papel, inclusive na trajetória do marido até a Presidência”, ressalta outra fã, Camilla Junqueira, 33 anos, CEO da ONG Endeavor Brasil, que incentiva o empreendedorismo.
Nos anos de Washington, debaixo de holofotes globais, Michelle foi uma leoa na preservação da intimidade e da vida mais natural possível das duas filhas, Malia e Sasha, e da família. Vaidosa, orgulhosa dos braços bem torneados por sessões diárias de musculação, manteve a elegância usando grifes caras, às vezes de estilistas pouco conhecidos que ajudou a projetar. Ao mesmo tempo, como primeira-dama digna do nome, dedicou-se a uma obra social de estimação, no caso o combate à obesidade infantil por meio de exercícios físicos e alimentação saudável. “A determinação de Michelle de não ser uma primeira-dama decorativa fez com que cultivasse uma horta no terreno da Casa Branca, envolvendo crianças de escolas públicas. Esse projeto aparentemente simples teve impacto na indústria de alimentos”, observa a professora aposentada carioca Martha Regina do Nascimento, 74 anos. Marcante em cada capítulo do livro, e outro motor do tremendo sucesso de Minha História, é a franca exposição do racismo que sofreu e de seu incômodo com isso. “Apesar de ter uma origem bem diferente, eu me identifico com ela em várias situações: na vida escolar, nas dificuldades, na comemoração de conquistas, no desejo de ver o outro crescer e brilhar”, derrama-se a atriz Tais Araújo.
Michelle e Barack Obama assinaram, depois de deixarem a Casa Branca, o maior contrato de publicação conhecido: 65 milhões de dólares de adiantamento por uma biografia de cada um (a dele deve sair ainda neste ano). A título de comparação, Bill Clinton recebeu 15 milhões de dólares para contar sua trajetória, em 2004, e Hillary, 11,5 milhões pela sua, em 2014, sendo que nenhum dos dois chegou perto dos números alcançados por Michelle. Os Obama também têm na manga um contrato de 50 milhões com a Netflix para produzir uma série de atrações. Além disso, ganham uma bolada com palestras: 225 000 dólares ela, 400 000 ele, a cada aparição.
Sem problemas financeiros e mais à vontade desde que saiu da vida pública, Michelle tem viajado sem parar para divulgar o livro e para se divertir — recentemente, foi vista dançando na plateia de um show de rock. A forma convencional de garantia de publicação pelas editoras prevê que os ganhos com direitos autorais só comecem a pingar para o autor depois que o adiantamento, ou parte dele, tenha sido coberto pelas vendas. Não se conhecem os trâmites da negociação com o casal Obama, mas, do jeito que a biografia de Michelle está voando das prateleiras, não vai demorar muito para mais essa fonte de renda entrar na conta. Recordes não faltam: em janeiro, ao completar 47 dias no primeiro lugar em vendas na Amazon americana, Minha História desbancou nada menos que o erótico 50 Tons de Cinza. Quem lê um não lê o outro.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2019, edição nº 2635
Qual a sua opinião sobre o tema desta reportagem? Se deseja ter seu comentário publicado na edição semanal de VEJA, escreva para veja@abril.com.br