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O eterno feitiço do poder

No segundo 'Animais Fantásticos', só o magizoólogo Scamander é imune a ele — o que o torna o único capaz de deter as tentações autoritárias de um mago

Por Isabela Boscov Atualizado em 4 jun 2024, 16h26 - Publicado em 9 nov 2018, 07h00

Quando Gellert Grindel­wald (Johnny Depp) conjura as imagens do que está por vir, os feiticeiros e feiticeiras reunidos à sua volta sentem o sangue gelar: tanques rolando sobre as cidades da Europa, o céu sufocado pela fumaça das bombas e pela poeira dos escombros e, por fim, uma explosão como nunca se concebeu no passado, de uma luz capaz de cegar. Se antes já parecia sedutora a mensagem que Grindelwald trazia a seus pares — a promessa de um mundo todo governado por magos —, agora ela soa urgente: os seres humanos não têm competência para tomar as rédeas de seu destino. Deixados à própria conta, em pouco mais de uma década (está-se na segunda metade dos anos 1920), novamente vão mergulhar o mundo no horror da guerra. Necessitam de uma mão forte que os guie; e Grindelwald está se apresentando para a tarefa com um pesar que o recomenda àqueles desejosos de persuadir-se. Como poderão os partidários de uma convivência pacífica entre magos e mortais comuns demonstrar que não, a supremacia de uns sobre outros é só um caminho diverso para o desastre? Animais Fantásticos — Os Crimes de Grindelwald (Fantastic ­Beasts: The Crimes of Grindelwald, Estados Unidos/Inglaterra, 2018) estreia no país nesta quinta-feira sem uma resposta para essa indagação, mas com o senso de que necessita comunicar algo fundamental ao seu público — um apelo contra a divisão e, sobretudo, contra o conselheiro traiçoeiro que é o medo.

Segundo filme de um total planejado de cinco, Os Crimes de Grindel­wald vacila, em certos trechos, com uma narrativa menos desenvolta que a do primeiro Animais Fantásticos, de 2016. Mas quando chega ao seu clímax redime-se completamente: talvez nenhum dos nove filmes ambientados no universo da inglesa J.K. Row­ling tenha atingido tão alta voltagem. A linha é a mesma estabelecida pelo Animais Fantásticos original: nem tanto encantamento quanto na série Harry Potter, mas muita robustez no seu duplo entrelaçamento com a história real — a do período entreguerras do século XX e a do presente, na qual a autora e roteirista Rowling costuma demonstrar uma presciência notável. “É como se J.K. observasse a história do sopé, antes mesmo que a montanha se levante”, disse a VEJA Jude Law, que agora assume o papel de um Alvo Dumbledore jovem — ou “menos idoso”, ele corrige, apontando para as entradas na testa.

SEDUTOR –  Grindelwald (Depp): o manejo insidioso do medo (Warner Bros/Divulgação)

Dumbledore, diretor da escola de magia de Hogwarts, tem um papel decisivo na vida do magizoólogo (especialista em animais fantásticos) Newt Scamander (Eddie Redmayne): é seu mentor e incentivador, por identificar nele um atributo raro. Ou, mais precisamente, a rara ausência de um atributo — Newt não cobiça o poder, e essa pureza talvez faça dele o único feiticeiro imune à sedução de Grindel­wald. Curiosamente, embora sejam os dois mais poderosos feiticeiros vivos, nem Dumbledore nem Grindel­wald estão dispostos a um enfrentamento direto; algo, no passado, os liga. Em uma espécie de combate por procuração, Grindelwald busca Credence (Ezra Miller), o garoto órfão de inimaginável potência destrutiva, enquanto Dumbledore recruta Newt para chegar a Credence antes que seu inimigo ponha as mãos nele.

Alianças instáveis movem os personagens de Os Crimes de Grindel­wald, tanto os que já vêm do primeiro filme — entre os quais o padeiro Jacob Kowalski (Dan Fogler) e as irmãs Tina e Queenie Goldstein (Katherine Waterston, numa atuação pálida, e Alison Sudol, novamente radiosa) — quanto os que surgem agora, como Leta Lestrange (Zoë Kravitz) e o alquimista Nicolas Flamel (Brontis Jodorowski). Mas, apesar de não serem os personagens com mais tempo em cena, Dumbledore e Grindelwald é que são o cerne do filme. Por meio deles, J.K. Rowling retoma aqui um tema central de Harry Potter: a maneira como os segredos pessoais do passado viram armas capazes de se voltar contra todo um futuro coletivo. Ju­de Law, que vem do auge de sua carreira até aqui, com a série The Young Pope, previsivelmente faz um trabalho belíssimo como Dumbledore. A surpresa, dados os altos e baixos dos últimos tempos, é que Johnny ­Depp não fica atrás. Em um desempenho repleto de gravidade, distinguem-se nele paixão e rancor, e também cálculo e desequilíbrio.

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Nas mãos de Depp, enfim, Grindel­wald é uma personificação eficaz da tentação autoritária que vem ganhando espaço na geopolítica atual: não é que seus argumentos não tenham uma cota de mérito — é a maneira como ele os maneja que se prova insidiosa e, em última análise, enganosa. O antídoto contra esse feitiço já vem contido, de certa forma, no próprio filme, ou no modo como ele é feito. Sexto trabalho de J.K. Rowling dirigido pelo inglês David Yates, a esta altura quase um cocriador do universo da autora, Os Crimes de Grindelwald é um exemplo eloquente de como a colaboração verdadeira entre as equipes técnica, criativa e dramática multiplica qualidades e enfraquece defeitos.


Do jovem papa ao jovem mago

CHEIO DE SEGREDOS –  Law, como Dumbledore: “questões a resolver” (Warner Bros/Divulgação)

Mais um nome emérito das artes dramáticas britânicas a se juntar ao universo de J.K. Rowling, Jude Law, aos 45 anos, acha que passou da idade de ser chamado de “jovem Dumbledore”. E diz que foi uma alegria trabalhar com a autora cujos livros ele lia para os filhos.

Deve ser uma experiência estranha interpretar um personagem tendo em mente a con­tinuidade ao trabalho do ator que o interpretou antes. Nunca pensei nesses termos. Na linha do tempo do universo de J.K. Rowling, o Dumbledore que já conhecemos está em um futuro distante em relação ao que eu interpreto. É uma bênção rara fazer um papel em que você já dispõe de uma linha clara de ação à sua frente. Se o ator já conhece o destino final, fica livre para se concentrar na trajetória até ele. Pedi ajuda a J.K., e ela me deu um mapa muito detalhado do menino e do jovem que Dumbledore foi, e do homem que ele se tornou, com seus problemas, demônios e arrependimentos. Isso me desobrigou de ter de homenagear de maneira excessiva o trabalho dos dois atores que interpretaram Dumbledore antes de mim. E meu Dumbledore é quase oitenta anos mais jovem que o Dumbledore de Richard Harris e de Michael Gambon.

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Praticamente não há ator inglês de destaque que não tenha trabalhado em um filme de Harry Potter ou, agora, de Animais Fantásticos. Você estava à espera de seu convite chegar?  Não, que pretensão isso seria! O que só tornou maior o prazer de recebê-lo. Descobri os livros de J.K. provavelmente da melhor maneira possível: lendo-os para os meus filhos. É uma experiência duplamente interessante, porque um dos dons de J.K. é não ser condescendente com as crianças e, ao mesmo tempo, acolher com respeito os leitores adultos. Ela sabe combinar a abordagem das questões que nos angustiam no presente — sejam elas pessoais ou políticas — ao mais completo escapismo. São facetas que deveriam se excluir mas que, na escrita dela, casam-se. Esse talvez seja o elemento que responde pela popularidade e pela relevância dos livros dela.

Dumbledore tem uma sabedoria inata — mas e a experiência para lidar com os acontecimentos tão cheios de presságio de Os Crimes de Grindelwald? Essa lhe falta, porque ele tem ainda muitas questões de natureza pessoal e emocional por resolver. Se é que você me entende.

Você vê semelhanças entre Dum­bledore e Lenny Belardo, seu per­sonagem na série O Jovem Papa? Dumbledore é mais compassivo e caloroso que Lenny, que costuma pôr uma barreira entre ele e as outras pessoas de forma a ganhar tempo e decidir como agir. Mas, sim, acho que eles têm traços em comum: ambos adoram jogar com as expectativas alheias e confundi-las — porque isso dá a eles espaço e porque, convenhamos, é muito divertido confundir os outros.

Publicado em VEJA de 14 de novembro de 2018, edição nº 2608

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