Reginaldo Manzotti: “Padres não devem tomar partido”
Sacerdote e escritor celebra o sucesso do livro 'Inabalável' e reflete sobre o papel dos líderes religiosos nas redes sociais
Seu novo livro, Inabalável, fala sobre sofrimento. O que o atraiu nesse tema? Me inspirei em Jó, que traz uma mudança de paradigma sobre o sofrimento e a dor. Antes dele, um justo seria sempre abençoado. Mas Jó, mesmo inocente e temente a Deus, passou por provações. Vi nele a figura de tantos Jós de hoje, homens e mulheres que sofrem apesar de serem íntegros.
Como vê esse tipo de injustiça? Quem sofre tenta achar um culpado e aponta Deus. Quero que as pessoas façam as pazes com Ele. Superada essa revolta, a tendência é olhar para si mesmo e analisar: “Como posso viver nas circunstâncias em que vivo? Como dar sentido à minha vida apesar de tudo o que me aconteceu?”. A partir daí, ressignificar a dor.
No segmento da autoajuda, livros religiosos voltaram às listas de mais vendidos, superando a febre dos títulos de desenvolvimento pessoal e finanças. A que atribui esse retorno? É fácil ditar dez maneiras de virar um milionário ou vinte maneiras de ser feliz. As pessoas caíram no engodo de que o problema estava nelas, que se elas não são ricas é porque não se esforçam. Mas esquecem que existe uma conjuntura social que impede essa ascensão. A frustração nos obrigou a voltar ao essencial da vida.
Sua presença nas redes sociais é enorme, com quase 7 milhões de seguidores no Instagram e 5 milhões no YouTube. Qual o segredo dessa popularidade? As pessoas estão buscando conteúdos mais extensos e profundos. Tenho um programa diário de uma hora de duração, em que me ligam para pedir aconselhamento. Devo ser o mensageiro daquele que me enviou, que é Jesus. Tento marcar a vida das pessoas o dia todo. Ofereço conteúdo das 5h30 da manhã até o fim do dia.
O sacerdócio já foi uma atividade mais discreta. Como enxerga essa mudança? É uma necessidade. O papa Francisco dizia para os padres saírem das sacristias. O papa Bento XVI dizia que temos um novo continente a ser civilizado, que é o mundo digital. Temos que ser uma presença de Deus na internet, porém, sem sermos ridículos nem exibicionistas.
Em ano de eleições, o que pensa da relação entre Igreja e política? Padres não devem tomar partido, nem apoiar candidatos, mas temos um papel importante de orientar as pessoas a olhar o histórico dos candidatos. É preciso distinguir se a pessoa viveu a religião a vida inteira ou se ela está se apropriando da fé indevidamente.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002







