Clique e assine com 88% de desconto

Os segredos da redação nota 1000 no Enem

Saiba as dicas de duas estudantes entre os 53 no Brasil inteiro que gabaritaram a dissertação

Por Maria Clara Vieira - 23 jan 2020, 17h54

Todos os anos, o tema da redação do Enem é um dos maiores “mistérios” da prova – principalmente porque, em algumas universidades brasileiras, a dissertação tem peso superior ao das questões de múltipla escolha e pode ser o fiel da balança para que o aluno consiga ou não a almejada vaga. Na última edição, os estudantes tiveram que escrever sobre “a democratização do acesso ao cinema no Brasil”, assunto que passou ao largo do radar de alguns especialistas e surpreendeu os estudantes.

Mesmo assim, dos mais de 5 milhões de participantes da prova, 53 foram contemplados com a nota máxima; entre eles, as alunas Caroline Baptista, de 19 anos, e Juliana Souza, de 18 anos. Ambas estudam em unidades do Colégio e Curso de A a Z no Rio de Janeiro e desejam passar em cursos de medicina.

Juliana conta que escreve sua redação direto na folha de entrega. “O que funcionou muito bem para mim foi anotar no rascunho apenas os principais tópicos que não poderiam faltar no meu texto e as referências socioculturais pertinentes ao assunto”, explica a estudante, que defende a técnica como uma forma de economizar tempo.

Já Caroline aconselha os alunos a treinarem uma fórmula para a redação. “Uso o primeiro parágrafo para apresentar a ideia, os dois seguintes para falar das causas do problema e o último para propor uma solução”, explica. Vale ressaltar que as duas estudantes fizeram a redação antes da prova. “Escrevi com a cabeça fresca, depois resolvi algumas questões de linguagem e voltei para passar a limpo. Foi uma forma de identificar erros que não tinha visto antes”, diz a aluna.

Publicidade

Leia, abaixo, a redação de Caroline na íntegra:

”A aquisição de novas tecnologias permitiu o desenvolvimento de diversos setores no Brasil, o que facilita a obtenção de conhecimentos e conteúdos de forma rápida e prática. Contemporaneamente, o cinema é um dos setores do país que se expande ao longos dos anos, transmitindo informações aos diferentes públicos. Entretanto, o acesso ao cinema ocorre de modo desigual entre os indivíduos presentes na sociedade brasileira. Nesse contexto, essa diferença no acesso aos recursos cinematográficos persiste interpenetrada no país como subproduto da desigualdade entre as classes e regiões brasileiras e da alienação social diante desse panorama.

Em uma primeira perspectiva, a desigualdade histórica brasileira apresenta íntima relação com a existência desse cenário. Segundo o filósofo Jean Jacques Rousseau, em sua obra “O Contrato Social”, a desigualdade social surgiu com base na noção de propriedade privada e na disputa por poder e riquezas entre os indivíduos. Essa ideia encontra-se materializada no processo de formação histórica no Brasil, o qual foi marcado pela disputa das riquezas entre as regiões e grupos sociais, contribuindo para a instauração de um cenário de desigualdade que dificulta o acesso ao cinema pelos grupos menos favoráveis financeiramente. Dessa forma, é indubitável que as disparidades existentes entre as regiões e classes dificultam a democratização do acesso ao cinema, uma vez que apenas as regiões desenvolvidas apresentarão os recursos financeiros necessários para fomentar a instalação de cinemas.

Em uma segunda análise, a alienação social contribui para a persistência da disparidade no acesso ao cinema. A filósofa alemã Hannah Arendt, em “A Banalidade do Mal”, refletia sobre o resultado do processo de massificação da sociedade, o qual formou indivíduos incapazes de realizar julgamentos morais, tornando-se alucinados e aceitando situações sem questionar. O pensamento da filósofa está relacionado ao contexto de alienação da sociedade brasileira, no qual os sujeitos sociais se calam diante das questões que prejudicam grupos menos favorecidos, desconsiderando a importância de determinados recursos, como o acesso ao cinema, para o cumprimento de direitos sociais. Nesse contexto, é essencial superar esses paradigmas que prejudicam diversos indivíduos.

Publicidade

Verifica-se, portanto, que a desigualdade, em paralelo à compactuação social, é um fator fundamental para a persistência desse panorama. Afim de construir uma sociedade justa e igualitária, o Poder Executivo Federal, além de superar desigualdades históricas, deve desenvolver projetos de governo que informem a sociedade sobre a importância de agirem para garantir a igualdade no acesso ao cinema. Essa medida deve ser realizada por meio de palestras e debates gerenciados por profissionais que estudem dados estatísticos sobre o problema, garantindo o convencimento social. Com a realização dessa medida, será possível usufruir do avanço tecnológico de modo positivo para o país.”

Publicidade