O desafio do SBT para espantar crise – e dar uma virada em 2026
Em meio a mudanças para conter a perda de ibope e a instabilidade nos bastidores, a emissora luta para manter sua identidade e relevância na TV
Nos dois últimos domingos, dias 15 e 22 de fevereiro, o SBT viveu uma situação de simbolismo trágico. Como nas famigeradas invasões bárbaras, quando o Império Romano começou a ruir sob os ataques de tribos nórdicas, a emissora criada por Silvio Santos na longínqua virada dos anos 1980 viu seu maior bastião de audiência cair diante das investidas de uma concorrente. Impulsionada pela transmissão de partidas de futebol do Campeonato Paulista, a Record rompeu, após anos, a tradicional vice-liderança do SBT nas domingueiras, impondo-lhe derrotas históricas no ibope nas duas datas — no dia 15, ficou por doze horas à frente da rival. Não escapou da sina nem o lendário Programa Silvio Santos, comandado pela filha Patricia Abravanel desde a morte do apresentador, em agosto de 2024, que às vezes chegava a incomodar até a líder, Globo.
Mais que um revés circunstancial, o baque diz muito sobre o atual estado de ânimo na emissora: não é de hoje que o SBT vem enfrentando uma preocupante crise de audiência que se reflete em suas receitas (veja o quadro abaixo). Nesse sentido, o ano de 2026 se anuncia como uma encruzilhada decisiva para o futuro do SBT. A direção da emissora — hoje comandada por outra filha de Silvio, Daniela Beyruti — mobiliza várias armas na tentativa de reverter o viés de baixa ao longo do ano e recolocar a programação nos eixos.
Entre os movimentos recentes da gestão de Daniela para exorcizar a má fase estão a criação do SBT News, canal de notícias lançado em dezembro que visa suprir o crônico descaso da emissora com os jornalísticos, que entravam e saíam do ar conforme os humores de Silvio. Em outro front, a empresa busca colher lucros com a Bet do Milhão, plataforma com apostas esportivas, cassino on-line e até o manjado “jogo do tigrinho”. Mas o prato principal é a investida forte (e inédita) na transmissão da Copa do Mundo, liderada por uma dupla de ex-estrelas globais, Galvão Bueno e Tiago Leifert. Num acordo em conjunto com a empresa NSports, foram pagos à Fifa cerca de 25 milhões de dólares pelos direitos para exibir 32 jogos sem exclusividade na TV aberta, concorrendo com Globo e CazéTV.
Para além de esperança para turbinar os números de audiência, a Copa poderá trazer um alívio financeiro providencial. Atualmente, o SBT tem faturamento na casa de 1 bilhão de reais por ano, com um aumento de 12% em 2025, segundo a emissora — o que lhe permite cobrir despesas no azul, mas sem grande margem. Se confirmarem as previsões otimistas da emissora, o torneio trará uma virada nesse jogo. Com a venda de cotas para marcas como Friboi, McDonald’s e Seara, a empresa já teve retorno do investimento e agora projeta uma receita de 3,5 bilhões de reais, segundo publicitário que esteve próximo das negociações. De acordo com o SBT, a emissora projeta um aumento de 25% em seu faturamento.
Tudo isso são aspirações que só o futuro dirá se vão se concretizar, obviamente. Por enquanto, o SBT precisa lidar com a realidade dos números de ibope. Nestes quase dois anos desde a saída de cena de Silvio, as herdeiras vêm se esforçando para conter a queda nos índices. O SBT perdeu a vice-liderança para a Record em 2021 e, ainda que todas as redes abertas vivam uma erosão natural em sua audiência, diante da concorrência com as redes sociais e o streaming, sua situação revela-se mais delicada. Hoje, a Record já tem quase o dobro da audiência do SBT no horário nobre na Grande São Paulo, principal praça publicitária no país.
Nos bastidores, executivos e ex-funcionários apontam que as causas disso remontam aos tempos de Silvio, e persistem na gestão das filhas. Lá atrás, a emissora deixou de cuidar de pilares que hoje sustentam a TV aberta, como o jornalismo, as transmissões de esportes e a dramaturgia. Há tempos a produção de novelinhas infantis foi descontinuada. No setor esportivo, embora a Copa seja a nova menina dos olhos, a rede não cuidou de manter seus trunfos — recentemente, perdeu os direitos da Copa Sul-Americana, que lhe deu alegrias no passado, para a Warner.
Outro traço marcante de Silvio que aparentemente resiste é a tendência a uma programação errática. Na segunda-feira 23, Daniela Beyruti promoveu mais uma entre inúmeras reuniões recentes para fechar uma nova grade de programação. Foram discutidas alterações como a inclusão de um novo telejornal pela manhã e a possibilidade de exibir mais uma novela mexicana. Segundo fontes na emissora ouvidas por VEJA, essa instabilidade se intensificou após a contratação do empresário Rinaldi Faria, dono de canais de TV no interior de São Paulo e do Maranhão e criador da dupla de palhaços Patati e Patatá, em novembro de 2024, como conselheiro do canal. Ele passou a atuar em decisões que iam da programação ao quadro de executivos, resultando na volta do infantil Bom Dia e Cia, extinto anteriormente por baixos índices de audiência — algo que se repetiu poucos meses depois. No processo, houve demissões de nomes antigos como Leon Abravanel, sobrinho de Silvio, após 45 anos de casa. O próprio Faria saiu em novembro passado e, ironicamente, Leon já está de volta como vice-presidente de conteúdo.
Os problemas não poupam nem mesmo o gênero que sempre trouxe mais alegrias ao SBT, os programas de auditório. A contratação de influenciadores como Virginia Fonseca se mostrou uma boa aposta — o Sabadou chega a liderar a audiência do canal no dia que vai ao ar. Semanas atrás, porém, a celebridade anunciou sua saída para se concentrar em seus negócios — e assim surgiu mais um buraco na programação. Quanto aos domingos, não há dúvida de que Patricia Abravanel é uma sucessora competente ao posto que o pai eternizou — e tem tudo para crescer. Se o futebol na Record não atrapalhar, claro. Neste domingo 1º, a emissora vai enfrentar Palmeiras x São Paulo — e em 8 de março haverá a final do Paulistão. O desafio da sobrevivência terá lances dramáticos nos próximos domingos.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





