Quadrinista francesa desmistifica tabus sobre saúde mental e identidade
Com os lançamentos de 'Cara ou Coroa' e 'Raízes', Lou Lubie coloca em debate o impacto da ciclotimia e do racismo capilar
Não é preciso ter lugar de fala para gostar de — e recomendar — Raízes (Nemo) ou Cara ou Coroa (Buzz), da quadrinista francesa Lou Lubie, que estão sendo lançados simultaneamente no Brasil. Nascida no departamento ultramarino das Ilhas Reunião, na costa oriental da África, Lubie fala, nesses dois trabalhos, sobre preconceito racial e saúde mental. São abordagens leves, mas não por isso pouco aprofundadas — há uma pesquisa bem rigorosa por trás dessas histórias.
A dualidade entre o riso e a seriedade científica acompanha a carreira da autora desde o seu primeiro grande sucesso europeu. Em Cara ou Coroa, o leitor é apresentado de forma lúdica à ciclotimia, um transtorno de humor que faz parte do espectro bipolar. Na obra, a patologia ganha a forma física de uma simpática, mas imprevisível raposa que o alter ego de Lou precisa aprender a domesticar.
Embora aclamada pelo público e por profissionais de saúde pelo seu caráter didático, a obra carrega um peso íntimo. Escrita quando Lubie tinha apenas 24 anos, a HQ expôs profundamente sua própria vivência. “Não sendo médica ou psiquiatra, senti que minha única legitimidade para falar do assunto era expor a mim mesma”, explica a autora. A enorme exposição de sua intimidade, porém, a machucou tanto na época do lançamento que Lou fez uma promessa para si mesma: nunca mais escreveria nada de teor estritamente autobiográfico.
Essa promessa moldou diretamente a criação de Raízes (Racines), que, apesar de ser frequentemente classificada como biografia, é declaradamente uma obra de ficção. A narrativa acompanha Rose, uma jovem de pele clara que herda o cabelo crespo de seus ancestrais negros.
A própria Lubie possui o cabelo cacheado ou frisado, mas fez a escolha artística deliberada de dar a Rose cabelos crespos para criar um isolamento de variáveis estéticas. Ao retirar a cor da pele do centro do debate, a autora demonstra como a textura do cabelo, isoladamente, funciona como um potente e silencioso vetor de discriminação racial e exclusão social. “Eu queria que pessoas de cabelo liso se importassem, que homens e até homens calvos compreendessem a gravidade do assunto”, revela.
E o rigor de Raízes vai muito além do debate estético. A obra é recheada de infográficos e dados históricos e biológicos fascinantes. Lubie resgata, por exemplo, o papel histórico das tranças nas colônias escravistas das Américas e Caribe, onde os desenhos nos cabelos serviam como verdadeiros mapas de rotas de fuga ou esconderijos para sementes e ouro que garantiam a sobrevivência dos escravizados evadidos.
A HQ também faz uma denúncia contundente ao preconceito institucional na Europa: até 2023, as escolas oficiais de cabeleireiros na França não ensinavam o cuidado de cabelos texturizados. Pior: em manuais técnicos franceses distribuídos até o ano de 2010, o cabelo crespo em toda a cabeça era oficialmente catalogado sob a rubrica médica de “afecção congênita”.
Toda essa clareza didática e facilidade de leitura das HQs de Lubie decorrem diretamente de sua formação acadêmica em game design. Ela aplica conceitos da disciplina para estruturar as páginas, focando obsessivamente na legibilidade, no controle de balões e até na escolha de fontes acessíveis para leitores com dislexia.
Curiosamente, Lou Lubie confessa que não gosta de desenhar e acha o processo físico da ilustração doloroso. Para ela, o desenho é apenas uma ferramenta de comunicação imediata. Atualmente, consolidada no mercado europeu, a autora resolveu dar um tempo no próprio traço. Enquanto atua apenas como roteirista em novos projetos de quadrinhos, ela lança em outubro de 2026 o seu primeiro romance de fantasia juvenil em prosa, La Marche du Monde. Os leitores brasileiros têm, portanto, o privilégio de receber o ápice da jornada visual e investigativa de uma das artistas mais completas da atualidade.







