Pasquale Cipro Neto: “É difícil ler Machado”
O linguista e professor retorna à Rádio Cultura, defende maior presença de atrações educativas na TV e se diz em paz com a linguagem neutra
O senhor está de volta com o programa Letra & Música, em que analisa composições clássicas brasileiras. Como foi retomar esse trabalho depois de onze anos longe da emissora? É muito legal. Foram vinte anos de Cultura, entre rádio e TV, e tenho a impressão de que nunca saí. As pessoas são muito respeitosas e afetuosas com meu trabalho. Agora, quero mostrar que existe música boa no baú.
Seu outro programa na Cultura, o Nossa Língua Portuguesa, transmitia conhecimentos do idioma para além da sala de aula. O que diria para defender mais produções desse tipo? A democratização do ensino é fundamental. A língua, nas suas diversas variações, é um patrimônio do ser humano. Levar isso para a TV e para o rádio mostra que ela é de todo mundo, cada um na sua forma de expressão.
As letras de canções brasileiras são ricas em termos de linguagem? A literatura presente na música brasileira de qualidade é muito forte. Como professor, é imprescindível trabalhar clássicos como Machado de Assis, mas também vejo a música brasileira como uma grande escola. No começo, quando eu discutia canções em sala de aula, era repreendido por muitos alunos. Mas os vestibulares me deram razão.
E o que acha de artistas brasileiros que escolhem cantar em inglês ou em espanhol? Isso não é uma novidade, sempre existiu. Mas ainda tem muita música boa em português. Temos nossos gênios vivos, que todo mundo sabe quem são. Também tem a geração de Chico César, Lenine e até mesmo uma garotada mais nova, como os meninos do grupo 5 a Seco. Basta fugir da mesmice chata do que faz sucesso.
São várias as discussões hoje sobre mudanças linguísticas causadas por gírias, abreviações da internet e até pela linguagem neutra. Como vê essas mudanças? Tudo isso faz parte de um processo natural. O mundo anda, a tecnologia e os interesses mudam. Essas variedades todas têm o seu lugar, mas elas não suprem a necessidade do domínio da língua padrão. A norma culta é uma variedade que nem sempre as pessoas entendem e que a escola tem trabalhado cada vez menos.
Isso afeta a capacidade de leitura? Sim. As pessoas falam muito da necessidade de leitura, mas ler não é fácil. É difícil ler Machado de Assis, Fernando Pessoa, Drummond. É preciso dominar a língua para entendê-los.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







