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Uma estrela de vida nova

Com o desesperador 'O Retorno de Ben', Julia Roberts completa sua reinvenção na maturidade

Por Isabela Boscov 22 mar 2019, 07h00

ÀS VEZES, quando Julia Roberts está em uma cena de tensão ou de emoção, duas veias saltam na sua testa. Elas sempre estiveram lá mas, é claro, aparecem um pouco mais com a idade — e porque a atriz de 51 anos conservados com muita naturalidade tem explorado emoções complicadas com frequência e intensidade inéditas. Seus dois trabalhos mais recentes são uma culminação dessa mudança: Sam Esmail, o criador de Mr. Robot, apostou as suas fichas na ideia de que, na série Homecoming, Julia saberia como nenhuma outra atriz se pôr a serviço de uma personagem que se trai e é traída justamente pelo impulso de agradar. É visível quão estimulante foi, para ela, a experiência de enveredar pelo clima paranoico e inseguro que é a marca do criador — e quão bem retribuiu a confiança, levando a protagonista da ingenuidade ao desencanto de forma autêntica. Agora, em O Retorno de Ben (Ben Is Back, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país, Julia tira partido de outro traço comum em suas personagens — a fibra — para mostrar o verso e o reverso dele: Holly, a mãe do viciado Ben (Lucas Hedges, de Manchester à Beira-Mar), pode tanto unir de vez quanto destruir toda a sua família com sua vontade férrea, quase irracional, de salvar o filho de si mesmo.

Embora o filme seja dirigido por Peter Hedges, pai de Lucas, é em torno da mãe que ele gira. Durante 24 horas, desde o momento em que Ben foge da clínica de reabilitação para passar o Natal em casa, Holly fura uma onda interminável de desespero. Seu marido (Courtney B. Vance), sua filha adolescente (Kathryn Newton) e ela mesma têm medo de Ben — está implícito que ele já os fez caminhar por vários círculos do inferno antes. Os dois filhos menores, porém, adoram o rapaz, e Holly se vale disso para forçar uma espécie de indulto de Natal para Ben, que jura estar determinado a se manter limpo, submete-se a um teste de urina e concorda com a supervisão ininterrupta da mãe. Mas, como qualquer dependente grave que ainda não tenha desistido de mais uma dose, Ben mente e manipula com habilidade notável. O simples fato de ele estar de volta, aliás, deflagra acontecimentos que o levarão — sempre na companhia inamovível de Holly — por uma incursão cada vez mais profunda na sua velha vida. Pelos 103 minutos de filme, aquelas duas veias na testa de Julia não têm sossego.

O esboço dessa nova etapa começou um bom tempo atrás, quando Julia ainda era a estrela número 1, posto a que foi alçada em 1990, por Uma Linda Mulher. Mas demorou a frutificar: pelas duas décadas seguintes, o que Hollywood realmente queria dela eram o brilho espontâneo, a jovialidade, o sorriso, o carisma acessível, a facilidade para carregar comédias românticas e fazê-las estourar na bilheteria. Julia teve de se empenhar com paciência, e com resistência ao menosprezo, para converter o cacife da juventude em boas chances na maturidade — que começaram a vir mais amiúde, afinal, com Álbum de Família (2013), The Normal Heart (2014), Olhos da Justiça (2015) e Jogo do Dinheiro (2016). Quase sempre, nesses casos, o que se foi trabalha contra o que se quer ser (basta lembrar como definhou a carreira de Meg Ryan, Kim Basinger e tantas outras). Julia Roberts, porém, acaba de tornar oficial: está de vida nova.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2019, edição nº 2627

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