Miguel Falabella fala de ‘Três Graças’, cinema e controle do humor
À coluna GENTE, ator detalha ‘Querido Mundo’, filme que dirige inspirado em peça de sucesso dos anos 1990
Consagrado no teatro e na televisão, Miguel Falabella levou para o cinema uma de suas obras de maior sucesso nos palcos em Querido Mundo, codirigido com Hsu Chien. “O filme nasceu de uma peça minha e da Maria Carmen, encenada nos anos 1990 pela Joana Fomm e pelo Otávio Augusto”, contou o diretor à coluna GENTE durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro, quando o longa teve sua pré-estreia nacional. Estrelado por Malu Galli e Eduardo Moscovis, o filme acompanha uma mulher aprisionada em um casamento opressor que, ao ficar presa nos escombros de um prédio abandonado ao lado do vizinho, encontra a chance de romper com a própria estagnação em um encontro inesperado às vésperas do Ano Novo. Enquanto aguarda o lançamento nacional do longa, ainda sem data definida, Falabella divide a rotina entre projetos no teatro e as gravações de Três Graças, novela de Aguinaldo Silva que marca seu retorno à televisão aberta. À coluna, ele fala sobre a liberdade criativa no cinema, a força das personagens femininas em sua obra e os motivos que o trouxeram de volta ao horário nobre da Globo.
Este é o seu terceiro filme como diretor. O que o cinema representa para você? Não sou o primeiro homem de teatro a fazer incursões no cinema, mas não tenho grandes pretensões cinematográficas. Faço cinema como um espaço de experimentação, de brincadeira com a linguagem. As pessoas tendem a nos colocar em prateleiras. Todo mundo espera que eu passe a vida fazendo Sai de Baixo. E eu não rejeito isso, longe disso. Mas o cinema me dá um prazer enorme por ser um espaço onde posso experimentar.
Em Querido Mundo, você volta a colocar uma mulher no centro da narrativa. Por que as personagens femininas são tão fortes na sua obra? As mulheres são personagens mais interessantes. Elas se expõem mais, dizem mais sobre suas emoções. A dramaturgia mundial está cheia de grandes personagens femininas, e isso sempre me atraiu.
A reação do público chamou sua atenção? Muito. Na cena em que ela diz “tenho tanto ódio que queria que você explodisse” e o botijão explode, o cinema inteiro aplaudiu. Foi quase uma vingança coletiva.
Essa reação foi diferente da que a peça provocava no teatro? No teatro, a abordagem era mais cômica. A peça já começava com a explosão, então o abuso era narrado, não visto. No filme, criei toda uma vida pregressa da personagem até chegar à explosão. Aqui, o abuso aparece. Você vê a violência. Isso muda completamente o impacto.
Recentemente, você voltou à televisão em ‘Três Graças’. Como foi esse retorno? Foi bacana reencontrar a televisão, mesmo sabendo que a minha geração já não está mais ali. Achei importante fazer, principalmente por interpretar um personagem gay, casado há 25 anos, e com uma filha. Isso foi o que mais me atraiu.
Por que? Historicamente, os personagens gays na TV aberta eram caricaturas, com visões preconceituosas. Era sempre o bobo da corte. Achei bonito mostrar um casal normal, como tantos que existem hoje. Um casal que ama e que tem conflitos como qualquer outro.
E o que você pode adiantar sobre os próximos caminhos do seu personagem? Ainda não sei muito. Ele vai descobrir a estátua, mas estou achando que pode ir por caminhos tortuosos por causa da obsessão com a estátua.
Com o trabalho na TV, como fica o teatro e o cinema? O teatro é a minha vida. Vou morrer no palco. O cinema eu continuo fazendo. Inclusive estou escrevendo um novo roteiro de comédia. Mas a minha prioridade sempre foi e sempre será o teatro.
É impossível não falar de Sai de Baixo e do Caco Antibes, que segue vivo na cultura pop. Como você vê esse personagem hoje? É curioso ver crianças de 11 ou 12 anos me reconhecendo por causa de memes na internet. O Caco Antibes nunca foi para ser levado a sério. Ele é um personagem horroroso, e infelizmente representa um tipo que existe no Brasil até hoje: o horror ao pobre, o desprezo de classe. Ele nunca foi herói. Talvez, por eu interpretá-lo com charme e carisma, ele tenha se tornado engraçado, mas é detestável.
Você acha que daria para fazer o Caco hoje? Dá, tudo dá para fazer. Está passando um pouco essa histeria do “não pode”. A dramaturgia vive de conflitos. Se você não tem vilão, não tem história. O vilão precisa ser vilão para que se possa mostrar o que não deve ser feito.
E o humor hoje em dia? É difícil fazer? Acho impossível. Sinceramente, não vejo humor hoje, mas não sou uma pessoa que lamenta. Eu nasci sabendo que ia morrer. Eu fiz, está feito. A vida segue. Continuo fazendo humor no teatro. Fiz uma temporada linda com a Marisa Orth, vamos fazer outra, vou para Portugal com ela, inclusive para filmar. O teatro segue sendo o meu espaço.
E o humor, você se autocensura hoje? Não. Quem não gostar, passa no caixa. Nessa altura da vida, eu não vou me preocupar com o cancelamento. Com a história que eu tenho, isso é impossível.





