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Possibilidade de fechamento das escolas volta a angustiar pais de alunos

Retomada do ensino estritamente remoto é vista como ameaça para mais um ano letivo "perdido"

Por Ricardo Ferraz Atualizado em 12 mar 2021, 08h06 - Publicado em 12 mar 2021, 08h00

O ano letivo de 2021 começou com a esperança da retomada de alguma normalidade na vida de milhões de alunos brasileiros. Após a experiência do ensino remoto, restrito à tela de um computador, muitas crianças e adolescentes estavam ávidos para recuperar pelo menos parte da rotina com aulas presenciais e o contato com os professores e colegas – mesmo que isso significasse classes reduzidas, máscara na cara e uso abundante de álcool em gel. Não durou muito tempo. O pior momento da pandemia no Brasil já obriga governadores e prefeitos a reverem o funcionamento das escolas e, em muitos casos, adotarem medidas restritivas, como o fim das aulas presenciais.

No estado de São Paulo, o governador João Doria (PSDB) anunciou o fechamento das escolas estaduais. Apenas os refeitórios permanecerão abertos para servir comida aos alunos mais carentes. A medida trouxe preocupação para os pais que temem que os filhos tenham de atravessar mais um ano de confinamento e de aprendizado prejudicado.

“Minha filha passou do segundo para o terceiro ano sem aprender a ler ou escrever direito. Só sabe assinar o nome”, contra Ana Célia Santana Pereira, 45, cozinheira. Mãe de Ana Júlia, 8 anos, que estuda em uma escola estadual, ela tem receio de que a menina avance na escola sem aprender conteúdos básicos. “Eu e meu marido não podemos acompanhá-la porque precisamos trabalhar. Vou ter de contratar uma pessoa para ficar com ela no período escolar e ainda por cima dar um jeito de comprar um computador para ver se ela assiste às aulas pela internet. Nem sei como fazer, já que não temos dinheiro para tudo isso”, desabafa.

No estado de São Paulo, as escolas particulares poderão permanecer abertas, com o limite máximo de 35% do público a cada dia. Mas muitos colégios já estudam, ao menos, a diminuição da frequência, em virtude dos riscos da pandemia. Mãe de uma menina de 6 anos e de um menino de 3, a engenheira Anna Palazzo, 40 anos, decidiu comprar livros e inventar brincadeiras para oferecer  aos filhos alguma atividade educacional no período em que elas deveriam estar estudando. A escola particular que as crianças frequentam já reduziu o número de aulas presenciais de dois, para um dia por semana. “Não faço ideia do que é necessário para alfabetizar uma criança, mas estou desesperada. Como ela vai aprender a ler e escrever em  aulas online que duram apenas meia hora por dia, o limite de tempo em que ela é capaz de prestar atenção na tela?!”, questiona.

O fechamento das escolas acontece no pior momento da pandemia, quando o número de casos nas últimas 24 horas supera 78.000 e o de mortes ultrapassa 2.200. Em São Paulo, a medida veio acompanhada de restrições de circulação, fechamento de bares e restaurantes no período noturno e até suspensão do campeonato paulista de futebol. “A situação de saúde no Brasil é de muita cautela. Se as autoridades de saúde chegarem à conclusão de que precisa baixar as portas, isso precisa ser feito. Mas as escolas devem ser as últimas a fechar e as primeiras a reabrir. É preciso priorizar a educação e não repetir o ano passado, quando fomos um dos países do mundo a manter as escolas fechadas por mais tempo”, diz Vera Vidigal , advogada e coordenadora do movimento Escolas Abertas.

Segundo monitoramento do Vozes pela Educação, apenas 12 estados brasileiros retomaram as aulas presenciais esse ano. “Tem município que não fez sequer levantamento da situação, nem plano de reabertura. Não podemos aceitar que 2021 será mais um ano letivo perdido”, afirma Vidigal.

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