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Thierry Mugler: o avesso da moda

Estilista francês morreu em 23 de janeiro, aos 73 anos, em Vincennes, na periferia de Paris, de causas não reveladas

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 jan 2022, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 12h14
  • O minimalismo das passarelas até o fim dos anos 1970 dava sono e não combinava com a efervescência do mundo. Mas então surgiu o traço do estilista francês Thierry Mugler, que dominaria as coleções, mudaria as revistas de moda e chegaria ao cinema e aos clipes de músicas. Mugler, nascido de uma família burguesa parisiense como tantas outras, revirou o estilo do avesso. Misturou quadrinhos com tecnologia, aplicou uma paleta de cores inacreditável e colou a seus modelos um tanto de sadomasoquismo. Em seus shows, nos anos 1980 e 1990 — sim, shows! — desfilaram nomes como Grace Jones, Jerry Hall, Linda Evangelista e a brasileira Betty Lago, uma de suas musas. Além, é claro, do camaleão David Bowie.

    A silhueta de Mugler era um triângulo invertido caracterizado por ombros gigantes, estruturados, e cintura marcada. Adorava látex, couro e curvas. Recentemente aderiram ao corte facilmente reconhecível, marca registrada como poucos puderam exibir em sua profissão, personalidades voluptuosas como Kim Kardashian e Beyoncé. Muito antes de ouvirmos falar em identidades queer e não binárias, ele vestiu mulheres como homens e vice-versa. “Depois disso, os adolescentes sempre se questionaram sobre seu papel, recusando-se a ser rotulados pela sociedade”, disse à revista Vogue. “Portanto, é bom que hoje eles tenham os meios para se questionar em alto e bom som — e que os deixemos em paz.”

    MARCA REGISTRADA - As modelos e David Bowie: cores, ombros estruturados e cintura fina -
    MARCA REGISTRADA – As modelos e David Bowie: cores, ombros estruturados e cintura fina – (Musée des Arts Décoratifs-Paris; @michelgaubert/Instagram)

    Paz, aliás, era o que Mugler, irrequieto, nunca gostou de promover, ao comprar briga com empenho — apenas pelo prazer intelectual de tirar as pessoas do conforto insosso. Provocou escândalo ao dizer que seu primeiro espanto estético associado à sensualidade fora com os trajes das freiras. Em 1985, quando começava a despontar, fez com que o então ministro da Cultura da França, Jack Lang, tirasse a gravata em uma sessão da Assembleia para vestir uma gola ao estilo de Mao, e que o costureiro disse ter sido inspirada nos índios. Lang foi vaiado. Mugler riu. “Ele queria romper com a ideia de que a alta-costura atendia apenas a uma elite e poderia ser usada por jovens, e não apenas em noites de gala”, disse Thierry-Maxime Loriot, curador de uma exposição, de 2021, dedicada à obra do estilista. O que Mugler fez foi uma revolução colada à pele, sem a qual não veríamos com olhos naturais o que usam por aí, nas ruas e festas. Ele teve, nos tecidos, impacto comparável ao da reinvenção cubista promovida por Picasso e Braque nas artes. Mugler morreu em 23 de janeiro, aos 73 anos, em Vincennes, na periferia de Paris, de causas não reveladas.

    Publicado em VEJA de 2 de fevereiro de 2022, edição nº 2774

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