Clique e assine com até 92% de desconto

O desafio da alfabetização no pós-quarentena

A criançada nessa fase foi a turma que mais sentiu o baque de estar longe da escola. Mas os especialistas garantem: logo estarão lendo e escrevendo

Por Ricardo Ferraz Atualizado em 23 out 2020, 11h01 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

A pandemia embaralhou a vida estudantil e, como se sabe, fez com que uma multidão de crianças e adolescentes se sentasse à frente de uma tela em casa para dar andamento ao ano letivo na modalidade on-line. Os mais velhos demonstraram, em geral, um razoável poder de adaptação. Mas os pequenos, e não poderia ser diferente, oscilaram entre perdidos e assustados, sem ter ao lado o professor para guiá-los em seus primeiros passos no mundo, digamos, mais sério. Foram eles os que mais sentiram o baque, uma turma de quase 6 milhões de alunos entre 6 e 8 anos que, a essa altura, já deveria estar alfabetizada — e não está. É natural que os pais, cheios de expectativas sobre a evolução dos filhos no bê-a-bá, se preo­cupem e levantem a questão: e agora, como essa defasagem será vencida sem comprometer o 2021 que se avizinha? A pergunta faz todo o sentido — afinal, os fundamentos da leitura e da escrita são essenciais para galgar degraus mais elevados de conhecimento —, mas não justifica a ansiedade. “É um exagero dizer que o estudante terá dificuldade para avançar no colégio. Esse prejuízo não será permanente”, enfatiza Marcos Raggazzi, diretor pedagógico do grupo Bernoulli.

Os desafios da garotada novinha no ensino remoto, em que a maioria segue firme, são gigantescos — a começar pela capacidade de manter a atenção diante do computador. Mesmo que essa geração demonstre precoce destreza com a tecnologia, é jovem demais para ter algo que falta até a muito adulto: foco. É por essa razão que os pais estão sendo instados pelos colégios a entrar em cena e incentivar a criança a se fixar na aula virtual, de preferência participando dela — uma medida muito bem-vinda (veja outras no quadro ao lado), embora nada trivial. “Minha filha se distrai e fica o tempo todo querendo saber quanto falta para a lição terminar. O fim do ano se aproxima e ela não deslanchou”, conta a administradora de empresas Fabiana Vaz, 41 anos, mãe de Maya, de 6, que contratou inclusive uma professora particular. Muitas vezes, na ânsia de suprir as lacunas, os próprios progenitores fazem o papel do mestre, o que pode dar um nó no cérebro dos pequenos. “Alguns ensinam o alfabeto do mesmo modo antigo que aprenderam, e isso tende a atrapalhar”, alerta Miriam Louise Sequerra, coordenadora do colégio Santa Cruz, de São Paulo.

Estar frente a frente com o professor é comprovadamente benéfico nessa delicada etapa em que a criança precisa prestar atenção ao som das palavras e conseguir traduzi-lo na forma de letras. “Dar esse grande salto a distância é mais complicado. Na sala de aula, o mestre dispõe de várias ferramentas para fazer a ligação entre sons e símbolos”, explica Magda Soares, uma das maiores autoridades em alfabetização no país. A boa notícia é que, nesta já longa jornada pandêmica, as escolas estão atentas às fragilidades do ensino remoto e corrigindo erros registrados na largada. Na alfabetização, uma das iniciativas é subdividir ao máximo as classes, de modo a acompanhar cada aluno. Para os que ainda não sabem ler nem escrever, os docentes passaram a gravar vídeos e mensagens em áudio, enquanto, para os que estão adiantados, escrevem. Uma providência geral foi encurtar o turno escolar a distância — de quatro para duas horas —, o que vem se revelando produtivo.

Como todo novo fenômeno, a pandemia e seus efeitos acadêmicos estão sendo mapeados. Perdido, o ano não está, mas estatísticas ajudam a dimensionar os danos. A pesquisa mais vultosa sobre a criançada na alfabetização, feita pelo Georgia Institute of Tech­nolo­gy, nos Estados Unidos, mostra que se aprenderá, em média, menos da metade do esperado antes do novo coronavírus. Mas os especialistas estão convictos de que, traçado um bom plano, os alunos logo retomarão o ritmo, sem sequelas em um horizonte distante. “Vamos correr para sanar os gargalos já no primeiro semestre do ano que vem, monitorando de perto esses alunos”, avisa Viviane Monteiro, diretora pedagógica da educação infantil na Escola Parque, no Rio de Janeiro, que, como outras, retornou às aulas presenciais em esquema mesclado com o on-line. Para todos os estreantes no abecedário, 2021 será um ano de, como diz o ditado, trocar o pneu com o carro andando: na prática, alfabetizar e, em paralelo, avançar nas matérias da série seguinte.

Os sentimentos extremados dos primeiros meses de epidemia estão dando lugar a um pensamento mais pragmático e acomodado ao novo normal. “Não estou preocupada com dia e hora, mas se meus filhos serão bem alfabetizados”, frisa a advogada Melissa Carneiro, que passou por todo o sufoco em dose dupla: é mãe de gêmeos de 7 anos. A neurociência já desvendou muito sobre o que ocorre na mente de pequenos humanos ao ser alfabetizados: ler e escrever modifica significativamente seu cérebro, precipitando sinapses em série. A partir daí, as crianças dão uma arrancada no mundo do saber. Logo, logo, elas estarão soletrando pan-de-mia e muitos outros vocábulos com facilidade.

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

Continua após a publicidade
Publicidade