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Com intervenção de Bolsonaro, Petrobras cai mais de 20% na abertura

Troca no comando da estatal e críticas do presidente à política da companhia motivaram onda de recomendações para venda dos papéis

Por Luisa Purchio, Larissa Quintino Atualizado em 22 fev 2021, 16h21 - Publicado em 22 fev 2021, 11h39

A bolsa brasileira teve uma piores aberturas de mercado desde o baque inicial da Covid-19 nesta segunda-feira, 22. Um conjunto de falas e ações intervencionistas do presidente Jair Bolsonaro tomaram corpo na última sexta-feira, com a indicação de um novo nome para a presidencia da Petrobras, e seguiram durante o fim de semana com críticas à política de preços na companhia e até mesmo ameaça de interferência na Eletrobras. A consequência veio agora. O Ibovespa caía 5,50% por volta das 11h20, uma perda de 6 mil pontos. As ações da Petrobras (PETR3 e PETR4) recuavam 21,5%. A Eletrobras, por sua vez, retraía 7,25% no horário.

A derrocada acontece após quase um ano do impacto do novo coronavírus aos mercados globais. No auge, a pandemia chegou a derrubar a bolsa brasileira em mais de 10 mil pontos. De lá para cá, o Ibovespa vinha se recuperando em consonância com o mercado internacional, mas se afasta cada vez mais do recorde de 125 mil pontos que bateu no começo do ano.

A forte queda nesta segunda-feira ocorre por recomendações generalizadas sobre a venda de papéis da Petrobras. Analistas do Credit Suisse, Scotiabank, Bank of America, Bradesco e XP estão entre os que rebaixaram suas recomendações sobre as ações da estatal. “Existem riscos para a independência da empresa e capacidade de continuar a precificar o seu combustível à paridade internacional”, afirma a XP Investimentos sobre a decisão da substituição de Roberto Castello Branco do comando da companhia.

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    O movimento é totalmente contrário à alta das commodities no mercado internacional. Com a volta da atividade econômica, o preço do petróleo e do minério de ferro sobem nas bolsas internacionais. No Brasil, este fator deveria impactar ainda mais positivamente uma vez que o país tem como principal parceiro comercial a China, cuja demanda por estes produtos é alta. A interferência política no mercado brasileiro, no entanto, puxa para baixo os ativos das empresas brasileiras produtoras de commodities.

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    Nesta segunda-feira, mesmo com o caos instalado nos mercados, Bolsonaro manteve o tom sobre a Petrobras. Segundo o presidente, apenas o mercado financeiro se beneficia da política de preços da estatal. A apoiadores, na porta do Palácio da Alvorada, questionou os reajustes. “Eu não consigo entender, num prazo de duas semanas, ter um reajuste do diesel em 15%. Não foi essa a variação do dólar lá fora, nem do preço do barril lá fora. Então tem coisa aí que tem que ser explicada.”

    A alta que Bolsonaro diz não entender – o que é pouco provável sendo o presidente da República – ocorre porque os preços dos combustíveis no Brasil não estavam acompanhando as altas internacionais desde maio ano passado, quando a Petrobras parou de repassar o reajuste às refinarias. Especialistas do mercado falaram  VEJA que a decisão foi feita totalmente às escuras, sem transparência sobre a mudança da política de paridade internacional. É natural, portanto, que agora o preço dos combustíveis suba tanto, afinal está represado há meses.

    Desde janeiro, o diesel e a gasolina subiram cerca de 30% nas refinarias. O momento é marcado por valorização do barril de petróleo, com a retomada econômica global devido a vacinação e também a desvalorização da moeda brasileira. Refletindo a insegurança dos investidores no mercado brasileiro, o dólar comercial disparou 2,24% no horário e chegou a 5,5082 reais.

    Além de questionar a política de preços, Bolsonaro criticou duramente a ação de Castello Branco no comando da estatal. “O atual presidente da Petrobras está onze meses em casa, sem trabalhar. Trabalha de forma remota. Agora, o chefe tem que estar à frente, bem como os diretores. Para mim, isso é inadmissível”, afirmou.

    Cenário global

    Amenizada a crise da Covid-19 com a vacina contra o vírus, a política volta a ser a protagonista do mercado brasileiro enquanto os mercados americanos oscilam no zero a zero à espera da aprovação do pacote de quase 2 trilhões de dólares do presidente Joe Biden no Congresso americano. Improvável de ser aprovado nesta segunda-feira, a B3 provavelmente continuará caminhando sozinha neste início de semana, à mercê das declarações em Brasília.

    “Os juros americanos continuam subindo, refletindo um pouco da preocupação com a inflação nos EUA e com quando o Banco Central vai parar de colocar incentivos na economia”, diz Leandro Araújo, diretor de serviços financeiros da IBC Consulting. “Isso derruba as bolsas porque os investidores os papeis do governo americano dão mais segurança e, com um retorno melhor, os investidores tendem a fugir do mercado”, diz ele.

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