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Por dentro da nova tradução de O Senhor dos Aneis

O tradutor Ronald Kyrmse, falou a VEJA sobre os detalhes da edição que acaba de chegar às livrarias e o universo de J. R. R. Tolkien

Por Maria Clara Vieira Atualizado em 20 dez 2019, 19h50 - Publicado em 20 dez 2019, 19h10

Há 25 anos, a história de Bilbo, Frodo, Galdalf, Legolas, entre outros heróis da Terra Média desembarcava em terras brasileiras pela primeira vez em português tupiniquim. Considerada uma das sagas de maior sucesso da história, O Senhor dos Aneis, de J. R. R. Tolkien, arrebanhou fãs pelo mundo inteiro, ganhou as telonas, os jogos, virou tema de teses de doutorado e até de vídeos em canais religiosos. Este ano, a trilogia clássica ganha nova edição pela editora Harper Collins, junto com outros títulos inéditos do autor. Consultor da tradução de 1994 e responsável pela nova versão, o paulista Ronald Kryrmse se debruçou durante um ano nas mil páginas – com mais de meio milhão de palavras – que compõem a obra, com o apoio de um conselho dos especialistas. Abaixo, trechos de sua entrevista a VEJA sobre o resultado, há disponível nas livrarias.

O senhor prestou consultoria à primeira tradução oficial de O Senhor dos Aneis para o português brasileiro. O que mudou? Os tradutores daquela época não conheciam o “mundo secundário” de Tolkien. Não tinham lido a obra inteira. Era como traduzir um quadrinho do Homem de Ferro sem conhecer o universo da Marvel. Eu ajudei a lidar com a questão dos nomes. Tolkien era linguista deixou instruções específicas. Proibiu, por exemplo, mexer nos nomes na língua élfica. Foi nesta primeira versão que Bilbo Baggins virou Bilbo Bolseiro.

Ela tem erros? Tem frases com informações importantes que acabaram suprimidas. No Conselho de Elrond, o mago Gandalf conta que, quando foi até a torre de Saruman para conversar, o vilão estava esperando ao pé da escada e com um anel no dedo. Isso sumiu na tradução. Não é o Um Anel, mas indica que ele já estava à procura dos anéis do poder. Para revisar detalhes desse tipo, criamos um conselho de quatro pessoas. Esta nova tradução foi feita a muitas mãos.

Há mudanças na fala dos personagens? Sim. Procuramos respeitar o tom e a forma da linguagem. Na primeira tradução, todo mundo usa “você”. Isso sempre me incomodou. Os elfos são uma raça muito mais antiga do que os hobbits e deviam ser tratados com mais respeito. Agora, o pronome de tratamento corriqueiro é tu. Os hobbits, um povo rural, se tratam por “você”. Mas se referem aos elfos como “vós”.

Dá para dizer que a tradução respeitou os sotaques? Não é exatamente o sotaque, porque isso soaria falso. Mas o vocabulário é diferente, sim. Os hobbits usam uma linguagem mais informal, com palavras do dia-a-dia, enquanto os elfos preferem termos arcaicos. Já os orques, uma raça muito bruta e ignorante, falam sem plural nem concordância.

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O que é mais difícil de traduzir em Tolkien? Os poemas. Só em O Senhor dos Anéis há setenta poemas e canções, com métrica e rimas próprias. Procurei manter tudo no mesmo lugar, de modo que, se alguém quiser cantar o poema em inglês ou em português, pode usar a mesma melodia.

Muitos autores contemporâneos dizem ter se inspirado em Tolkien. Algum se compara a ele? Não. Ninguém na história passou cinquenta anos criando os mitos, idiomas, histórias, povos e culturas  de um mundo imaginário. Desculpe, mas não dá para comparar com A Guerra dos Tronos, muito menos com Harry Potter.

Os potterheads contra-argumentam que esta não era mesmo a proposta. De fato, não era. Um crítico certa vez disse que em meio século Tolkien criou um povo inteiro, com todas as suas características. Se o personagem passa por uma montanha, ela tem nome, e o nome está relacionado a alguma batalha, é assim por diante. É um feito sem precedentes, difícil de ser imitado.

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