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“Liberdade vem com limites”, diz Aluísio Cotrim Segurado, novo reitor da USP

O infectologista critica a polarização na sala de aula e fala dos riscos da reforma tributária ao financiamento das universidades públicas

Por Victória Ribeiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 20 fev 2026, 10h42
  • Poucas pessoas conhecem a Universidade de São Paulo como o infectologista Aluísio Cotrim Segurado. Aos 68 anos, ele contabiliza mais de meio século na maior instituição de ensino superior do Brasil — são 120 000 pessoas, entre alunos, professores e servidores espalhados nos oito campi pelo estado. Sua trajetória começou ao ingressar na Faculdade de Medicina, em 1974, passou pelo enfrentamento da epidemia de HIV, na década de 1980, e, mais recentemente, deparou com a crise da covid-19. Após anos cruzando o hospital, os laboratórios de pesquisa e os corredores administrativos, o professor chega agora ao posto de maior liderança da USP: foi empossado, ao lado da engenheira Liedi Bernucci, como o trigésimo reitor da história da universidade. Desafios não faltam à sua gestão: preservar a autonomia em tempos de reforma fiscal, integrar e acelerar avanços tecnológicos, bem como exercer um papel ainda mais relevante diante de um país polarizado e mergulhado em desinformação — uma questão, aliás, de saúde pública. A VEJA Segurado expõe os planos e as preocupações em seu horizonte.

    Universidades públicas de alguns países cobram taxas ou mensalidades como forma de financiar suas operações. Acha uma solução viável para o Brasil? Essa é uma discussão que retorna de tempos em tempos. Mas, do nosso ponto de vista, a cobrança de mensalidades em universidades públicas esbarra diretamente na Constituição. O artigo 206 é bem claro ao vetar a cobrança de taxas no ensino público superior. Além disso, a experiência da USP mostra que a qualidade da universidade está muito ligada ao investimento público. Essa estabilidade, garantida pela autonomia universitária, é o que viabiliza pesquisa de ponta e a formação de profissionais qualificados. Por tudo isso, hoje não há qualquer perspectiva de discutir a adoção de mensalidades.

    O debate sobre o financiamento das universidades esquentou devido às propostas da reforma tributária. Como garantir seu sustento? É, esse é um ponto sensível e apareceu com força, inclusive na conversa que tivemos com o governador Tarcísio de Freitas no ato de posse. As universidades estaduais, como USP, Unicamp e Unesp, têm, desde 1989, uma autonomia que vai além da dimensão acadêmico-científica. É também uma autonomia de gestão financeira, administrativa e patrimonial, baseada em previsibilidade orçamentária. Essa previsibilidade, garantida pelo repasse de uma parcela da receita do Estado, é o que vem permitindo planejar políticas de médio e longo prazo. Boa parte do desenvolvimento do sistema de ensino superior, ciência, tecnologia e inovação se deve a esse arcabouço.

    “Nossa experiência mostra que a qualidade da universidade está muito ligada ao investimento público. Por isso, não há qualquer perspectiva de discutir a adoção de mensalidades”

    Então, o senhor diria que a autonomia da universidade está ameaçada? Com a reforma tributária e a substituição do ICMS por um novo imposto, o modelo de financiamento precisa ser recalculado. Não é uma ameaça direta à autonomia, que é algo garantido constitucionalmente, mas um ponto de atenção importante. Parece um detalhe técnico, mas tem, sim, impacto. O que recebemos do governador foi a garantia de que, durante o período de transição da reforma, não haverá sobressaltos nem prejuízos orçamentários. Essa segurança é fundamental, porque previsibilidade e sustentabilidade financeira são condições básicas para a universidade funcionar.

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    Como vocês têm lidado com a polarização política e ideológica, fortalecida nos últimos anos? A polarização é um fenômeno da sociedade contemporânea e naturalmente se manifesta dentro da universidade, que reúne pessoas com visões diferentes. O papel da USP é oferecer um espaço institucional onde essas diferenças possam conviver e se expressar. Mas, claro, liberdade vem com limites. Entendemos que o exercício da autonomia só é possível quando há respeito mútuo.

    Qual sua avaliação sobre o episódio de intolerância ocorrido no ano passado, no qual o cientista político Andre Lajst, da organização pró-Israel StandWithUs, foi impedido — por um grupo de alunos — de fazer palestra na Faculdade de Direito? Considero que a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são princípios basilares da vida acadêmica. A universidade é, por excelência, o espaço do debate plural, do questionamento crítico, da convivência entre diferentes perspectivas e visões de mundo e da defesa da democracia, e isso deve ocorrer em um ambiente respeitoso, tolerante e acolhedor. A USP repudia qualquer tipo de violência que imponha restrições ao exercício desta liberdade de opinião dentro dos limites da convivência republicana.

    A política de cotas para estudantes negros e do ensino público mudou o perfil dos alunos da universidade. Ela cumpriu o que prometeu? As políticas de ação afirmativa, que começaram em 2016, vieram para corrigir uma falta de representatividade na universidade, sem abrir mão do mérito. Com o tempo, elas foram se ajustando. Um dos exemplos é a meta de ter ao menos metade dos ingressantes vindos de escola pública, que já foi superada: hoje são 54%. Isso só foi possível graças a pequenas mudanças na convocação, que garantem que os candidatos aptos a ingressar pelas cotas, mas que conseguem entrar pela ampla concorrência, não ocupem uma vaga reservada. O processo de entrada por meio do Enem também colaborou muito para ampliarmos essa diversidade. Mas o que eu percebo é que não basta abrir a porta da universidade. É preciso assegurar a inclusão lá dentro, o que nos leva a questionar nossos processos pedagógicos e ferramentas para avaliar desempenho.

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    Em um respeitado ranking internacional, o QS World 2026, relativo a dados do ano passado, a USP ficou apenas na posição de número 108 — em 2024, estava no 92º lugar. Como o senhor avalia essa queda? Os rankings acadêmicos internacionais têm muita visibilidade, mas foram construídos por agências com interesses particulares. Um indicador que se baseie no número de estudantes estrangeiros, por exemplo, certamente pontuará melhor as universidades de língua inglesa.

    Universidades chinesas estão figurando com destaque nesses ran­kings. Não é um exemplo a ser seguido? Na USP, a graduação é praticamente toda em português, então, naturalmente, a gente não atrai tantos alunos de fora. Na China, algumas universidades montaram programas totalmente em inglês e trouxeram professores nativos só para crescer nesse indicador. Além disso, muitas das instituições bem avaliadas são privadas, com as particularidades que isso implica. Mesmo assim, quando olhamos o conjunto desses rankings, a USP continua líder na América Latina e no mundo ibero-americano.

    Por falar em notas, o Ministério da Educação começou a aplicar o Enamed, exame que reprovou mais de 100 cursos de medicina no país. Como enxerga os resultados? Em vinte anos, o número de formandos em medicina quase quadruplicou. Só nos últimos dois anos, mais de oitenta novos cursos foram abertos. Hoje, o Brasil forma mais de 50 000 médicos por ano, e a maior parte deles vem de instituições privadas. É aí que o Enamed faz a diferença. Ele nos ajuda a analisar a qualidade do ensino. Os primeiros resultados mostram um desempenho melhor nas universidades públicas e nas privadas tradicionais. Os três cursos da USP tiveram nota máxima. Agora precisamos entender como esse exame pode ser usado como instrumento regulatório.

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    “Com a reforma tributária, o financiamento das universidades precisa ser recalculado. Isso não representa uma ameaça à autonomia, mas é um ponto de atenção importante”

    Desde a pandemia, a desinformação sobre ciência e saúde se proliferou. A universidade ainda tem um papel tímido no combate ao problema? Eu não diria que é tímido, mas dá para melhorar. Como infectologista, a hesitação vacinal e a propagação de informações falsas me preocupam demais. E estamos falando de vacinas, uma das maiores conquistas da humanidade. A questão é que as crises de saúde hoje não têm fronteiras. E, quando países se afastam de organismos como a OMS, a desinformação só prejudica ainda mais a cooperação. Na universidade, estamos acostumados a fazer pesquisa e produzir artigos científicos, mas a comunicação com a sociedade é algo a aperfeiçoar.

    A chapa pela qual o senhor foi eleito foi batizada de “USP pelas Pessoas”. O que esse lema representa na prática? Além de contemplar as pessoas que, ao longo de noventa anos, vêm construindo a USP e todo o seu legado, precisamos também olhar para além dos muros. A sociedade tem expectativas sobre o que a universidade pode oferecer, e as demandas sociais retroalimentam o ensino, a pesquisa, a formação profissional… Então, esse é um dos pilares da nossa gestão.

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    Quais são as principais missões à vista? A primeira é aproveitar bem a USP que temos hoje, inclusive nossa comunidade universitária: são mais de 120 000 pessoas, entre alunos, docentes e técnicos. A universidade está muito mais diversa e plural. Alunos vêm de todas as regiões, com diferentes perfis sociais e étnicos, o que traz um potencial enorme, ainda que a instituição tenha de aprender a tirar o melhor disso. O segundo desafio é tecnológico. A transformação digital está em curso e a inteligência artificial já está mudando o mundo da educação e do trabalho.

    Como a USP pretende navegar nesse novo mundo digital? Isso precisa ser feito de forma crítica. É entender primeiro suas potencialidades e limites e construir um uso que seja ética e pedagogicamente responsável. Justamente por isso a gente propôs a criação de um escritório focado em transformação digital e inteligência artificial, um espaço que funcione como núcleo de formação, mas também um ponto de acesso às plataformas disponíveis e de construção de normas para o uso adequado dessas ferramentas dentro da universidade.

    O senhor é infectologista e viveu de perto as crises do HIV e da covid-19. O que essa trajetória tem a agregar a seu trabalho como reitor? Durante a pandemia de covid, quando eu estava à frente da operação do Hospital das Clínicas, pude ter uma visão clara do que a USP é capaz de devolver à sociedade em um momento crítico. E isso passa pela capacidade de nos mobilizarmos diante de uma emergência, seja ela climática, seja de saúde pública.

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    Qual legado o novo reitor da USP espera deixar? Gostaria de preparar a universidade para cumprir plenamente sua missão, o que independe de quem está no poder. Que possamos usufruir de todos os talentos que temos e também transmitir à sociedade os valores pelos quais prezamos, como o respeito à democracia e a inovação para contribuir social e economicamente com o país.

    Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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