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Eu fico indignada

Maria Juliana Passos, de 29 anos, talvez tenha de largar o doutorado por causa dos atrasos do governo

Por Maria Juliana Passos 19 out 2018, 07h00

Venho de uma cidade muito pequena, Aguanil, em Minas Gerais. Não tem nem 5 000 habitantes, a biblioteca municipal é bem carente e, até hoje, são poucas as pessoas que dispõem de internet em casa. Estudei em escola pública a vida inteira. Quando me formei no ensino médio, minha família conseguiu pagar seis meses de cursinho. Nos outros seis, estudei por conta própria com o material que já tinha do cursinho.

Passei em bioquímica na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), no câmpus de Divinópolis. O início da faculdade foi um período de adaptação muito difícil. Eu tinha 18 anos, nunca havia saído de casa, não conhecia ninguém, e para mim era tudo muito novo. Meus pais são funcionários públicos, e a soma da renda dos dois dá dois salários mínimos. Então, não foi fácil para eles me sustentar. No último período na faculdade, fiz a prova do mestrado só para saber como era, mas ocorreu que passei. Fiz o mestrado em ciências farmacêuticas, com bolsa da Capes. Essa bolsa nunca atrasou — e esse foi um dos motivos pelos quais fiquei muito tranquila em fazer o doutorado.

Na época da minha graduação, não sabia que caminho iria tomar em minha carreira, mas, depois do mestrado, tomei gosto pela pesquisa e pela vida acadêmica. Tive a certeza de que queria fazer o doutorado. Entrei em 2016 em bioquímica e biologia molecular, também na UFSJ, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). Minha linha de pesquisa envolve o tratamento do câncer e a tentativa de desvendar características das células que levam ao surgimento da doença, mais especificamente dos tumores do sistema nervoso central, que são bastante agressivos.

Só que o doutorado é um regime de dedicação exclusiva. Não posso ter outras fontes de renda. Se quebro essa regra, perco a bolsa, de 2 200 reais por mês, e ainda tenho de devolver tudo o que recebi até agora. É por isso que, quando a bolsa atrasa, ficamos numa sinuca de bico.

Neste ano, os atrasos estão sendo absurdos. Recebi em julho a bolsa de maio, em agosto a de junho e julho, e o último pagamento foi em setembro. Desde então, nada mais foi pago, e não há previsão de liberação de verba. Estou com praticamente todas as minhas contas atrasadas. O que faço para sobreviver é pagar as contas mais importantes de casa e rolar o resto no cartão de crédito. Só que isso vira uma bola de neve, porque o pagamento atrasa, mas a gente não recebe com correção. E, quando atraso o pagamento das contas, arco com juros. Comecei a acumular muitas dívidas e tive de contar com a ajuda de familiares. Praticamente parei de sair de casa, a não ser para ir à universidade. Não compro roupa para mim desde o início do ano. Passeio, viagem, nem se fala. Mas minha maior preocupação não são essas privações, e sim o atraso das contas.

Duvido que os salários dos deputados atrasem. Fico indignada, principalmente com as justificativas que recebemos dos órgãos governamentais. Os responsáveis não são honestos conosco, fazem com que a gente fique criando expectativas e, no fim, nada do dinheiro. A situação já chegou a um ponto tal que minha mãe disse: “Juliana, não tem mais condições”.

Realmente espero que eles voltem a pagar as bolsas de modo regular, porque queria muito terminar o doutorado. Mas, se a situação continuar do jeito que está, principalmente por causa de compromissos que tenho e com os quais não posso deixar de arcar, minha opção vai ser trancar o curso e começar a trabalhar em outro lugar, onde surgir oportunidade. Dar aulas, quem sabe. Ou mesmo trabalhar em uma loja — onde surgir algo de imediato.

Depoimento dado a Roberta Bordoni

Publicado em VEJA de 24 de outubro de 2018, edição nº 2605

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