Ada Jamile: “A curiosidade me levou longe”
Nascida na beira do Amazonas, a jovem de 18 anos conta como conquistou uma bolsa integral na Universidade Columbia
Quando era criança, sempre havia uma pergunta diferente que rondava minha mente. Queria saber sobre tudo, não importava o tema. Mas o mergulho no universo da ciência só aconteceu mesmo quando entrei no colégio militar de Manaus, aos 12 anos. Coincidiu com o diagnóstico de câncer de mama de uma tia, o que me tirou dos trilhos. Me sentia impotente diante da notícia e não conseguia mais me concentrar nas aulas. Decidi então que faria algo e enfiei a cara nos livros para entender a doença. Apoiada por amigos e incentivada por um professor, desenvolvi simulações computacionais para identificar substâncias naturais capazes de interagir com proteínas associadas aos tumores. Não imaginava que acabaria abrindo caminho para conquistar uma bolsa integral para estudar em Columbia, uma das mais prestigiadas universidades americanas.
Felizmente, minha tia se curou antes que minha investigação trouxesse resultados, mas eu nunca mais abandonei o interesse por essas moléculas essenciais para o corpo humano. No terceiro ano do ensino médio, me lancei ao desafio de saber mais sobre o Alzheimer, doença que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. A inquietação também tinha fundo pessoal, já que uma tia-avó sofre com a doença em estágio avançado. É devastador tanto para ela, que não compreende o que está acontecendo, quanto para a família, que precisa lidar com perdas diárias. Na época, estava aprendendo ondulatória nas aulas de física e me indaguei se o conceito não poderia ser aplicado também na biologia. “Genes podem ser estimulados com ondas?”, questionei ao mesmo professor que me acompanha desde o início. Fomos atrás de outros estudos e descobrimos que o cérebro vibra durante o sono profundo, quando as memórias são armazenadas. Foi aí que decidimos investigar se era possível usar ondas sonoras como alternativa não invasiva para o tratamento do Alzheimer.
Com alto-falantes, passamos a estimular células humanas em laboratório. A técnica consiste em emitir simultaneamente duas frequências distintas, o que leva essa minúscula parte do organismo a reagir em uma terceira intensidade. A partir de análises microscópicas, observamos uma redução de 49% da presença de material genético associado à neurodegeneração. Apresentei esse inesperado resultado em várias feiras de ciências, entre elas a Febrace, em São Paulo, onde conquistei o segundo lugar geral em ciências da saúde. Foi um divisor de águas que me levou ao maior evento pré-universitário do mundo, a Regeneron ISEF, nos Estados Unidos, por onde circulam até vencedores do Prêmio Nobel. Sair de Manaus, de uma família ribeirinha, e alcançar aquele lugar já era uma conquista e tanto, mas o melhor ainda estava por vir: ganhei uma medalha na categoria de ciências médicas translacionais.
Estimulada por essa trilha, decidi aplicar para uma vaga na Universidade Columbia, em Nova York, polo de inovação na minha área. Esperei pelo resultado cheia de expectativa, claro, e com a certeza de ter feito minha parte. Estava na cidade para uma conferência sobre a presença de mulheres na ciência quando soube: havia sido aprovada. E o melhor, com uma bolsa integral de estudo. Mais do que a realização de um sonho, encaro o feito como uma oportunidade de levar a pesquisa desenvolvida no Norte do Brasil a um ambiente científico internacional. Sou a primeira mulher da família a chegar ao ensino superior e quero mostrar que há muitos talentos invisíveis por aí. Sei que estou onde deveria estar. É o começo de uma longa jornada, tenho consciência, e quero aproveitar cada momento. Foi a curiosidade que me trouxe até aqui e é certamente ela que me levará ainda mais longe.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018







