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Lucian Freud: o resgate do artista que revolucionou a pintura do corpo humano

Uma extensa exposição em Londres reúne desenhos e pinturas para dissecar a fascinação do mestre moderno dos retratos pelos traços das pessoas

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 fev 2026, 08h00 •
  • Quando criança, o pequeno Lucian Freud (1922-2011) preenchia seus cadernos com esboços que denunciavam o que ele seria no futuro. Obcecado pela figura humana, o pintor desenhou obsessivamente até a vida adulta e chegou a atestar ter feito “200 desenhos para cada pintura”. Esse caminho do papel para as telas e a fascinação do artista pelos traços humanos são temas da mostra Lucian Freud: Drawing into Painting, em cartaz na National Portrait Gallery, em Londres, desde o último dia 12. “Existe uma percepção de que Freud parou de desenhar na década de 1950 e dedicou a vida à pintura, mas isso não é totalmente verdade. De fato, pelos vinte anos seguintes, o desenho tornou-se um pano de fundo para sua pintura”, explica a curadora Sarah Howgate no catálogo da exposição.

    Ao longo da história da arte, a figura humana fascinou grandes artistas, levando Da Vinci (1452-1519) e Michelangelo (1475-1564) ao extremo de dissecar cadáveres para retratar o corpo de maneira fiel nas telas. Com a chegada dos movimentos de vanguarda, como surrealismo e cubismo, o preciosismo anatômico foi jogado para escanteio, substituído por retratos que subvertem as feições por meio de traços e cores peculiares, afastando-­as do realismo. No meio dessa efusão, Lucian Freud manteve-se fiel à sua obsessão, estabelecendo-se como um dos maiores nomes do naturalismo figurativo do século XX com seus retratos milimetricamente pincelados. “Ele nunca fez uma obra abstrata, optando por uma abordagem representacional franca, extraída da vida real, que encoraja o espectador a examinar os detalhes da carne”, atesta Victoria Siddall, diretora do museu.

    COMPLEXO - O artista: viciado em sexo e jogo, além de brigão contumaz
    COMPLEXO - O artista: viciado em sexo e jogo, além de brigão contumaz (Luc Castel/Getty Images)

    Com 170 obras em exibição, incluindo cadernos de esboços, desenhos e pinturas famosas, a mostra mergulha no processo de Freud de maneira profunda, destacando figuras íntimas retratadas por ele nas telas e no papel. “Trabalho a partir das pessoas que me interessam, com quem me importo e sobre as quais penso”, declarou ele certa vez. Justamente por isso, gostava de pintar aqueles que estavam fisicamente presentes, posando para a arte. Entre essas pessoas inclui-se a filha Bella, retratada em diversas ocasiões. “Foi assim que conheci meu pai”, disse ela à curadora da mostra sobre o processo de posar para o pintor. A lista de figuras representadas é longa, incluindo a ex-esposa Caroline Blackwood (1931-1996), musa de Garota na Cama, e o artista e amigo íntimo David Hockney. Seu traço era tão cru que um retrato que fez da rainha Elizabeth II causou polêmica por ser considerado pouco elogioso, tamanho seu comprometimento na representação realista das marcas de idade e cansaço.

    Nascido na Alemanha e neto de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, Lucian chegou à Inglaterra aos 10 anos, após fugir do nazismo com a família judaica. No novo país, com o inglês ainda precário, adotou o desenho e a pintura como formas de expressão, destacando-se desde tenra idade. Aos 17, naturalizou-se britânico, o que deu ao país um representante de peso na arte dos retratos. Se sua carreira na pintura é unanimidade, a vida pessoal é repleta de polêmicas. Seu fascínio pela figura humana, por exemplo, não se restringiu às telas: embora tenha sido casado apenas duas vezes, o pintor tinha um apetite sexual insaciável e teve diversos casos extraconjugais ao longo da vida, incluindo supostas relações homoeróticas. A compulsão lhe rendeu uma prole extensa: oficialmente, ele teve catorze filhos, mas o biógrafo e amigo Geordie Greig atesta no livro Café com Lucian Freud que o número pode chegar a trinta. Com fixação pela arte, foi pouco presente na vida dos herdeiros, a não ser nos momentos em que se conectava com eles por meio da pintura, quando lhe serviam de modelo. Fora do ambiente familiar, foi viciado em jogo, se envolveu com agiotas e tinha personalidade explosiva, brigando com diversos amigos e marchands ao longo de sua carreira. Na arte ou na vida, a marca humana de Lucian Freud foi sempre a complexidade.

    Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

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