O cineasta Jeferson De a VEJA: ‘A exceção confirma a regra sobre falta de diversidade’
Prolífico, o diretor lança o filme 'Narciso' nos cinemas em 19 de março, após sucesso da novela 'Garota do Momento'
Um dos cineastas brasileiros mais prolíficos em atividade, o paulista Jeferson De dirigiu seis filmes e participou de quatro novelas e de três séries dentro da última década, safra da qual boa parte se volta ao protagonismo negro. Determinado a expandir as oportunidades para atores e profissionais do audiovisual afro-brasileiros, ele lança mais um longa nesta quinta-feira 19: Narciso, fantasia na qual um garoto encontra um gênio vivido por Seu Jorge e pede para ser parte de uma família rica. O desejo é concedido e o menino passa a viver com membros brancos da elite, sob a condição de que jamais veja seu reflexo novamente.
Em entrevista a VEJA, De destrincha os temas por trás do filme, detalha os cuidados em torno do jovem ator Arthur Ferreira — que fez sucesso na internet sob a alcunha “Nego Ney” — e fala um pouco sobre seu próximo projeto: uma adaptação do best-seller Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.
Jeferson, sua obra já passa pelo terror, a comédia, o drama histórico e o idealismo da novela Garota do Momento. Para você, é importante colocar protagonistas negros no centro de tantos gêneros diferentes? Eu gosto de contar histórias e tenho tido a oportunidade de fazer isso em plataformas diferentes. Há muitos talentos que estão fora das telas, e meu olhar está conectado a eles. São pessoas com uma capacidade imensa de realização, seja na frente ou atrás das câmeras. Para que um talento negro esteja na frente da tela, muitas decisões foram tomadas anteriormente; então, precisamos acessar esses espaços. Esta também tem sido minha função como diretor.
Narciso, assim como seus filmes anteriores, circulou em festivais internacionais. Em meio ao frisson causado pela chegada de títulos nacionais ao Oscar, sente uma abertura do mercado internacional para produções brasileiras? O filme continua sendo exibido nos festivais pelo mundo, entre eles alguns Black Film Festivals nos Estados Unidos e no Canadá (onde alguns dos meus filmes anteriores já tinham gerado bons debates). Neste momento, quando você diz que seu filme é brasileiro, há uma atenção especial por conta do Ainda Estou Aqui e do O Agente Secreto. Mas há também o trabalho intenso que Fernanda Torres e Wagner Moura fizeram ao conectar essas obras à tradição do cinema brasileiro. Nós temos a atenção e espero que seja contínua.
São poucos os cineastas brasileiros tão prolíficos quanto você. Ao longo dos anos, acredita que o mercado passou a ser mais receptivo a histórias comandadas por cineastas afro-brasileiros? Eu acredito que ainda não está tão receptivo quanto se imagina. A aparência na frente da tela pode dar a entender que tudo mudou. Mas nós, negros, não participamos da estrutura de poder no interior de uma produção, e é ali que se definem os caminhos no mercado. O que acontece comigo e com alguns poucos profissionais é pura exceção que confirma a regra sobre a ausência de diversidade nas esferas executivas do audiovisual.
De onde veio a ideia de reinterpretar o mito de Narciso dentro do contexto racial brasileiro? Eu fiz um curta no início da minha carreira chamado “Narciso Rap”, que, basicamente, possui a mesma história. Passados todos estes anos, minha produtora, Cristiane Arenas, propôs desenvolvermos o longa. O foco foi mais preciso em subverter a ideia da beleza. O nosso Narciso, um garoto negro, pobre e órfão, não gosta da imagem que ele tem de si próprio quando se olha no espelho. Então, as pessoas que o amam mudam sua percepção sobre si e sobre o mundo.
Por outro lado, depois de dirigir três temporadas de Escola de Gênios, exibido no Gloob, percebi que este era um tema que seria interessante levar para a sala de cinema (um espaço sem interferência externa dos aparelhos celulares) e levar a plateia a observar as crianças negras de outra forma, diferente de como elas se apresentam nas ruas dos centros urbanos.
Tratar do racismo com atores mirins é muito delicado. Qual foi a sua abordagem com o ator Arthur Ferreira para garantir uma boa experiência? O Arthur é um menino muito ativo e sorridente, então precisamos, o tempo todo, de muito silêncio no set para garantir a concentração dele durante as cenas. Foi o set mais silencioso de que participei até hoje. Mas, nos intervalos, era uma alegria imensa. Arthur é um dos grandes exemplos de meme (quando ainda usava o nome de Nego Ney). Aqui, durante o filme, procurei estabelecer outro tempo para observarmos esse garoto negro, e ele foi entendendo nosso caminho e construiu com muita intensidade.
Com a ascensão da representatividade no audiovisual, espera-se que crianças como Narciso não se sintam ostracizadas. O quanto essa proposta conversa com seu trabalho na novela Garota do Momento? Na TV, tenho tido a oportunidade de trabalhar com temas muito delicados para o país e com profissionais de alto nível, com os quais tenho aprendido a trabalhar para uma audiência de milhões diariamente. No caso de Garota do Momento, foi um desafio diário proposto pela autora Alessandra Poggi e desenvolvido pela diretora artística Nathalia Grimberg. Com elas, atuei como diretor geral e mergulhamos no que chamei de o maior momento de esperança do Brasil, em 1958.
Naquele momento do país, muita coisa aconteceu, mas, tirando o Pelé, nós, negros, não aparecíamos nas fotos cotidianas das revistas. Então, na novela, coube a nós criar (com toda a estrutura dos Estúdios Globo) esse universo que sabemos que nós, negros, tínhamos vivido de alguma forma. O resultado foi sucesso para todos, mas, principalmente para os mais jovens, foi gratificante vê-los crescer como profissionais.
Agora, você trabalha na pós-produção da adaptação de Quarto de Despejo, mais de 20 anos após o curta Carolina. Pode resumir a trajetória desse projeto e dar pistas do que leitores podem esperar? Todas as chaves do longa-metragem estão na obra que dirigi em 2003, chamada “Carolina”. Este curta (vencedor no Festival de Gramado daquele ano) foi a síntese do que realizo agora.
As autoras Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz e Fernanda Felisberto fazem participação no filme. O convite foi uma iniciativa sua? Sim, e minhas produtoras viabilizaram este desejo. Essas escritoras representam, para mim, um guia que me conduz pela vida. É um pedido de bênção!
Existem outros escritores negros do Brasil que espera ver adaptados no cinema? Não posso revelar nomes, mas estamos trabalhando para obter os direitos de outros autores e autoras para adaptar para o cinema.
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