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Como 120 das melhores escolas do Brasil se preparam para a volta às aulas

Com os cuidados sanitários necessários garantidos, já está na hora de as instituições de ensino brasileiras tocarem a campainha e começarem a lição

Por Ricardo Ferraz, Jana Sampaio e Thaís Gesteira - Atualizado em 18 set 2020, 10h50 - Publicado em 18 set 2020, 06h00

A pandemia não acabou, e seria irresponsabilidade acreditar que ela esteja chegando ao fim. Mas, passados nove meses deste ano diferente de todos os outros, o mundo começa a se abrir para uma vida relativamente normal, cumprindo um protocolo de segurança — máscaras, luvas, mãos lavadas, testes, distanciamento — fincado nos conhecimentos adquiridos ao longo da inédita convivência com o inimigo invisível e insidioso. À medida que contágio e mortes registram recuo constante, o comércio volta a funcionar, bares e restaurantes reabrem, serviços são reativados e, nos fins de semana deste inverno ensolarado, as praias se enchem de gente. Em meio à movimentação, uma atividade crucial permanece suspensa em quase todo o Brasil: o ensino presencial nas escolas. É compreensível que pais e mães se angustiem com os riscos da saída dos filhos do restrito círculo familiar. Mas cada dia que um aluno passa sem aprender estica sua defasagem de conhecimentos lá na frente, quando estiver construindo o futuro dele e do país. Sob esse ponto de vista, com os cuidados sanitários necessários garantidos, já está na hora de as escolas brasileiras tocarem a campainha e começarem a aula.

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Em março, todos os 47,9 milhões de crianças matriculadas nas redes pública e privada do Brasil deixaram de ir ao colégio e entraram em um regime de ensino on-line reconhecidamente precário — sem falar nos 12% que não têm acesso à internet. Dois estados, Amazonas e Pará, liberaram a reabertura das escolas particulares em todos os municípios e outros cinco, incluindo São Paulo, em parte deles. Nos demais, é nítida a disposição dos colégios de pôr fim aos meses de portas fechadas. VEJA consultou 120 escolas particulares do país, classificadas entre as melhores, de acordo com o ranking do Enem, para conhecer seus planos de retomada. Delas, 10% já estavam em atividade e, entre as demais, a maioria absoluta — 77% — disse que só aguarda a liberação das autoridades para abrir as portas. Do total, 89% consideram essencial a presença das crianças na sala de aula. O Pueri Domus, onde estudam os gêmeos Gabriel e Maria Eduarda, de 13 anos, ainda não pode reabrir, e a mãe deles, a psicóloga Ana Paula Costa, lamenta. “Não considero este um ano perdido. O ensino remoto estimulou o amadurecimento e o senso de responsabilidade dos dois. Mas, em vez de um dia inteiro de atividade, hoje o máximo que fazem é andar de bicicleta no condomínio. O convívio com os amigos tem feito muita falta”, diz.

A retomada oficial depende das autoridades estaduais e municipais (veja artigo na pág. 65). Pois o que deveria ser uma decisão técnica, levando em conta o cenário epidemiológico da região, muitas vezes descamba para a vala comum das diferenças políticas, com confrontos entre governadores e prefeitos. A proximidade das eleições municipais não ajuda — os candidatos querem distância de medidas impopulares e do risco de escolas virarem focos de contágio. Algumas associações de professores também resistem à volta às aulas, alegando questões de segurança. As divergências costumam parar nos tribunais, alimentando uma guerra de liminares. O vaivém na Justiça propicia absurdos como o acontecido no Rio de Janeiro, onde, na primeira semana de setembro, os alunos puseram a mochila nas costas, foram à escola um dia e acabou — aulas estão suspensas até segunda ordem.

CONTAGEM REGRESSIVA – A empresária Sania Dornelas, 42 anos, mãe de Lorena, 9, de Brasília: “Por mais que minha filha se esforce, ela não tem maturidade. Desaprendeu até a tabuada. Eu tento ajudar como posso. Os portões precisam reabrir”, diz – Cristiano Mariz/.

Cada colégio que reabre deixa a critério dos pais aceitar ou não a volta às aulas dos filhos, e, por enquanto, a maior parte, compreensivelmente, se mostra temerosa. Em um levantamento realizado pela Associação Brasileira de Escolas Particulares com mais de 14 000 pais e responsáveis, 73% disseram preferir manter os filhos em casa, por medo da Covid-19. Já os filhos, quem diria, estão loucos para sair. A carioca Emanuele, 12 anos, aluna do Colégio Santa Terezinha, não vê a hora de voltar, mas sua mãe, Karla Ribeiro, diretora de uma ONG, é contra. “Se comigo, quando saímos, a Emanuele esquece os protocolos, toca em objetos e leva as mãos aos olhos e à boca, quem garante que isso não se repetirá no colégio? Enquanto não houver vacina ou remédio eficaz, ela vai estudar em casa, mesmo a contragosto”, afirma.

Embora esse tipo de preocupação seja recorrente, tanto a Organização Mundial da Saúde quanto o Unicef, que atende crianças, e a Unesco, que trata da cultura, recomendam que as escolas sejam reabertas até antes das demais atividades. Ainda que se tenha comprovado recentemente que sua capacidade de transmissão do vírus é igual à dos adultos, as crianças totalizam apenas 8,5% dos casos de Covid-19 no mundo. No Brasil, entre mais de 4,4 milhões de pessoas infectadas, só 8 332 têm menos de 19 anos. E, embora uma só carregue o peso de uma tragédia, as mortes foram raríssimas. “Quando as medidas sanitárias são respeitadas, o risco de contágio é infinitamente menor nas escolas do que em shoppings e bares”, afirma o infectopediatra Marcelo Otsuka. Em Fortaleza, onde a reabertura se deu no dia 8 de setembro, Michelle de Oliveira, 37 anos, sente enorme satisfação em levar Stella, 4 anos, e Beatriz, 2, para a pré-escola, de máscara e passando pelo ritual de higienização das mochilas. “No primeiro dia, chorei ao ver a felicidade das meninas por estarem naquele ambiente, gastando a energia acumulada durante a quarentena”, relata.

INVESTIMENTO E RETORNO – O professor de física Raphael Barbosa, 35 anos, do Rio de Janeiro, montou um miniestúdio em casa e passou a devorar canais de educação na internet, para assimilar o idioma das redes: “Hoje, consigo oferecer um bom material”, avalia – Ricardo Borges/.

A chave, enquanto a vacina não vem, é manter os protocolos. Hospitais renomados como Sírio-Libanês e Einstein, em São Paulo, e a Rede D’Or, do Rio, foram contratados para dar consultoria sobre segurança sanitária a muitas das escolas ouvidas por VEJA. As recomendações vão do básico — higienização constante dos ambientes e das mãos, uso de máscaras, garrafas de água individuais e distanciamento de pelo menos 1 metro entre as carteiras — até mudanças que exigem esforço da comunidade escolar, como escalonamento no horário de entrada dos alunos, diminuição das turmas e formação de “bolhas” nas quais os estudantes convivem com um número restrito de colegas. Também é preciso identificar integrantes de grupos de risco e disponibilizar testes para casos suspeitos. Havendo contágio, recomenda-se fechar por duas semanas.

Aos pais e alunos que não se sentem seguros em voltar, as escolas se dispõem a oferecer um ensino on-line de maior qualidade do que a improvisação que prevaleceu no isolamento social. No levantamento de VEJA, praticamente todas — 99% —, quando reabrirem, terão um sistema híbrido, com aulas presenciais e remotas. Em média, o plano é de que as escolas acolham apenas 30% dos alunos por vez, o que pode ajudar a tranquilizar os pais reticentes. “Abrir com pouca gente ajuda a quebrar um ciclo de inércia. Serve para testar as novas regras, os novos protocolos, e incentiva os outros, que vão perdendo o medo, no processo gradual que a situação exige”, diz Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV-RJ.

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FELICIDADE E AlÍVIO – Beatriz, 2 anos, e Stella, 4, de máscara e mochilas a postos, em Fortaleza: “Estou em lua de mel com a escola”, comemora a mãe delas, Michelle, ao sair do confinamento – Jarbas Oliveira/.

Entre os modelos pedagógicos a ser utilizados no ensino híbrido, um separa os alunos em duas turmas, a presencial e a remota, com horários e conteúdos diversos, o outro alterna aulas com e sem professor — nessas últimas, o aluno tem metas a cumprir. Também se contempla, para estudantes mais velhos, a transmissão simultânea das aulas em sala para a audiência remota, que poderão inclusive interagir com colegas e professores. Entusiasta do ensino digital, o professor de física Raphael Barbosa, 35 anos, do Colégio pH, do Rio, investiu 500 reais em equipamentos e montou um miniestúdio em casa para ensinar a distância. “Sei que a física não é a matéria preferida deles e me esforcei para tornar o conteúdo aprazível e interessante. Acho que consegui”, diz.

Os novos tempos vão continuar exigindo flexibilização. A volta às aulas terá, necessariamente, de passar por um encolhimento do currículo, dando prioridade às matérias essenciais para o avanço do aprendizado. Alguns conteúdos serão adiados para 2021 e acumulados com a programação normal. Cerca de 70% das instituições ouvidas por VEJA informaram que aplicarão testes para avaliar possíveis defasagens de aprendizado durante o período de ensino remoto, e 87% deixarão o aluno escolher se fará a prova em casa ou no colégio. Os testes remotos, explicam, serão mais dissertativos e espera-se que os pais colaborem, para impedir pesquisas e conversas via aplicativo.

Os especialistas advertem, no entanto, que mesmo para uma geração que nasceu conectada a redução do contato com a escola a uma tela de computador pode trazer dificuldades na hora da readaptação. “As crianças enfrentarão o desafio de recuperar o hábito do estudo, já que passaram muito tempo com a rotina virada do avesso”, avalia o matemático americano Salman Khan, um dos mais famosos do mundo e cujas aulas virtuais são seguidas por milhões de estudantes ao redor do globo. A empresária Sania Dornelas, 42 anos, está preocupada com o rendimento escolar da filha Lorena, de 9, quando for a hora de rever a sala de aula. “Além de não assimilar novos conteúdos integralmente, ela desaprendeu alguns, como a tabuada”, diz. Moradora do Distrito Federal, onde as aulas presenciais continuam suspensas, Sania diz que nem sempre se sente capacitada para ajudar a filha nos trabalhos escolares. “A única forma de este não ser um ano perdido é a reabertura”, afirma.

À ESPERA DA VACINA – Emanuele, 12 anos, gostaria de retornar ao colégio no Rio: a mãe, Karla, é contra, porque acha que ela não vai ter disciplina para seguir o protocolo de higiene e distância – Ricardo Borges/.

Outro motivo de preocupação dos educadores, decorrente da interrupção do convívio e do isolamento, é a pequena familiaridade dos alunos com habilidades que as escolas modernas vêm se esforçando para desenvolver neles, como trabalhar em grupo, respeitar diferenças e tomar decisões. A equipe pedagógica terá também de saber lidar com manifestações de depressão e irritabilidade, potencializadas na quarentena. O caminho é gradual, mas precisa ser iniciado. A volta deverá ser feita em fases, sendo a primeira delas direcionada para uma espécie de despressurização. “O aluno precisa ser testado para saber quanto aprendeu de verdade e receber atendimento personalizado, de modo a entrar no ritmo que a quarentena comprometeu”, ressalta Claudia Costin.

O novo coronavírus provocou o fechamento de escolas em 190 países e afetou diretamente a rotina de 1,6 bilhão de estudantes, dos quais se estima que 24 milhões não voltarão aos bancos escolares. Além dos prejuízos em termos de conhecimento e dos danos à saúde das crianças confinadas, deixar de ir ao colégio também resultará em enorme impacto econômico. Um estudo da OCDE, a organização dos países mais desenvolvidos, calcula que a defasagem de aprendizado nos meses de isolamento social deve causar perdas da ordem de 1,5% do PIB mundial até o fim do século. “Devido ao atraso educacional, em um país como o Brasil pode haver diminuição de até 3% na renda que essa geração vai acumular ao longo da vida. Além de reabrir as escolas, é preciso acelerar a melhoria do ensino para reverter essa previsão”, frisa o físico alemão Andreas Schleicher, diretor da área de educação da OCDE.

Lá fora, esse processo tem sido vitorioso. Mais de trinta países já retomaram a rotina escolar com sucesso, mesmo tendo de cerrar os portões de novo, temporariamente, ao detectar casos de contaminação — na França, setenta das 3 600 escolas já passaram por isso. A China, com a facilidade da obediência a ordens de cima que o sistema ditatorial impõe, recolocou neste mês mais de 100 milhões de alunos nos bancos escolares. Alemanha, Dinamarca e Coreia do Sul também estão com os colégios funcionando normalmente. “Um fator em comum na volta bem-sucedida é a presença de diretores capazes de envolver toda a comunidade escolar na tarefa de virar a página”, ressalta Schleicher. Enquanto o mundo avançado se mexe, o Brasil permanece empacado na faixa mais alta de dias sem escola, segundo a OCDE, deixando para trás o recorde de vinte semanas registrado durante a gripe espanhola, no início do século XX. Faz sentido prolongar isso até o ano que vem?

Colaboraram Matheus Deccache, Amanda Péchy, Paula Pacheco e Vinícius Novelli

Publicado em VEJA de 23 de setembro de 2020, edição nº 2705

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