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No presente da imaginação

Nos contos de 'Cavalos de Cronos', José Francisco Botelho vai do pampa gaúcho à Roma antiga, sempre tornando vivas e vibrantes as mais distantes realidades

Por Jerônimo Teixeira 25 jan 2019, 07h00

Jornalista e historiador municipal da pequena (e fictícia) Mirador, no Rio Grande do Sul, Aparício Nunes Aquidaban define-se com orgulho como um homem fora de seu tempo. Prefere cultivar seu canteiro de alfaces a “participar ativamente da decadência da civilização ocidental”. Por meio de uma estranha peça de mobiliário esquecida no casarão onde mora sozinho, esse misantropo toma contato com um universo alternativo no qual a decadência ainda não conspurcou a civilização — ou, pelo menos, ainda não chegou à sua vizinhança: pela gaveta de um criado-mudo, ele troca cartas com um outro Aparício, habitante de outra Mirador, cujos pacatos habitantes ainda passeiam pelas ruelas de charrete. Aparício é um homem inteligente, mas sua recusa agressiva ao contato com o mundo que o cerca tem qualquer coisa de ridículo. O personagem-narrador de Neste Mundo, um dos dez contos da coletânea Cavalos de Cronos, funciona como um contraponto paródico ao espírito do livro, habitado por outras tantas criaturas em busca de tempos e ilusões perdidas. A ironia do conto distancia o autor do passadismo meio ranheta de sua criatura, mas José Francisco Botelho tem um marcado pendor pelo cultivo de glórias pretéritas e tradições ancestrais (a literatura sendo um desses renitentes arcaísmos). O leitor se vê sequestrado, da primeira à última página, pela atmosfera envolvente mas algo penumbrosa de velhas bibliotecas, pelo fragor de batalhas em que a cavalaria ainda era uma arma essencial, pelo mistério místico de anacoretas medievais que se isolam em tugúrios. Fino tradutor de Chau­cer e Shakespeare, Botelho, colunista de VEJA, aventura-se até a reavivar, em dois contos, a narrativa em verso.

CAVALOS DE CRONOS, de José Francisco Botelho (Zouk; 192 páginas; 42 reais) /

Até onde o enredo se passa nos dias atuais há um deslocamento em relação ao tempo presente que carrega os personagens para um mundo de presságios e maldições — sejam eles representados por um cômico gambá, em Uma Estória Bem Contada, ou por desvairadas matilhas de cães bravos, em O Silêncio dos Campos. “A terra soturna”, a primeira seção do livro, traz histórias ambientadas nos campos gaúchos que Botelho, natural de Bagé, conhece bem. A segunda parte, “Os encontros infernais”, aprofunda o elemento fantástico em narrativas que revisitam a antiga China (O Imperador de Bambu, uma fascinante especulação sobre os modos como se pode reescrever a história), as batalhas navais entre cristãos e turcos otomanos (Romance do Cativo e da Mourisca, em verso) ou as guerras entre Roma e Cartago (O Sonho de Catão, que bem poderia ser uma das Vidas Imaginárias compostas pelo escritor francês Marcel Schwob, a quem Cavalos de Cronos é dedicado).

Com frases torneadas e andamento vibrante, a prosa de Botelho tem o dom de imergir o leitor no universo de sua imaginação — a vivacidade ornamental de sua descrição dos vários povos e raças que se misturavam no acampamento de Aníbal, o general cartaginês, é um exemplo eloquente desse dom. Moderno na ambição com que revisa, sem reverência nem beletrismo, seus antecedentes históricos e literários, Cavalos de Cronos cultiva esse que é o mais antigo dos hábitos humanos: narrar uma boa história.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

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