“A educação abre portas”, diz professora eleita a mais influente do mundo
Débora Garofalo, 46, conta como mudou a vida de tantos alunos
A educação sempre me encantou. Quando pequena, costumava andar com uma lousa embaixo do braço, imitando a professora. Minha mãe, que trabalhava em um estacionamento, não se formou, mas sabia a diferença que o conhecimento poderia trazer a minha vida. Com pouco dinheiro, comecei trabalhar aos 12 anos, mas jamais passou pela minha cabeça abandonar o colégio. Arranjei um trabalho de recreadora de festas infantis e vi que tinha aptidão para lidar com crianças. Como nunca tive o privilégio de apenas me dedicar aos livros, não consegui entrar de primeira em uma faculdade pública e cursar letras. O jeito foi arrumar emprego em um banco e ralar para obter o diploma em uma instituição particular. Nunca imaginei, porém, que essa trajetória me levaria a conquistar algo bem maior.
Depois de formada, fui dar aulas de português, em uma escola municipal no extremo sul de São Paulo, uma área marcada pela desigualdade e pela violência. Foi um choque. Além de apresentar péssimos indicadores de desempenho, a instituição corria o risco de ser fechada. Atuar na periferia, porém, sempre foi algo que esteve em meus planos e logo senti que ali era meu lugar. Queria fazer projetos inovadores, capazes de levar tecnologia para o ambiente escolar, mas não sabia exatamente como. Conversando com os estudantes, recebi muitos relatos sobre montes de lixo que atravancavam as ruas do entorno e resolvi propor a criação de um programa de robótica com base em sucata. Muitos me desacreditaram, mas tive o sinal verde da direção e fui em frente.
No início, até as crianças hesitaram. A proposta soava como coisa de ensino particular. Mesmo assim, saímos à rua para catar material descartado. O primeiro desafio foi montar um carrinho movido com a ajuda de um balão de ar. Não me esqueço da satisfação dos alunos. Muitos outros vieram depois e passamos a construir os brinquedos que os estudantes gostariam de ter: aviões, barcos, robôs… É incrível vê-los aplicando conceitos das aulas de matemática e ciências para produzir suas invenções. Além dos ganhos de aprendizados, percebo claras mudanças de comportamento, como aumento da disciplina e da autoestima. Muitos passaram a externar o desejo de entrar na universidade. Fizemos parcerias com ONGs para vender o resíduo recolhido e tornamos o trabalho sustentável financeiramente. Retiramos 1 tonelada de lixo das áreas públicas. Em 2018, vencemos um prêmio municipal de direitos humanos e aí minha vida mudou de vez.
A condecoração me fez receber diversas indicações internacionais. No ano seguinte, me tornei a primeira mulher sul-americana a estar entre os dez melhores professores do mundo no Global Teacher Prize, láurea concedida pela Varkey Foundation, considerada o Nobel da educação. Mas a maior surpresa aconteceu ao final de janeiro de 2026. Recebi uma ligação de madrugada, me pedindo para ir a Dubai. Sem saber ao certo o que estava acontecendo, cancelei os compromissos e embarquei num avião. Mal cheguei, me levaram a um jantar de gala com mais de 1 000 convidados. Sem qualquer aviso, o apresentador começou a narrar minha trajetória e os holofotes se voltaram para minha mesa. Para meu espanto, fui eleita a professora mais influente do mundo, nova categoria criada pela instituição. Um filme passou na minha cabeça, pensei em todos os meus alunos e nas inúmeras adversidades que enfrentamos juntos. Esse reconhecimento me levou para novos rumos. Agora, como consultora, trabalho para levar essa expertise para outras redes públicas. Sei que o Brasil pode aproveitar melhor seu enorme potencial. A educação abre portas na vida das pessoas. Nosso papel é ajudá-las nessa travessia.
Débora Garofalo em depoimento a Duda Monteiro de Barros
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





