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Série Utopia, da Amazon, dá asas a teoria conspiratória sobre vírus letal

A produção versa sobre um gibi capaz de prever uma pandemia fabricada em laboratório — possibilidade fantasiosa que ganha sabor incômodo nos dias de hoje

Por Raquel Carneiro Atualizado em 13 nov 2020, 20h40 - Publicado em 6 nov 2020, 06h00

Um novo vírus letal se espalha pelos Estados Unidos, colocando regiões em quarentena e forçando os médicos a usar roupas de proteção. A produção de uma vacina contra a doença suscita desconfianças e debates polarizados. Seria o vírus uma invenção de laboratório, criada para instaurar o caos? A vacina, quem sabe, uma arma biológica concebida para controlar as pessoas? O fato de existir uma velha história em quadrinhos que antecipa os acontecimentos só alimenta a tese de que tudo que se passa é uma armação. Quando exibido originalmente pela TV inglesa, em 2013, o enredo em questão não provocou maiores ruídos — àquela altura, afinal, nada mais inofensivo que uma série juvenil baseada nas irresistíveis teorias conspiratórias. Mas a mesma mania já não pega tão bem nesse estranho e conflagrado 2020 — quando a nova versão americana de Utopia desembarca no Amazon Prime Video.

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Na série recém-lançada, o gibi Utopia é cobiçado por fãs nerds e por um bilionário filantropo (vivido com brilho por John Cusack), por conter mensagens subliminares sobre o mundo real. Sua edição anterior, intitulada Distopia, antecipara a destruição causada por vírus como ebola, zika e até o coronavírus (mas em suas variantes surgidas antes da Covid-19, como a Mers e a Sars). A caçada pelo exemplar da revista preenche os oito episódios com lances de violência extrema. Mas incômodo é, acima de tudo, seu pendor conspirativo. A HQ seria, na verdade, a prova de que os males foram criados artificialmente.

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Utopia tem arrebanhado controvérsias desde que estreou nos Estados Unidos, no começo de outubro. Em uma era na qual as fake news ameaçam suplantar os fatos, a série, adaptada pela americana Gillian Flynn, foi acusada de endossar os movimentos antivacina e a teoria de que a Covid-19 foi criada pela China. Gillian refuta as críticas. “É uma ficção científica para entretenimento e reflexão, não uma série informativa para ser levada ao pé da letra. Aliás, sou pró-vacina”, disse ela a VEJA. A trama chegou às mãos da roteirista em 2014, quando lançava o filme Garota Exemplar, em parceria com o cineasta David Fincher. Os dois negociaram com a HBO uma versão americana da narrativa. O acordo não foi finalizado, e Gillian somente conseguiu tirar o projeto da gaveta em uma nova casa, a Amazon. Em março, quando a série estava em sua fase final de edição, a Covid-19 explodiu. “Parecia uma piada suja do universo. Não havia uma pandemia assim há 100 anos, nunca imaginamos estrear num momento como este”, diz a autora.

COMPLEXO – Cusack, como ricaço filantropo: planos escusos – Elizabeth Morris/Amazon Studios/.

As associações com a realidade, porém, são apenas parte do rico universo da história. A trama apocalíptica embalada em cores pop e violência tarantinesca é, no cerne, um alerta contra os poderosos que exploram discursos messiânicos. Mistura de bilionário à la Bill Gates com a deputada Flordelis, já que vive rodeado de crianças adotadas, Kevin Christie, personagem de Cusack, nutre a obsessão de fazer do planeta um lugar sustentável — mas os meios escusos propostos por sua empresa de biotecnologia jamais seriam justificados pelos fins. “O problema não é o que ele defende, mas o perigo da ideia de utopia. Com a desculpa de um mundo perfeito, surgiram na história cenários de racismo e de eugenia”, disse Cusack a VEJA.

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Em lado oposto ao do bilionário, um grupo de nerds desajustados decifra o que consegue da HQ, até descobrir que parte da trama e dos personagens é real. Quando criança, a protagonista Jessica (Sasha Lane) estampou a capa do gibi em uma cena horripilante e cheia de sangue. Agora jovem adulta, busca encontrar o pai, de quem foi separada por um vilão misterioso, enquanto vai expondo revelações escabrosas sobre a pandemia. Só a da ficção, que fique bem claro.

Publicado em VEJA de 11 de novembro de 2020, edição nº 2712

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