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“O segredo é fazer o que gosto”, afirma Robert Plant

Em entrevista exclusiva a VEJA, ele falou sobre amadurecimento, futebol e Elvis — e relembrou as bizarras bandas que já fizeram covers do Led Zeppelin

Por Felipe Branco Cruz - Atualizado em 16 out 2020, 11h56 - Publicado em 16 out 2020, 06h00

Em que fonte da juventude beberam artistas como o senhor, Paul McCartney, os Rolling Stones e seus colegas do Led Zeppelin, para continuar na ativa e produtivos até hoje no cenário musical? Só posso acreditar que eu ganhei um bilhete premiado muito tempo atrás. Não me lembro onde eu o consegui. Alguém na penumbra em alguma esquina me deu esse bilhete que não tem prazo para expirar. Penso que a lição esteja no seguinte: se eu de repente não gostar mais do que faço, não faço mais. Não estou preocupado se as pessoas aprovam ou não meu trabalho. O importante é me manter inspirado, para que a música viva.

Pensa em se aposentar? Continuar trabalhando e cantando para mim não tem a ver com a idade. Tento produzir coisas boas, e é fantástico quando as pessoas gostam.

A fabulosa carreira do Led Zeppelin é cheia de mitos. Um deles é o de que no dia em que o senhor conheceu Elvis Presley ele pediu um autógrafo para a filha dele. É verdade? Não, ele não pediu um autógrafo para mim. O que aconteceu foi que eu encontrei a filha dele várias vezes. Em uma ocasião, ela quis um autógrafo em seu braço para depois fazer uma tatuagem. E eu pensei: “Meu Deus!”. O irônico é que Lisa Marie é hoje uma renomada artista e ficaria bem ridículo se ela tivesse uma tatuagem de Robert Plant em seu braço. E não, não fiz o autógrafo no braço dela.

O senhor sempre deu tudo da sua voz nos shows, desde os tempos do Led Zeppelin. Hoje em dia, se preocupa em pegar mais leve? Não. Eu não acho que pego leve com a minha voz. Depende do projeto que estou cantando. Posso estar trabalhando de um jeito que eu julgue melhor cantar mais gentilmente, porque aquela música pede para eu fazer assim. Quando você interpreta uma música, precisa responder à natureza e ao clima daquela canção. Cada música tem exigências específicas. Quando uma canção nasce, ela diz: “Faça isso, faça aquilo”. Ela pode fazer as pessoas chorarem, pode fazer você chorar. Não preciso ser muscular com a minha voz o tempo todo, apenas no momento correto.

Esse é o segredo para manter sua voz saudável? Não sei. Na verdade, eu tenho tido bastante sorte. O segredo, eu acho, é a vontade de cantar como se não fosse um trabalho. Eu quero fazer aquilo que faço. Em meus shows, eu sei o que fazer. E procuro mudar sempre, com diferentes combinações de músicos, de projetos, e até mesmo de países.

Entre as faixas de sua nova coletânea há a música Heaven Knows, com Jimmy Page na guitarra. Existe alguma chance de os senhores voltarem a gravar juntos no futuro? Nunca sabemos o que nos aguarda ao virarmos a esquina. Eu acho que precisaríamos ir para a Índia e ele, talvez, precisasse começar a tocar cítara, porque não creio que ele tocaria Heaven Knows novamente comigo. Ele fez um bom trabalho nela. Jimmy me disse que tem tocado coisas muito boas, mas não penso que seria provável tocarmos juntos novamente.

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Dá para misturar o batuque do samba com o rock? Muitos ritmos são sugestivos, e poderiam se misturar com o rock. No caso do samba, eu não sei como seria. O rock já se metamorfoseou duas ou três vezes e ainda vai mudar muito mais com o passar dos anos. Eu acho isso tudo muito bonito: é um lado mais romântico da música.

Já se impressionou ao escutar algumas das tantas covers de sua antiga banda? Teve uma chamada Dread Zeppelin, que tocava covers de rock em ritmo de reggae, com o vocalista fantasiado de Elvis, e fez uma cover de Heartbreak Hotel e incluiu um solo de Heartbreaker (do Led Zeppelin) na sua versão. Ficou muito bom. Tem também o álbum Hairway to Steven, que foi outro excelente exemplo. E, claro, houve ainda Gilligan’s Island (Stairway), que igualmente foi ótima, usando a nossa Stairway to Heaven numa paródia do tema de abertura de uma série (trata-se de Gilligan’s Island, série de 1964; a cover é de 1978). Mas não levou muito tempo para nossos advogados se livrarem dessa. Processamos a banda, que teve de recolher todas as cópias do disco com a cover das lojas.

Quem o senhor gostaria de abraçar quando esta pandemia acabar? Talvez Jimmy Page ou John Paul Jones? Para ser sincero, eu acho que preferia abraçar a Patty (Griffin, ex-­mulher, ao lado de quem ele lança agora a música inédita Too Much Alike). Ela me influenciou muito quando viajamos pelos Estados Unidos garimpando um pouco da influência musical de cada região. Viajamos para várias partes do país, e só então eu percebi como alguns estados americanos são muito diferentes uns dos outros culturalmente.

Phil Collins já disse ter sido influenciado por John Bonham, o baterista do Led Zeppelin, e tocou em seus discos-solo. Como é seu relacionamento com ele hoje? Eu ainda me comunico com o Phil, mas apenas para falarmos sobre o Manchester United e sobre o Wolverhampton Wanderers, meu time de futebol. É uma pena, porque ele não fala comigo sobre música. Só sobre futebol.

Está sentindo falta, aliás, de assistir no estádio aos jogos do Wolverhampton Wanderers, seu time do coração? É claro. Eu torço por eles há 65 anos! Eu consegui ir a um dos jogos já neste momento da pandemia, mas porque só havia 300 pessoas no estádio, com as equipes de segurança e médica. Nós tínhamos um ótimo capitão e tudo que dava para escutar naquele estádio gigante e vazio era ele xingando todo mundo.

Uma última pergunta: os fãs do Led Zeppelin podem sonhar em ver no futuro uma nova reu­nião da banda, como aquela realizada no Celebration Day, na Inglaterra, há treze anos? Bem (com jeito sarcástico), eu pude perceber que o seu tom de voz estava indo ladeira abaixo no fim desta pergunta. E essa é a resposta. Obrigado (desliga o telefone).

Publicado em VEJA de 21 de outubro de 2020, edição nº 2709

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