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‘Não acredito nesses cortes’, diz presidente da Capes

Anderson Correia conta ter recebido sinalização do MEC de que a tesoura nas bolsas de pós-graduação será mais suave do que o anunciado

Por Monica Weinberg
Atualizado em 3 set 2019, 18h26 - Publicado em 3 set 2019, 18h08

O mundo da pós-graduação está abalado pela maré de pronunciamentos oficiais que vêm prometendo uma tosa significativa nas verbas destinadas a bolsas de mestrado e doutorado. Primeiro, o Ministério da Educação anunciou um contingenciamento de 19% no orçamento da Capes em 2019; depois veio a notícia de que o órgão pode vir a contar com cerca de 40% menos dinheiro em 2020. Se concretizado este cenário, faltarão bolsas para toda uma nova geração que planejava estrear na vida acadêmica já no início do próximo ano — desastre para um país que precisa usar seus talentos em grau máximo para ombrear com a produção dos pesos-pesados da academia mundial. Em entrevista a VEJA, Anderson Correia, presidente da Capes e ex-reitor do Instituto de Tecnológico de Aeronáutica (ITA), reconhece que uma devastação nos recursos para a pesquisa representa um baque para o desenvolvimento, mas não acredita que vá acontecer.

O que significa a ciência brasileira perder tanto dinheiro, a ponto de não dar bolsas à nova geração que pretendia ingressar na pesquisa? Um corte desses tem o poder de impactar na qualidade da pesquisa, na força de trabalho e nos avanços da indústria, o que seria terrível, mas, honestamente, não acredito que vá se concretizar.

De onde o senhor extrai seu otimismo? O ministro (Abraham Weintraub) me disse que vai propor um rearranjo do orçamento para o ano que vem, de modo a poupar a pós-graduação. O Congresso também nunca aceitaria um corte desta envergadura, que levaria ao não cumprimento de metas estabelecidas por lei. Quanto ao contingenciamento deste ano, também há sinais de que será mais brando do que o anunciado.

Mesmo assim, haverá cortes em 2019, certo? Sim. Mas não serão suficientes para prejudicar as metas do Plano Nacional de Pós-Graduação. Até 2024, precisamos formar em média 60 000 mestres por ano; hoje estamos acima, em 65 000. No caso dos doutores, o objetivo é chegar a 25 000 por ano. O número atual se situa em 23 000.

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O que significam esses números na prática? Eles foram calculados de acordo com a demanda de braços especializados para fazer girar a economia do país.

Com uma lacuna ainda tão grande de mestres e doutores em relação ao contingente de países desenvolvidos, não seria um desastre desacelerar agora? Seria, mas, como disse, não trabalho com esta hipótese.

A questão do Brasil é só na quantidade ou também na qualidade dos pós-graduandos? Existe um problema central. Enquanto nos Estados Unidos 80% dos doutores atuam em setores produtivos da economia e 20% em pesquisa dentro da universidade, no Brasil é exatamente o contrário. Precisamos atrair mais gente para a pesquisa aplicada e investir em áreas em que o déficit brasileiro é ainda alto, como tecnologia, engenharias, design. A questão brasileira não é só de dinheiro, mas também da maneira como ele é usado.

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