Mateus Solano: ‘O Félix é eterno’
O ator de 44 anos opina sobre o sucesso longevo de um dos personagens gays mais marcantes das novelas e analisa a maré conservadora na TV
Atualmente em cartaz em São Paulo, seu monólogo O Figurante fala dos atores que trabalham de forma anônima em produções de cinema e TV. Quanto há de inspiração nessas figuras reais? Havia uma constante inevitável em todas as produções da Globo, o Augusto Mucke (ator morto em 2023 e conhecido nos bastidores por seus papéis sem falas em filmes e novelas). Ele chegava e falava: “Você não sabe com quem eu gravei hoje? Glória Menezes, ela gosta muito de mim, trabalhamos juntos há muito tempo”. Era figurante, mas superamado por todos. O projeto foi também uma homenagem.
Figurantes não se tornam celebridades. Encara isso positivamente? O status de celebridade tem ônus e bônus. A peça se interessa mais em pensar que o ser humano se entende como protagonista na Terra, mas faz, na verdade, só uma figuração. Meu personagem aprende a ver a beleza disso. Somos todos figurantes.
A novela Amor à Vida completou doze anos de estreia. Qual é o legado de Félix? As pessoas continuam assistindo às cenas icônicas, pena que o streaming não remunera propriamente. Mesmo assim, preciso dar o braço a torcer. Às vezes, vem uma criança falar comigo na rua e me chama de Félix. Eu digo: “Você não era nem nascida”, e ela responde: “Não, mas vi no Globoplay”. Sou muito grato, o Félix é eterno. Vou ser lembrado para sempre por um personagem querido que é uma Odete Roitman com muito humor.
Por que acha que o personagem é tão longevo? Ele era muito engraçado, muito ferino. Ainda estamos entendendo o que é o politicamente correto, e o Félix já era totalmente avesso a isso. Quanto ao quesito LGBT+, eu o vejo como uma parte absolutamente importante dos avanços. Percebo isso mais hoje, até, do que dez anos atrás.
Mesmo assim, beijos e enredos homoafetivos foram cortados de novelas como Vai na Fé e Garota do Momento. O Brasil ficou mais conservador? Não. Os conservadores têm tido mais espaço e palanque, mas a humanidade está, queiram eles ou não, progredindo. O que acontece é que a TV vai perdendo público para a internet e então precisa levar em conta que metade do Brasil pensa de um jeito e metade, de outro. Daí, ela tenta conquistar as duas partes. Só que a gente está falando, na verdade, de um momento em que tem muito mais gente podendo assistir, dar opinião — e não assistir à TV também, se não quiser. Com essas mudanças velozes, fica difícil entender o que está acontecendo e o que vai dar certo.
O que mais o assusta nessas variáveis? Me sinto cada vez mais cercado pela inteligência artificial — em comerciais, vídeos ou atendentes virtuais nas redes. Somos alertados há anos, desde Blade Runner. Sei de contratos nos quais o ator cede a imagem para avatares que são depois usados sem remuneração. Tudo o que temos para vender é nossa imagem, e estão rifando isso por aí. Saltei desse bonde, é um perigo.
Publicado em VEJA de 27 de junho de 2025, edição nº 2950







