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Memória: Vidas que saltaram das telas

As despedidas cinematográficas de 2020

Por Fábio Altman Atualizado em 24 dez 2020, 09h32 - Publicado em 24 dez 2020, 06h00

MAX VON SYDOW, ator

Max von Sydow
./Divulgação

Poucos atores de cinema estão tão atrelados a uma única cena — apesar da carreira longa e bem-sucedida — quanto o sueco Max von Sydow. Em O Sétimo Selo, de 1957, obra-prima incontornável de Ingmar Bergman (1918-2007), ele interpretou Antonius Block, cavaleiro medieval que retorna para sua terra natal, devastada pela peste negra. Ali, em meio ao horror, encontra a figura pálida e fantasmagórica da morte, encapuzada de preto. Na luta contra o inexorável, Block desafia a morte para uma partida de xadrez. Nos longos intervalos dos movimentos — tornados ainda mais lentos por Bergman —, ele procura no campo ao longe algum fragmento da bondade humana. Os diálogos entre as duas figuras são shakespearianos:

Block: “Minha vida tem sido de eternas buscas, caçadas, atos, conversas sem sentido ou ligações. Uma vida sem sentido. Não falo isso com amargura ou reprovação como fazem as pessoas que vivem assim. Quero usar o pouco tempo que tenho para fazer algo bom.”
A morte: “Por isso jogou xadrez com a morte?”
Block: “Ela tem táticas inteligentes, mas até hoje não perdi para ninguém.”

A cena seria repetida dezenas de vezes por outros diretores de cinema e teatro como imitação ou paródia. Depois de Bergman, Von Sydow faria comovente sucesso em Pele, o Conquistador, de Bille August, em 1987. Trabalhou também em Game of Thrones. Morreu em 8 de março, aos 90 anos, na França, de causas não reveladas.

SEAN CONNERY, ator

Sean Connery
Bob Penn/Sygma/Getty Images

Antes dele houve Cary Grant, Clark Gable e Marlon Brando, mas quem inventou o charme no cinema foi o escocês Sean Connery. Ele se revelou ao mundo, depois de rápida carreira como fisiculturista, na pele de James Bond, o agente 007 de sua alteza real. Criou um personagem e complicou a vida de quem viria depois dele no papel, e não apenas pela imponência de seu 1,88 metro, o olhar irônico e os gestos delicados e simultaneamente firmes, sempre colado a mulheres bonitas e taças de dry martinis. “Connery ajudou a demarcar a era moderna dos filmes arrasa-quarteirão”, disse Daniel Craig, o atual Bond, sobre o colega. Ele ainda desfilaria elegância e sagacidade em O Homem que Queria Ser Rei (1975) e O Nome da Rosa (1986), além do longa que finalmente lhe daria um Oscar, Os Intocáveis (1987). Na maturidade, foi o pai de Indiana Jones. Morreu em 31 de outubro, aos 90 anos, em Nassau, nas Bahamas. Sofria de demência.

KIRK DOUGLAS, ator

Kirk Douglas
Bettman Archive/Getty Images

O rosto de traços marcantes e a força física que dispensava o uso de dublês fizeram de Issur Danielovitch, americano filho de imigrantes judeus russos, mais conhecido como Kirk Douglas, nome onipresente nos estúdios de Hollywood. Ele atuou em dramas, faroestes, filmes de guerra e épicos. Ganhou fama internacional no clássico Spartacus, de 1960, dirigido por Stanley Kubrick com roteiro de Dalton Trumbo. Ao convidar Trumbo, Douglas revelou uma faceta respeitada, rara e corajosa — o escritor era um dos alvos preferenciais do tempo da caça às bruxas, movida pelo macarthismo. Trumbo só trabalhava escondido em pseudônimos. Douglas exigiu que usasse seu nome real nos créditos. Morreu aos 103 anos, em 5 de fevereiro, em Beverly Hills, na Califórnia, de causas não divulgadas.

ZÉ DO CAIXÃO, cineasta

Zé do Caixão
./Divulgação

Os filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, eram horríveis como a figura que ele encarnava — e talvez por isso mesmo ganharam tanta notoriedade. Eram o horror em todos os sentidos, feitos para assustar, mas também para revelar precariedade. E lá vinha o homem de capa preta, unhas longuíssimas e olhar fantasmagórico em busca de suas presas. Filho pródigo das produções da Boca do Lixo paulista, o diretor fazia das tripas coração para lançar seus trabalhos. Nos créditos de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964, seu primeiro longa, há agradecimentos à funerária que emprestou os esquifes. Em Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver, de 1967, pôs em cena 500 aranhas de verdade. Morreu em 19 de fevereiro, aos 83 anos, em São Paulo, de broncopneumonia.

TERRY JONES, diretor e ator

A Vida de Brian, filme lançado em 1979, está em nove das dez listas das comédias mais engraçadas de todos os tempos. A obra-prima do grupo britânico Monty Python, sátira ao tempo de Jesus Cristo, foi dirigida por Terry Jones, um dos seis membros do bando, talvez o mais cerebral, irônico e inventivo. No longa, um de seus vários papéis é o de Mandy Cohen, a mãe de Brian, o filho de Deus, de cuja boca saiu uma frase hoje clássica e blasfema para os católicos: “Ouçam aqui! Ele não é o messias, é um garoto muito travesso!”. Em 2016, Jones foi diagnosticado com um tipo raro e severo de demência. Morreu em Londres, em 21 de janeiro, aos 77 anos.

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OLIVIA DE HAVILLAND, atriz

Olivia de Havilland
Hulton Archive/Getty Images

Aos 23 anos, a atriz americana Olivia de Havilland ganhou o papel que nunca mais se descolaria de sua imagem — a tímida e doce Melanie de …E o Vento Levou, de 1939, o clássico dos clássicos, “cancelado” em 2020 por sua representação exagerada e grotesca dos escravos negros. Seria o caso também de revisitar a figura de Olivia, no avesso do que o estrondoso sucesso de juventude faria supor. A placidez da moça escondia uma mulher destemida e intensa. Quando ficou infeliz pelos papéis bobinhos que Hollywood lhe empurrava, travou uma guerra na Justiça contra os grandes estúdios que controlavam a carreira dos atores com contratos abusivos. Ela venceu e abriu precedente nas leis trabalhistas americanas. Houve alguma tentativa de boicote contra Olivia, mas não colou — com Só Resta uma Lágrima, de 1946, e Tarde Demais, de 1949, ela ganharia dois Oscar. Mas essas conquistas o tempo levou. Tinha 104 anos. Morreu em 26 de julho, em Paris.

ENNIO MORRICONE, maestro e compositor

Ennio Morricone
Paul Bergen/EFE

O compositor e maestro italiano Ennio Morricone gostava de celebrar a trilha sonora como um elemento de vida própria no cinema — tão ou mais relevante que as próprias imagens em movimento. “Alguns filmes funcionam muito bem com composições de Bach ou Mahler que existiam muito antes da invenção do cinema, comprovação de sua autonomia”, disse certa vez. Morricone, autor de melodias para mais de 500 produções europeias e americanas, era capaz de derreter corações, provocar medo ou manter o suspense com as orquestras que ele mesmo regia. Foi indicado a seis Oscar, mas só ganhou um em 2007, pelo conjunto de sua obra, e um segundo por um de seus últimos trabalhos, Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino. Mas o que o tornou mundialmente conhecido, e identificável de olhos fechados, foi sua mistura de mil tons e efeitos sonoros para os faroestes de Sergio Leone nos anos 1960, como Por um Punhado de Dólares e Três Homens em Conflito: era um relógio de bolso tiquetaqueando, uma placa rangendo ao vento, uma harpa vibrante, chicotes estalando, tiros e gemidos lamentosos. Era, enfim, a música como sinônimo de cinema. Morricone morreu em 6 de julho, aos 91 anos, de complicações de uma fratura no fêmur, em Roma.

JOEL SCHUMACHER, diretor

Os filmes do diretor nova-iorquino Joel Schumacher são movimentados como foi sua vida. Antes de chamar atenção, nos anos 1980, com produções estilizadas, marcadas por altos e baixos, ele viveu uma montanha-russa particular de emoções. Perdeu o pai aos 4 anos e começou a beber aos 9. Na adolescência, descobriu o LSD e a metanfetamina. A porta de entrada para o cinema veio na função de figurinista. Mostrou que tinha talento para a direção com o filme cult de vampiros Os Garotos Perdidos (1987), e recebeu aplausos com longas intensos, como Um Dia de Fúria (1993) e Por um Fio (2002). A fama mundial veio com dois filmes do Batman, na fase mais colorida e controversa do Homem-Morcego: vivido por George Clooney, o herói ganhou mamilos na roupa que marcavam seu peitoral, alusão a uma possível bissexualidade do personagem. Joel Schumacher morreu em 22 de junho, aos 80 anos, de câncer, em Nova York.

LEONARDO VILLAR, ator

Leonardo Villar
./Reprodução

Zé do Burro, um homem matuto que promete a uma mãe de santo doar suas terras aos mais pobres e carregar uma cruz até uma igreja católica caso seu jumento recupere a saúde, é um dos personagens do cinema brasileiro mais conhecidos no exterior — e possivelmente um dos mais desdenhados pelas bandas de cá. Zé do Burro foi vivido pelo ator Leonardo Villar em O Pagador de Promessas, de 1962, dirigido por Anselmo Duarte — a única produção brasileira a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, vencendo obras como O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, e O Eclipse, de Antonioni. Villar depois faria muito sucesso como galã de novelas, como Barriga de Aluguel (1990), Laços de Família (2000) e Coração de Estudante (2002). Aos 87 anos, fez seu último trabalho na televisão: Passione (2010), de Silvio de Abreu, em que interpretou um idoso que se envolve em um triângulo amoroso. Morreu em 3 de julho, aos 96 anos, em decorrência de uma parada cardíaca, em São Paulo.

CHADWICK BOSEMAN, ator

Chadwick Boseman
./Divulgação

Pantera Negra, de 2018, da Marvel, fez história. Foi indicado a sete Oscar (ganhou três) e arrecadou mais de 1,3 bilhão de dólares em todo o mundo. Quebrou um paradigma — tolo, ultrapassado e constrangedor — segundo o qual o público veria sempre com desconfiança elencos negros e histórias negras. Ao contrário, pode ter muito a favor delas. Parte do sucesso pode ser colocada na conta de um ator magnífico, que chegou a ser considerado um dos mais sexy do mundo, Chadwick Boseman. Ele era tão bom, tão convincente e tão espetacularmente carismático que o estúdio não teve receio algum em apostar 200 milhões de dólares na produção. Era um dos expoentes de um movimento que, entre os artistas de cinema, ecoava os protestos por direitos iguais que culminariam no movimento Blacks Lives Matter. Desde 2016 lutava contra um câncer no cólon em estágio avançado, e nem por isso deixou de trabalhar ou expor suas opiniões. Morreu em 28 de agosto, aos 43 anos, em Los Angeles. Cedo demais.

ALAN PARKER, diretor

Alan Parker
Michel Putland/Getty Images

Formado profissionalmente nas agências de publicidade, Alan Parker tinha raro apuro visual, algum maneirismo com a câmera que autorizava um rótulo indevido, o de cineasta comercial, e só. E, no entanto, ao longo de sua carreira, ele mostrou ser um mestre da versatilidade. Foi dos thrillers aos musicais, do drama social à pieguice. Com O Expresso da Meia-Noite (1978), sobre o pesadelo de um homem condenado à prisão por tráfico na Turquia, recebeu sua primeira indicação ao Oscar. Dez anos depois, a segunda indicação viria com Mississippi em Chamas, trama potente sobre racismo e direitos civis nos Estados Unidos. Nos musicais, ganhou notoriedade ao dirigir, em 1982, a adaptação cinematográfica do álbum The Wall, do Pink Floyd. De Madonna, extraiu performance memorável em Evita, de 1996. Alan Parker morreu em 31 de julho, aos 76 anos, de causas não reveladas pela família, em Londres.

Publicado em VEJA de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719

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