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Os condes do Vidigal

Ao se encantar pela carioca Daniela Costa, Vassia Tolstói, tataraneto do escritor russo, cria reduto boêmio no Rio de Janeiro

Por João Batista Jr. Atualizado em 3 jul 2018, 00h02 - Publicado em 2 jul 2018, 20h40

Cansado de lidar com modelos infelizes e estilistas esnobes, um fotógrafo francês de ascendência russa perde a mãe para um câncer de mama, se muda de Paris para o Rio de Janeiro em busca de um período sabático e encontra o amor de sua vida nas areias de Ipanema. Parece roteiro de um conto, mas esta é a vida de Vassia Tolstói. Para quem não ligou o nome ao mito literário, trata-se do tataraneto de um dos maiores escritores da história, Leon Tolstói (1828-1910). Vavá, como ficou conhecido por aqui, se encantou pelo sorriso e curvas da carioca Daniela Costa. Era só o começo.

Casados há exatos dez anos, o casal constrói uma história sólida no ramo da boemia. Depois de abrir o Canastra, bar de maior sucesso em Ipanema há dois anos, a dupla inaugurou em meados de maio o restaurante Pulê bem na Praça General Osório, coração do bairro mais famoso da Zona Sul carioca. A casa tem uma enorme grelha feita sob medida logo na entrada, onde é preparado a estrela do cardápio: o frango. Os preços são camaradas, com entradas na casa dos 20 reais. A decoração tem louças com temática tropical.

  • Daqui um mês, a dupla inicia a operação da segunda unidade do Canastra, desta vez em Botafogo, bairro preferido dos hipsters da cidade. Ao todo, a dupla emprega 50 funcionários. Daniela e Vassia atraem para os seus negócios amigos, amigos de amigos e desconhecidos muito animados. Seus restaurantes são cheios de clientes falando alemão, grego e italiano. Entre eles, o ex-jogador Raí, o ator Vincent Cassel, o artista plástico Vik Muniz e o cantor Seu Jorge.

    Para quem se mudou ao Rio para “pensar na vida e desfrutar da arte de não fazer nada”, Vassia hoje se vê trabalhando 15 horas por dia. “Enquanto muitos querem deixar o Brasil, eu aposto no país e penso que haverá uma recuperação.”

    Um irmão de Vassia morreu aos 7 anos vítima de uma leucemia. Assim, desde sempre, o caçula Tolstóizinho viveu intensamente como se fosse por duas pessoas. Aos 18 anos se mudou para Nova York, onde construiu uma sólida carreia como fotógrafo de moda. Entre seus clientes, a maison Dior e a revista Paris Match.

    Vassia aprendeu a falar russo na adolescência, e teve como missão ler toda a bibliografia de seu tataravô. De Guerra e Paz, gostou mais das descrições psicológicas dos personagens do que dos detalhes minuciosos sobre as batalhas. Seu livro favorito é A Morte de Ivan Ilitch, romance de 96 páginas considerado um dos melhores trabalhos do gênio.

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  • O livro fala sobre um juiz recebe uma nova proposta profissional e muda de cidade. Envolvido na arrumação da nova casa, ele sofre um acidente corriqueiro, aparentemente sem grandes complicações, mas as dores se tornam cada dia mais insuportáveis. Enquanto sente a morte chegar, o juiz repassa suas conquistas e percebe como sua vida foi vazia e convencional.

    Ao contrário do que se pensa, os herdeiros de Tolstói não recebem dinheiro de direitos autorais – nem mesmo das obras adaptadas para teatro e cinema. Reformista, o escritor doou tudo o que tinha em vida para os pobres e para a igreja. “E olha que ele foi perseguido pela igreja por muito tempo por abordar temas como traição, tabus naquela época”, lembra o tataraneto. Tolstói teve uma base em Paris, com imóvel situado na Rue de Rivoli, mas morreu em Yasnaya Polyana, residência onde foi sepultado nos arredores de Tula, cidade a 200 quilômetros de Moscou. O local virou um dos museus mais organizados da Rússia. “A herança que ganhei não é dinheiro, mas tradição e admiração por parte das pessoas.”

    Admiração essa demonstrada nos lugares menos prováveis. “Nunca um professor meu da França perguntou do parentesco, mas já fui reverenciado na praia de Cabo Polônio por um uruguaio apaixonado por literatura russa.” Isso sem falar em um cubano, integrante da alta sociedade de Nova York, que parou sua festa de aniversário para agradecer a presença ilustre na pista de dança.

    Não bastasse ser reverenciado ao redor do mundo, o peso de ter Leon Tolstói na árvore genealógica teve como bônus um título aristocrático. Vavá nasceu conde, e sua mulher virou condessa ao colocar a aliança nos dedos. O título surgiu antes da existência do russo, com um tio cujo trabalho foi ser tutor de Pedro, O Grande. De geração em geração, o título foi passado ao escritor e, dele, para seus treze filhos – entre eles Nicolas, poeta e músico, que teve um filho médico, Serge, que migrou para a França durante a revolução bolchevique. Foi em Paris que nasceu o pai do conde instalado no Rio.

    Os aristocratas adoram andar descalços, não usam roupas com monogramas aparentes e moram em uma casa aos pés do morro Dois Irmãos, símbolo máximo do morro do Vidigal e um dos principais cartões-postais do Rio. É preciso subir 98 degraus, em uma escada de pedras, entre paineiras e paus-brasil, até chegar à casa, cuja parede da sala é a própria encosta da pedra úmida do morro. O local é mais fresco que lá fora. Um verdadeiro luxo.

    Donos (por enquanto!) de três estabelecimentos, Daniela e Vassia Tolstói fazem da residência um ponto de encontro de amigos cariocas, paulistas e de outros cantos do mundo. Sem perceber, a dupla transformou o local em um laboratório para os negócios que estariam por vir, com uma diferença: por lá perambulam três gatos, além dos inúmeros macacos e aves que fazem nas árvores seus banquetes matinais. “Adoro estar rodeada de gente que amo”, diz a carioca dona de um sorriso largo. Em tempos de Copa, tais informações são relevantes: Vavá torce para França e Brasil (se os times se enfrentarem na semifinal, favor inclinar para o seu atual país-sede!).

    No Rio, é flamenguista de ir ao estádio do Maracanã. O coração rubro-negro não é lá fiel ao extremo, como as personagens dos livros de seu tataravô, e tem espaço para o francês Paris Saint-Germain. “Eu morei dez anos em Paris, rodei o mundo com amigos – e vim conhecer meu marido e virar condessa justamente no Rio. A vida é sensacional?”. Oui, Daniela!

    O casal de condes no restaurante Pulê: no futebol, Tosltói divide-se entre França e Brasil Reprodução/VEJA
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