O drama real por trás do filme ‘(Des)Controle’ com Carolina Dieckmmann
Trama sobre mulher alcoolista nasceu da experiência pessoal da produtora Iafa Britz
*Confira a seguir depoimento em primeira pessoa da produtora e sócia da Migdal Filmes Iafa Britz, 54 anos
Quando vimos pela primeira vez o filme (Des)Controle (em cartaz nos cinemas), o meu filho mais novo me abraçou e disse: “Eu amei, mãe. Mas queria tanto que ele não precisasse existir”. Aquilo me atravessou. Na trama protagonizada por Carolina Dieckmmann, uma escritora, mãe de dois meninos e sóbria há anos, tem uma recaída e volta a sofrer com o vício em álcool – drama que eu vivi e serviu de inspiração para o filme. Pensei que ao narrar essa história, curaria as dores do meu passado. Mas ali, ao ouvir aquilo do meu filho, entendi que essa história não é sobre mim. Ela é coletiva. É a história de uma mulher funcional, com família amorosa, trabalho, privilégios, possibilidades e que esconde o alcoolismo. Quando a gente olha de fora, não aparece na cara. Ela sofre em silêncio para fugir dos julgamentos que dizem que é falha de caráter, falta de força de vontade e descontrole moral. Quando, na verdade, é uma doença. Falar sobre alcoolismo ainda é um tabu – e, incentivada por minha família, decidi me abrir sobre isso.
Eu tinha uns 16 anos da primeira vez que bebi de verdade. Ia passar um ano fora e pensei: “Não posso viajar sem saber o que é beber”. Morei em Israel, num kibutz, e eu sempre passava do ponto. Era a inimiga do fim, bebia até apagar e me colocava em situações de risco. Na juventude, isso é visto como engraçado, mas os sinais estavam ali. Depois dos 25, o meu consumo se intensificou e os efeitos também. Bebia mais, apagava mais rápido, perdia a memória. Eu já trabalhava com cinema e estava por trás da produção de grandes filmes, como Minha Mãe É uma Peça, Nosso Lar, entre outros. Ouvi de amigos que eu bebia muito. Em seguida, passei a beber escondido. Coloquei meu trabalho e tudo o que eu tinha construído em risco. Quando fiz 30 anos, eu estava vazia, solitária e deprimida. Meus pais me disseram para procurar ajuda. Fui a três psiquiatras, até encontrar um que me indicou o grupo de apoio Alcoólicos Anônimos (AA). Ali, entendi que eu tinha uma doença e que poderia recomeçar sem a bebida – uma virada de chave importante. Eu não sabia viver sem beber. Como iria sair, me divertir, me relacionar? Achava que minha vida tinha acabado – quando, na verdade, ela começou.
Eu já estava fazia catorze anos sóbria quando tive a recaída. Naquele momento, senti que tinha feito muito da vida. Já havia me casado, tido filhos, pagava minhas contas, tinha autonomia e independência, assim como um cansaço e estresse enormes. Tudo isso foi vertido em uma frase perigosa que é: “Eu mereço”. Eu mereço beber. Eu mereço relaxar. A gente cria uma narrativa inteira para justificar a própria compulsão. Na época, o meu filho mais velho devia ter uns 11 anos, e o mais novo, uns 8. Antes disso, não existia álcool na minha casa. Eles nem sabiam a diferença entre vinho e cerveja. De repente, tudo mudou e eles não entendiam o que estava acontecendo comigo. Eu bebia escondido, dizia que não estava bêbada e queria continuar parecendo a mulher sóbria, confiável e sólida. Ao me ver alterada, meus filhos notaram que existia outra versão de mim. Por proteção, criaram uma personagem e deram nome a essa mulher que bebia: ela era a Vânia – ideia que repliquei no filme (Des)Controle, como uma segunda versão da protagonista. Foi a forma que eles encontraram de preservar a imagem da mãe deles. “Essa é a minha mãe. Aquela outra, eu não quero saber dela.” Tive de aceitar que a Vânia existe e continua comigo. E eu preciso trabalhar todos os dias para mantê-la sob controle, pois o alcoolismo não vai embora. Ele fica em silêncio, esperando uma brecha. A decisão de parar é consciente e diária. Eu vivo no “só por hoje”. (Des)Controle era o filme que eu gostaria de ter visto, pois teria me ajudado. Quem sabe ele possa ajudar outras pessoas.





