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Nas salas da raiva, o cliente paga para quebrar tudo

Em cidades pelo mundo, clientes pagam para entrar nas 'anger rooms' e destruir o que veem pela frente. Não é terapia, mas que ajuda a lavar a alma, ajuda

Por Luisa Bustamante Atualizado em 10 dez 2018, 09h23 - Publicado em 17 set 2017, 17h30

O cotidiano está de amargar e sua vontade é sair quebrando tudo? Fácil: dirija-se à anger room mais próxima e ponha para fora seus demônios sem nem precisar limpar nada depois. As salas da raiva, em tradução literal, são cômodos montados para ser destruídos à base de taco de beisebol, porretes e até pé de cabra. Já funcionam em uma dezena de países, no Brasil inclusive, com lista de espera nas noites de maior procura. Pode não ser — e não é — o método definitivo de cura de quem tem sérios problemas para controlar a própria fúria. Mas, como forma de aliviar irritações cotidianas, o ato de destroçar pratos, copos, garrafas e aparelhos eletrônicos em geral é uma eficiente válvula de escape. “O simples ato de agendar um horário e se deslocar até o local já obriga a pessoa a segurar o impulso de agredir. Lá dentro, ela libera sua cólera de maneira segura e controlada. É uma forma interessante de canalização de tensões”, avalia o neurologista Alexandre Ghelman, especialista em controle de raiva.


A repórter botou para quebrar

Daniela Pessoa, de Nova York

Sem dó nem piedade – Daniela: nada como despedaçar eletrônicos Gilberto Tadday/

“Passava das 10 da noite quando me vi em um porão de paredes grafitadas, a meia-luz, rodeada de pés de cabra, tacos de beisebol e marretas. Parecia cenário de filme de terror, mas o galpão localizado no subsolo silencioso de um prédio comercial não muito longe da Times Square, em Nova York, é a sede do The Wrecking Club, um local semissecreto visitado por quem está a fim de quebrar, destruir e espatifar objetos. O simpático dono, Tom Daly, levou-me a uma pequena sala onde estavam dispostas sobre uma mesa de metal (amassada) as coisas que eu viria a destruir: uma impressora, um scanner, um monitor de computador, um telefone fixo, um balde de pratos e um celular (preço do pacote: 70 dólares, ou 220 reais). Daly aprovou meu vestuário (calça, casaco de manga comprida e sapatos fechados, como manda a regra da casa) e providenciou o kit peão de obra: óculos de segurança, luvas e capacete. Assinei um documento em que assumia, entre outras cláusulas, o risco de morrer em decorrência de acidente durante a atividade. Medo… Daly recomendou que eu plugasse o celular na caixa de som e sugeriu uma música — para minha surpresa, o funk Baile de Favela, do MC João. ‘Não sei o que a letra diz, mas acho a batida assustadora’, declarou ele. A letra também, Daly. Ao som de ‘Ela veio quente, e hoje eu estou fervendo’, avancei timidamente com o taco sobre o scanner. Não arranquei nem uma lasca. Mas o batidão acelerou, eu me empolguei e as cacetadas ficaram mais potentes e certeiras. O melhor de tudo, porém, foi arremessar pratos contra as paredes. Garanto: ver e ouvir a porcelana se estilhaçando é muito terapêutico. Meia hora depois, a sessão chegou ao fim e eu percebi que estava exausta. Nunca suei tanto na vida, sem exagero, nem mesmo na academia. Tinha o corpo em bicas — e a alma lavada.”

https://www.youtube.com/watch?v=8Z21ijJbHuI

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