“O balé é minha vida”
Davi Ramos, 25, conta como saltou de uma favela no Rio para um dos mais prestigiados palcos do mundo
O balé entrou na minha vida de forma inesperada. Tinha apenas 12 anos e costumava brincar de entrelaçar as pernas. Um dia minha instrutora de capoeira falou: “Você sabe que isso é uma posição de balé?”. Aquela pergunta ficou na cabeça e abriu um novo mundo para mim. A professora logo sugeriu à minha mãe que me levasse a uma escola de dança. “O menino tem aptidão”, dizia. Fui me interessando mais depois de assistir vídeos de bons artistas, mas, ainda imaturo, tinha uma desconfiança: homem fazer balé no Brasil, afinal, não é algo que se vê todos os dias. Eu era morador da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, e minha mãe rapidamente procurou uma escola perto dali. Fiz uma aula experimental, e acharam que tinha talento. Só que eu estava cheio de dúvidas. A diretora do local ofereceu então a possibilidade de fazer uma semana de graça por lá e decidi aceitar. Fiquei durante esse período, o suficiente para entender que aquela seria a minha vida. Me dediquei muito a partir daquele momento, e o balé acabou me levando longe: há um mês, virei o primeiro bailarino do Australian Ballet, a principal companhia do Hemisfério Sul.
Muita gente não entendeu minha opção pelo balé na comunidade onde morava. Estavam intrigados com o fato de um homem ingressar em um universo que, para eles, era só feminino. Expliquei como a coisa funcionava e, aos poucos, fui recebendo o incentivo das pessoas em volta. A única exceção era meu pai, que preferia me ver jogando futebol. A verdade é que nunca me importei com a reação dos outros, pois sabia o que queria. Apesar dessa certeza, seguir essa trilha não foi nada fácil. A idade com que comecei, 12 anos, já era considerada tardia, o que me exigiu correr atrás. Passava horas em casa praticando, sozinho, e refazia mentalmente os exercícios, pensando em como ser melhor. Parei o vôlei e o basquete, para moldar minha musculatura para as demandas do balé. A ideia de fazer carreira internacional era o plano desde sempre — aqui no Brasil, para o balé, é muito difícil.
Em histórias como a minha, em geral há uma pessoa ao lado para ajudar a enxergar o horizonte. No meu caso, era minha professora, Lorena Boaventura, com quem eu ficava dias inteiros treinando, de domingo a domingo. Ela me inscrevia em concursos nacionais, depois nos internacionais. E assim fui pouco a pouco me destacando. Um divisor de águas foi o Prix de Lausanne, na Suíça, a maior competição internacional de balé. Chamei atenção e, aos 16, ganhei bolsa para estudar na Royal Ballet School, em Londres. Até meu pai, que era contra a dança, me apoiou. Foram três anos na Inglaterra, onde cheguei sem saber inglês e estranhando os dias sempre nublados, mas rapidamente me adaptei: estava focado em vencer. O passo seguinte foi o Balé Nacional Holandês, onde atuei como primeiro solista. Aos 19, já me davam papéis principais.
Cinco anos mais tarde, soube que o diretor americano David Hallberg, uma das figuras que mais admiro, estava no Australian Ballet e escrevi para lá, mostrando meu interesse em entrar na companhia. Muitas apresentações depois, fui promovido à posição de primeiro bailarino. A notícia veio após a exibição de Romeu e Julieta na Sydney Opera House. Ao fazer o anúncio, David me elogiou, mas, confesso, estava tão incrédulo que mal ouvia o que dizia. Corri para o camarim e liguei para minha professora, Lorena. Caímos no choro. Sei da responsabilidade que agora tenho: além de primeiro brasileiro a integrar o Australian Ballet, sou também o primeiro negro ali em posição de destaque. Que meu exemplo ajude a abrir espaço para outros e inspire mais brasileiros a ver a dança como uma possibilidade real. O balé é transformador — ele mudou minha vida.
Davi Ramos em depoimento a Flávio Monteiro
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999







