Separado, Daft Punk deixa legado indelével para além da música eletrônica
Formado por Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, o duo anunciou a separação após 28 anos de existência - mas sua influência permanecerá em voga

Seis anos depois do último vídeo postado em seu canal do YouTube, o duo francês Daft Punk voltou a aparecer dias atrás em enigmáticas imagens que mostravam a dupla caminhando num deserto. Em dado momento, um deles para e pede que o outro acione um dispositivo de autodestruição, e se afasta. Segundos depois, vem a explosão de altíssimo impacto: após 28 anos de existência, os músicos Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo anunciavam o fim da dupla. Mesmo na despedida, os dois não tiraram em momento nenhum seus capacetes, mantendo o mistério de suas identidades. Uma coisa, no entanto, nunca foi mistério para ninguém: a influência que o Daft Punk teve na música foi imensa, e ainda vai continuar se propagando em ondas de choque por um bom tempo.
Os dois artistas nunca se deixaram fotografar sem seus indefectíveis capacetes e raramente davam entrevistas. Era a música que falava por eles – e precisava mais? Embora tenha surgido no final do século XX, o Daft Punk foi um dos pivôs das transformações no pop na virada do século XXI. Quando seu primeiro álbum, Homework, foi lançado, em 1997, a música do duo não parecia se diferenciar tanto daquilo que então se produzia no auge da era das raves e do tecno. Mas basta uma audição hoje para perceber que as batidas secas e os efeitos sonoros que eles introduziram em faixas como Around The World e Da Funk foram absorvidas por diversas músicas atuais. Eles influenciaram artistas de todas os matizes culturais. Nile Rodgers, Madonna, Kanye West, Pharrell Williams, The Weeknd, Deadmau5 e Marshmello são apenas alguns deles.
Não por acaso, o álbum é sempre incluído por diversas publicações internacionais nas listas de melhores álbuns de estreias de todos os tempos.
Levou quatro anos para que o segundo disco nascesse. Discovery, de 2001, tem um pezinho na era disco dos anos 70. A música One More Time, principal hit do álbum, botou definitivamente o Daft Punk nas paradas de sucesso. Assim como ocorreu com Homework, a sonoridade de Discovery também atravessou o tempo notavelmente incólume. Até o uso pouco parcimonioso de vocais tratados com vocoder, velho recurso emprestado do mago da disco Giorgio Moroder, não era só modismo: a tendência perdura em voga até hoje.
Com seu visual robótico, eles criaram uma marca de fácil identificação com o público, copiada depois por inúmeros outros DJs, como é o caso do camundongo à lá Mickey Mouse de Deadmau5, e o marshmallow gigante do DJ Marshmello. Nenhum deles, no entanto, conseguiu criar para si a mesma aura de mistério que o duo francês alimentou até o fim (no quesito musical, então, estão milhões de anos-luz atrás dos franceses). Embora o Daft Punk fosse pop até a medula, seus integrantes sempre rejeitaram as redes sociais e evitaram ao máximo expor qualquer aspecto de suas vidas pessoais.
Numa outra tendência, hoje potencializada pelos videogames, o Daft Punk foi pioneiro em interagir com outras mídias – o fato de se apresentarem como personagens, claro, ajudou. Em 2003, eles produziram um longa de animação em estilo anime, Interstella 5555. Do trabalhou surgiu a trilha Daft Club. Na faixa Ouverture, por exemplo, eles faziam referência àos barulhinhos feitos pelo modem durante uma conexão discada de internet. Em 2010, com a composição da elogiadíssima trilha sonora da refilmagem de Tron (e uma pequena participação como eles mesmos), alcançaram de novo extremo sucesso.
Nos palcos, a dupla ajudou a definir também como seriam os shows-espetáculos dos DJs, e tiraram as raves de um nicho rumo ao mainstream. Depois do Daft Punk, os shows de música eletrônica se transformariam em eventos para as massas, capazes de atrair centenas de milhares de pessoas. Efeitos especiais, fogos de artifício, raios lasers, painéis de led gigantes, tudo comandado pelos DJs.
E então veio o último disco, Random Access Memories, de 2013. Com parcerias com Julian Casablancas, Pharrell Williams, Nile Rodgers, o álbum é, até hoje, um dos maiores sucessos comerciais do duo. Mais que isso, o trabalho faz uma excepcional reverência aos primórdios da música eletrônica, lá dos anos 1970, com Giorgio Moroder e seus sintetizadores. O álbum já indicava um certo desconforto da dupla com os rumos que a cena eletrônica havia tomado, altamente dependente de softwares digitais e cada vez menos afeita aos sintetizadores analógicos. Os robôs saem de cena, mas têm lugar assegurado na história do pop.