Carta ao Leitor: A educação pelo bom senso
Ao longo de seus quase sessenta anos de história, VEJA sempre manteve olhar atento ao modo pelo qual os pais educam filhos
Há máximas que soam como chavões e só ganham o status de lugar-comum por resumirem à perfeição ideias fundamentais. Na canção Beautiful Boy, do álbum Double Fantasy, de 1980, John Lennon bebeu de um celebrado jornalista e caricaturista americano, Allen Saunders, para criar um verso imortal: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Com uma leve piscadela para o humor e a ironia, é assim também com o jornalismo profissional, no avesso da emergência efêmera das redes sociais. Há guerras, a radicalização ideológica embaça as discussões partidárias, as dificuldades financeiras doem no bolso e a falta de segurança assusta — contudo, o cotidiano dentro de casa e a existência em sociedade devem seguir, como ilhas ao redor do mundo em turbulência que precisam ser iluminadas.
Ao longo de seus quase sessenta anos de história, VEJA sempre manteve olhar atento às mudanças de comportamento, especialmente em torno da passagem da infância e adolescência para a idade adulta, e ao modo pelo qual os pais educam filhos. É uma maneira interessante, e talvez até mais forte, de registrar a sucessão do tempo, a revolução de humores. A intimidade pode ser mais reveladora do que a ágora pública. Até meados dos anos 1950, a criança era encarada como um selvagem a ser civilizado por meio de castigos, de palmadas, se fosse o caso, e sem nenhum afeto. Nos anos 1960 e 1970, tudo mudou — e então ficamos sabendo que o amor, e só o amor, era a fórmula para o crescimento saudável. As surras de palmatória deram lugar à liberdade quase absoluta, e nesse tom andou a humanidade, porque carinho é fundamental.
Uma reportagem desta semana de VEJA, conduzida pelo editor Ricardo Ferraz e pela repórter Duda Monteiro de Barros, volta a abordar o tema, ao mostrar como a polarização política invadiu também a educação infantil, na acalorada contenda entre os defensores do modelo baseado em autoridade e limites claros e os adeptos do diálogo e do acolhimento. Na França, brotou ainda mais fervura, com o sucesso de livros como Já para o Quarto! e As Crianças Precisam de Limites, da psicóloga Caroline Goldman, que prega a prática de um antigo e terrível recurso, o castigo em forma de isolamento. Para ela, as famílias cuidadosas têm criado uma “geração mimada”. Como sempre, a verdade está no meio — é o que se conclui dos depoimentos de especialistas, mães e pais ouvidos por VEJA. Trata-se de abandonar as certezas absolutas em nome de mais responsabilidade, saudável presença e bom senso.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006






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