Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

Memória: A palavra e a verdade

As despedidas em 2020 na literatura

Por Fábio Altman Atualizado em 8 jan 2021, 18h53 - Publicado em 24 dez 2020, 06h00

RUBEM FONSECA, escritor

Rubem Fonseca
Fernando Pimentel/VEJA

“Realismo feroz”, eis o tipo de literatura praticada por Rubem Fonseca, mineiro de Juiz de Fora radicado no Rio de Janeiro que aprendeu a escrever nas noites de plantão na delegacia como policial. Tudo o que era humano, demasiadamente humano — a crueldade, o egoísmo, a amoralidade e o cinismo, mas também doses de altruísmo e honestidade —, servia de tema para seus contos e romances. O estilo cru, cortante como faca afiada, produziu alguns dos mais celebrados trabalhos em língua portuguesa. O primeiro romance foi O Caso Morel, de 1973. Com o segundo, A Grande Arte, de 1983, ganhou o Prêmio Jabuti. Recluso e avesso a entrevistas, Fonseca criou uma aura de mistério sobre si que só amplia a atração por sua obra. Entre seus grandes momentos estão os devastadores contos de Feliz Ano Novo (1975) — censurado no regime militar — e o ácido Agosto (1990), no qual iluminou o ninho de cobras que liga o mundo do crime à política, em torno do suicídio de Getúlio Vargas, adaptado com sucesso pela Globo em 1993. As histórias de seu personagem mais conhecido, o detetive Mandrake, foram transformadas em série pela HBO, exibida entre 2005 e 2007. Morreu em 15 de abril, aos 94 anos, de infarto, no Rio de Janeiro.

SÉRGIO SANT’ANNA, escritor

O carioca Sérgio Sant’Anna gostava de escrever, sem predileção especial por um gênero ou outro. Bebia de João Gilberto Noll, Dalton Trevisan e — Rubem Fonseca. Afeito à experimentação, jogava nas onze. Encaixava poesia com novela, conto com romance. “Não gosto da palavra contista”, disse certa vez. “Prefiro ser chamado de ficcionista, não quero ficar aprisionado a nada.” E nunca ficou. Lê-lo é como mergulhar nas entranhas do Brasil, em ambiente permanentemente erótico e irônico. Advogado de formação, Sant’Anna estreou na literatura com os contos de O Sobrevivente (1969). Refletia nos textos seus gostos e desgostos em relação à cultura e à política nacional — faceta que salta aos olhos no ótimo livro O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1983). Torcedor fanático do Fluminense, tinha particular apreço pelo futebol, pano de fundo de muitas tramas, como a novela Páginas sem Glória (2012). Morreu em 10 de maio, aos 78 anos, no Rio de Janeiro. Tinha Covid-19.

LUIZ ALFREDO GARCIA-ROZA, escritor

Psicanalista de formação, o carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza começou tardiamente na literatura, aos 60 anos, com a novela O Silêncio da Chuva, publicada em 1996, obra que lhe rendeu o Prêmio Jabuti e apresentou ao mundo uma de suas criações mais conhecidas, o detetive Espinosa, homem culto e metódico. A figura era quase o oposto do Mandrake de Rubem Fonseca. Se para Fonseca tudo era realidade, a vida como um filme policial, nervoso, agitado, sempre nas madrugadas, para Garcia-Roza o que valia mesmo era a psicologia, o balé permanente entre o ego e o superego de seus personagens. Bebia, evidentemente, de suas referências pessoais ao lado do divã, levadas ao papel em estilo seco, conciso, sem gordura alguma. Garcia-Roza morreu em 16 de abril, aos 84 anos, no Rio, depois de sofrer um acidente vascular cerebral.

Publicado em VEJA de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719

Continua após a publicidade


Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo da VEJA! Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.

a partir de R$ 39,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Edições da Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 19,90/mês