Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90

O drama real por trás do filme ‘(Des)Controle’ com Carolina Dieckmmann

Trama sobre mulher alcoolista nasceu da experiência pessoal da produtora Iafa Britz

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 fev 2026, 10h36 •
  • *Confira a seguir depoimento em primeira pessoa da produtora e sócia da Migdal Filmes Iafa Britz, 54 anos

    Quando vimos pela primeira vez o filme (Des)Controle (em cartaz nos cinemas), o meu filho mais novo me abraçou e disse: “Eu amei, mãe. Mas queria tanto que ele não precisasse existir”. Aquilo me atravessou. Na trama protagonizada por Carolina Dieckmmann, uma escritora, mãe de dois meninos e sóbria há anos, tem uma recaída e volta a sofrer com o vício em álcool – drama que eu vivi e serviu de inspiração para o filme. Pensei que ao narrar essa história, curaria as dores do meu passado. Mas ali, ao ouvir aquilo do meu filho, entendi que essa história não é sobre mim. Ela é coletiva. É a história de uma mulher funcional, com família amorosa, trabalho, privilégios, possibilidades e que esconde o alcoolismo. Quando a gente olha de fora, não aparece na cara. Ela sofre em silêncio para fugir dos julgamentos que dizem que é falha de caráter, falta de força de vontade e descontrole moral. Quando, na verdade, é uma doença. Falar sobre alcoolismo ainda é um tabu – e, incentivada por minha família, decidi me abrir sobre isso. 

    Iafa Britz, produtora e sócia da Migdal Filmes -
    Iafa Britz, produtora e sócia da Migdal Filmes – (Jorge Bispo/Divulgação)

    Eu tinha uns 16 anos da primeira vez que bebi de verdade. Ia passar um ano fora e pensei: “Não posso viajar sem saber o que é beber”. Morei em Israel, num kibutz, e eu sempre passava do ponto. Era a inimiga do fim, bebia até apagar e me colocava em situações de risco. Na juventude, isso é visto como engraçado, mas os sinais estavam ali. Depois dos 25, o meu consumo se intensificou e os efeitos também. Bebia mais, apagava mais rápido, perdia a memória. Eu já trabalhava com cinema e estava por trás da produção de grandes filmes, como Minha Mãe É uma Peça, Nosso Lar, entre outros. Ouvi de amigos que eu bebia muito. Em seguida, passei a beber escondido. Coloquei meu trabalho e tudo o que eu tinha construído em risco. Quando fiz 30 anos, eu estava vazia, solitária e deprimida. Meus pais me disseram para procurar ajuda. Fui a três psiquiatras, até encontrar um que me indicou o grupo de apoio Alcoólicos Anônimos (AA). Ali, entendi que eu tinha uma doença e que poderia recomeçar sem a bebida – uma virada de chave importante. Eu não sabia viver sem beber. Como iria sair, me divertir, me relacionar? Achava que minha vida tinha acabado – quando, na verdade, ela começou.

    Eu já estava fazia catorze anos sóbria quando tive a recaída. Naquele momento, senti que tinha feito muito da vida. Já havia me casado, tido filhos, pagava minhas contas, tinha autonomia e independência, assim como um cansaço e estresse enormes. Tudo isso foi vertido em uma frase perigosa que é: “Eu mereço”. Eu mereço beber. Eu mereço relaxar. A gente cria uma narrativa inteira para justificar a própria compulsão. Na época, o meu filho mais velho devia ter uns 11 anos, e o mais novo, uns 8. Antes disso, não existia álcool na minha casa. Eles nem sabiam a diferença entre vinho e cerveja. De repente, tudo mudou e eles não entendiam o que estava acontecendo comigo. Eu bebia escondido, dizia que não estava bêbada e queria continuar parecendo a mulher sóbria, confiável e sólida. Ao me ver alterada, meus filhos notaram que existia outra versão de mim. Por proteção, criaram uma personagem e deram nome a essa mulher que bebia: ela era a Vânia – ideia que repliquei no filme (Des)Controle, como uma segunda versão da protagonista. Foi a forma que eles encontraram de preservar a imagem da mãe deles. “Essa é a minha mãe. Aquela outra, eu não quero saber dela.” Tive de aceitar que a Vânia existe e continua comigo. E eu preciso trabalhar todos os dias para mantê-la sob controle, pois o alcoolismo não vai embora. Ele fica em silêncio, esperando uma brecha. A decisão de parar é consciente e diária. Eu vivo no “só por hoje”. (Des)Controle era o filme que eu gostaria de ter visto, pois teria me ajudado. Quem sabe ele possa ajudar outras pessoas.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).