Os olhares peculiares – e contundentes – dos documentários indicados ao Oscar 2026
Filmes usam câmeras não profissionais e clandestinas, uma técnica que causa efeito imersivo — e dá maior impacto às suas denúncias
No dia 2 de junho de 2023, a polícia do condado de Marion, na Flórida, recebeu um chamado de emergência: uma mulher havia sido baleada próximo à casa onde vivia com os quatro filhos pequenos. O endereço já era bem conhecido dos agentes. Havia dois anos, os policiais atendiam com frequência ligações de uma das residentes do bairro: Susan Lorincz, uma mulher branca, então aos 58 anos, que se incomodava de forma exacerbada com as crianças brincando na rua — a maior parte delas, negra. Do outro lado, as famílias relatavam ser vítimas de xingamentos e ameaças da vizinha, que não tinha pudor em direcionar seus excessos verborrágicos às crianças. A animosidade atingiu o ápice quando ela atirou em uma das mães durante uma discussão e alegou legítima defesa.
O caso de enorme repercussão nos Estados Unidos poderia cair no disse me disse não fosse o trabalho primoroso da diretora Geeta Gandbhir em A Vizinha Perfeita, produção da Netflix indicada ao Oscar de melhor documentário. Usando filmagens das câmeras corporais da polícia e das que ficam acopladas às viaturas, além de gravações dos telefonemas de Susan e de depoimentos dos envolvidos, a cineasta americana montou um registro fiel do crime (Susan acabou condenada a 25 anos de prisão) — e da importância da boa postura dos policiais envolvidos.
O formato, que oferece ao espectador uma experiência imersiva no caso, expõe um movimento bem-vindo ao filão documental: dispostos a investigar a verdade, os criadores do gênero hoje usam a seu favor a proliferação de câmeras pela sociedade, sejam as de sistemas de segurança e de agentes da lei, sejam celulares clandestinos em ambientes proibidos. A tendência é comprovada pelos representantes da categoria no Oscar 2026: três dos cinco indicados são feitos de forma não convencional, com cenas até em baixa resolução. Uma estética que, em tempos de imagens perfeitas de inteligência artificial, ajuda a conferir maior veracidade aos filmes.
Na disputa com A Vizinha Perfeita está o estarrecedor Alabama: Presos do Sistema, disponível na HBO Max. Rodado ao longo de dez anos, com celulares contrabandeados nas prisões do estado sulista americano, o filme retrata os maus-tratos sofridos pelos detentos e denuncia um sistema de encarceramento que extrapola sua razão de ser — ou seja, de punição seguida de ressocialização do condenado. A verdade inconveniente revelada ali é que, ao usar mão de obra de prisioneiros sem remuneração e privá-los, sem explicações claras, do direito à liberdade condicional, o estado criou um método de escravidão moderna, no qual lucra 450 milhões de dólares por ano — o que explica a superlotação dos presídios e o investimento em novos complexos.
Outro indicado feito clandestinamente é Mr. Nobody Against Putin, ainda sem data de estreia no Brasil. Nele, o professor de educação infantil Pavel Talankin, hoje exilado, registra de forma amadora as aulas obrigatórias de cunho militar e ideológico, nas quais a escola deve ensinar técnicas de combate a crianças e mentiras sobre a invasão russa da Ucrânia. Na busca por verdades que poucos notam, os documentários descobriram uma janela indiscreta para narrar boas histórias.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





