O documentário da HBO sobre grupo religioso ultraconservador que a Igreja tentou barrar
Processo movido por associação católica quase impediu que a produção fosse ao ar
A HBO Max lançou nesta quarta-feira, 11, a série documental Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho, produção que se debruça sobre o grupo tradicionalista e ultraconservador da Igreja Católica. A série quase não foi ao ar por causa de uma disputa judicial envolvendo a produção.
O documentário investiga denúncias graves envolvendo o grupo, que é acusado por ex-integrantes de práticas como abuso físico e psicológico, alienação parental e diversas violências contra jovens que viviam nos internatos da instituição. Por conta do conteúdo, a associação que representa o grupo religioso entrou na Justiça para tentar impedir a exibição da trama, alegando que os temas abordados estão sendo investigados em um processo criminal sigiloso conduzido pela Promotoria de Caieiras, em São Paulo.
O pedido foi aceito em dezembro do ano passado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que proibiu a veiculação da obra até o encerramento da disputa judicial. Depois do veto, a Warner Bros Discovery recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) argumentando que não é parte no processo e que não teve acesso às informações contidas nos autos da ação, alegando ainda que a decisão do STJ seria uma censura prévia à produção.
No início do mês, o ministro Flávio Dino acatou o pedido da empresa, e liberou a exibição da série argumentando que “não se pode presumir quebra de segredo de Justiça pela mera coincidência de objetos entre procedimentos judiciais e obras artísticas”, e que a imposição de censura prévia “é inadmissível”.
Quem são os Arautos do Evangelho?
Os Arautos do Evangelho são conhecidos por vestirem hábito marrom e branco, com uma grande cruz no peito, no estilo dos cavaleiros medievais. Fundados em 1997 por João Scognamiglio Clá Dias, a organização é uma costela da associação tradicionalista TFP (Tradição, Família e Propriedade). Ao longo de trinta anos, Clá foi homem de confiança de Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP.
Em 2001 os Arautos conquistaram o título de Associação Internacional de Direito Pontifício, concedida por João Paulo II. Ou seja, são concebidos como um “dom de Deus, um carisma útil e necessário para o bem da Igreja e do mundo”. Anos depois, em 2017, o grupo foi denunciado ao Vaticano por práticas que não condizem com as diretrizes da Igreja Católica.
Desde então, o Vaticano investiga a organização e o grupo tradicionalista brasileiro foi colocado sob tutela. “Lacunas sobre seu estilo de governo, a vida dos membros do Conselho (…),pastoral vocacional, formação de novas vocações, administração, gestão das obras e recuperação de recursos”, afirmou a Santa Sé. Hoje, a entidade está presente em aproximadamente setenta países. Tem cerca de 200 sacerdotes e milhares de membros.





